Literatura, Resenhas

Resenha: A vida secreta de uma mãe caótica

Quem pensa que mãe e sedução são palavras incompatíveis no dicionário é bom rever os conceitos. A maternidade contemporânea vista sob a perspectiva da escritora britânica Fiona Neill abre espaço para a sexualidade e o desejo em meio a fraldas e mamadeiras. Inspirada em uma coluna que mantém no jornal The Times, na Inglaterra, a autora une em A vida secreta de uma mãe caótica – Ed. Record – elementos de comédia romântica e reflexões sobre o ser mãe x o ser mulher nos tempos modernos. E nos apresenta Lucy, uma divertida anti-heroína que tenta dar conta do marido, três filhos, tarefas domésticas, vida social, dramas familiares e ainda arranja tempo para cair em tentação e se apaixonar por um pai da escola das crianças.

Lucy não é perfeita como mocinha de novela. É confusa, carente, culpada, fuma feito uma chaminé, se acha quilos acima do peso e consegue pagar tantos micos quanto a conterrânea Bridget Jones. Com a diferença de uma ser dona de casa – mãe em tempo integral no linguajar “político-corretês” – e a outra uma profissional liberal, as duas personagens muito se assemelham. Essa familiaridade da história de Fiona Neill com a rainha das anti-heroínas criada por Helen Fielding nos idos da década de 90 e responsável pelo boom do Chick Lit (literatura feminina moderna), dá um grande conforto ao leitor. É como pisar em caminho conhecido, mas não necessariamente igual.

Maternidade no traço de Picasso. A imagem é uma boa metáfora para a fragmentação da identidade de Lucy, protagonista da história

Fiona Neill tem suas cartas na manga para não ficar à sombra de uma mera imitação. Lucy é inspirada em dezenas de mães que escrevem semanalmente para a coluna de conselho doméstico e sentimental que a autora mantém no jornal de maior prestigio da Inglaterra. A protagonista é um pouco autobiográfica também. Fiona Neill tem três filhos e conhece bem os sentimentos conflitantes das mães atuais, eternamente divididas entre dar tudo de si na educação das crianças e não perder espaço no competitivo mercado de trabalho. Além, claro, de arranjar tempo para aparecer sempre linda, cheirosa e depilada para o maridão, uma exigência do padrão machista da sociedade. É esse avatar de super mulher bem resolvida e capaz de dar conta de multitarefas que as capas das revistas vendem, mas a realidade, nos mostra a escritora, está anos luz de distância. Os terapeutas que o digam…

Em comum com O diário de Bridget Jones – e não tem como ser diferente porque Helen Fielding fez escola – A vida secreta de uma mãe caótica possui a narrativa em primeira pessoa e a construção psicológica da personagem principal. Lucy é tão divertida e atrapalhada quanto a solteirona balzaquiana Bridget, porque encarna o estereótipo de todos os nossos defeitos – e virtudes – femininas (melhor dizendo, humanas). Além disso, também vive um dilema bridgetiano: deve escolher ficar com o sujeito certinho e meio previsível (o marido Tom) ou jogar-se numa aventura com um conquistador charmoso e pai dos coleguinhas de seus filhos no ensino fundamental?

Sentindo-se engolfar pela rotina doméstica entediante, a aventura – e o adultério que vem de brinde – assemelha-se a uma ilha de prazeres proibidos e secretos que revelariam a essência da verdadeira Lucy, aquela jovem radiante e cheia de projetos antes do casamento. Haja força de vontade para não deixar-se levar. Mas será que Lucy é forte o bastante? Ou será que vale a pena sacrificar a cumplicidade adquirida por uma vida em comum com o marido apenas pelo sabor da aventura?

As torturas psicológicas da personagem são tratadas com muita graça pela autora. Queremos ver Lucy se debater no seu dilema “trair ou não trair o marido, eis a questão?”, porque quanto mais ela se sente culpada, mais confusa fica e mais divertido é o desenrolar da história. A autora também brinca com os conceitos de fidelidade e decoro impostos pela nossa construção social e com a moral apregoada pela religião, sem no entanto subverter ou tecer juízos de valor. Deixa a critério do leitor defender ou jogar pedras em Lucy.

Lucy e Bridget Jones seriam gêmeas se a balzaquiana confusa criada por Helen Fielding fosse casada e mãe de três crianças

Mordaz e irônica – a fleuma britânica atuando em favor da condução narrativa – a personagem é carismática porque encarna dramas da vida cotidiana e ordinária, mas é também muito irritante porque por mais que as leitoras se reconheçam em alguma situação vivida pela protagonista, ninguém gosta de assumir-se passivo diante da vida. No fundo, torcemos para que ela organize não apenas a bagunça na cozinha, mas sobretudo na própria cabeça. A redenção de Lucy é o passaporte para manter o status quo de mulheres modernas e pseudo bem resolvidas. Se ela fracassar, o ideal de mulher maravilha desaba.

A intenção da obra é usar lentes de aumento para acentuar e fazer piada, de forma inteligente e perspicaz, com os defeitos humanos. O livro está cheio de estereótipos impagáveis como a classificação que Lucy faz mentalmente das mães e pais da escola primária: a “mãe alfa” é a super competitiva que, uma vez fora do mercado por conta das obrigações maternas, transforma a própria casa em sucursal de multinacional, estabelecendo regras marciais para as crianças; a “mãe gostosa número um” é a rata de academia e de salão de beleza, com cartão de crédito ilimitado e batalhões de empregados para cuidar das crianças enquanto ela retoca a maquiagem; já as mães caóticas, como Lucy, são as mortais comuns que não tem nem disciplina e nem conta bancária para pertencer às duas categorias anteriores. No meio desse mulherio almodoviano (à beira de um ataque de nervos), está o “pai sexualmente domesticado”, bem casado e dedicado.

No fim das contas, trata-se de uma obra de autodescoberta, mas ao invés de descambar para o dramalhão ou a autoajuda, a autora segue o caminho do escracho e revela-se uma sagaz observadora do comportamento humano, principalmente feminino, diante de tantas exigências e papeis ainda rigidamente demarcados no jogo afetivo e social.

Ficha Técnica:
A vida secreta de uma mãe caótica
Autora: Fiona Neill
Tradução: Cássia Zanon
Grupo Editorial Record (www.record.com.br)
480 páginas
R$ 59,90

*Resenha também publicada no Caderno 2+ do jornal A TARDE.

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