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Resenha: Lélia Gonzalez – Retratos do Brasil Negro

Dissociar a vida de Lélia Gonzalez da militância nos movimentos negro e feminista é desconsiderar tanto a importância dessa intelectual que se auto-definia como “mulher e negra”, quanto uma parcela significativa da sua existência. Ao concluir a leitura da biografia Lélia Gonzalez – Coleção Retratos do Brasil Negro, a constatação é que só é realmente possível compreende-la através das suas lutas sociais, viagens e escritos.

A obra de Alex Ratts e Flavia Mateus Rios não se aprofunda na vida privada da biografada. Quem espera uma narração convencional sobre a trajetória de uma das intelectuais mais importantes da história recente do país, pode se decepcionar com o caminho escolhido pelos autores, que pincelam apenas os fatos necessários à compreensão da formação do individuo Lélia e, posteriormente, sua atuação como acadêmica e militante, mas não escrevem uma biografia convencional e recheada de fatos picantes. Ainda bem!

Embora comecem a narrativa pela infância em Belo Horizonte, os primeiros anos de Lélia são contados através da família dela: a mãe índia, o pai negro e ferroviário, o irmão jogador de futebol. Mas, no final da obra, uma cronologia é acrescentada para os que desejam um encadeamento dos fatos em sequência.

A própria função da coleção Retratos do Brasil Negro é enfatizar a importância intelectual dos personagens biografados, não necessariamente fazendo um resgate ou reparação, mas reconhecendo e conferindo-lhes o lugar de destaque merecido na História.

Mas, apesar de ser uma obra de cunho ideológico, não é meramente um panfleto. Ao contrário, os dois estudiosos que se debruçaram sobre a vida pública de Lélia Gonzalez são críticos ao analisar as bases do surgimento do Movimento Negro Unificado (do qual Lélia foi uma das articuladoras) e a atuação político-partidária da biografada, que se candidatou duas vezes a deputada por partidos de esquerda.

O interessante na leitura da obra, além de conhecer mais sobre a atuação de Lélia Gonzalez é que a biografada serve de ótimo pretexto para que os autores tracem um panorama rico, e ao mesmo tempo conciso, dos primeiros anos da redemocratização do país após a ditadura militar. Não apenas a origem do MNU é apresentada num painel vibrante de articulação ideológica, como ficamos sabendo um pouco mais sobre a instituição de datas emblemáticas como o Dia da Consciência Negra, o 20 de novembro.

O relato é humanizado por pequenos detalhes da construção da identidade de Lélia como mulher e como negra, pois a própria intelectual, em diversas entrevistas, admitia que na juventude, cedendo às pressões do meio, vestia-se e comportava-se da maneira que se esperava que uma negra e uma mulher se comportassem na sociedade do período.

É importante enfatizar que Lélia nasceu em 1935 e que portanto, sua infância e juventude foram marcadas pelas tensões ainda muito presentes do fim da escravidão, em 1888. Não é à toa que um dos seus livros mais importantes “Lugar de Negro”, mostra as bases dessa opressão e desconstrói diversos mitos da apregoada democracia racial, que nunca existiu – e ainda não existe – no Brasil.

A obra da coleção Retratos do Brasil Negro é a primeira biografia de Lélia Gonzalez, morta em 1994, aos 59 anos. Até então, a professora universitária, antropóloga, pesquisadora e pensadora dos estudos de gênero e raça era mais conhecida no meio acadêmico, ainda assim, em disciplinas específicas sobre o feminismo ou a questão racial.

Lélia Gonzalez teve uma vida riquíssima de experiências e autodescoberta. Como os próprios biografados enfatizam, era uma mulher exuberante (filha de Oxum), popular e erudita ao mesmo tempo e, extremamente carismática, sem contudo apelar para o populismo. Dotada de grande sagacidade de pensamento e olhar crítico sobre a sociedade do seu tempo, deixou diversas contribuições em artigos e pesquisas. A leitura da biografia é mais que indicada e a personagem deveria ser estudada não apenas na universidade.

Ficha técnica:
Lélia Gonzalez – Coleção Retratos do Brasil Negro

Autores: Alex Ratts e Flavia Mateus Rios

Editora: Selo Negro Edições (www.selonegro.com.br)

176 páginas / R$ 21,00

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