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Resenha: Morte de Tinta

Fechei a trilogia do Mundo de Tinta, de Cornélia Funke :)

Fim do mistério ou o começo de outra história?

Andreia Santana

Com Mundo de Tinta, Cornélia Funke fecha uma das trilogias mais interessantes dos últimos anos no universo da ‘literatura infantojuvenil especialmente feita para adultos’. O conto de fadas moderno da escritora alemã, metáfora para a própria existência da literatura como portal que conduz ao reino da fantasia, ganha neste terceiro e derradeiro (ao menos até o momento) episódio, um desfecho que beira a perfeição.

A narrativa da autora neste final de saga adquire um ar de tragédia shakespeareana, misturada com elementos da literatura gótica, moderna e pop do britânico Neil Gaiman, só para dar uma ideia do ambiente que aguarda o leitor ansioso para percorrer as 576 páginas da obra.

Senti-me em O Mundo de Sofia, obra ícone da geração dos anos 90, escrita por Jostein Gaarder, só que numa versão bem mais assustadora e cruel, com forte inspiração no lado sombrio da história medieval europeia, com seus príncipes poderosos e malvados, em conflito com heróis vigaristas e carismáticos.

Cena de coração de Tinta. Primeiro livro da trilogia virou filme

A história cresceu e ganhou fôlego desde Coração de Tinta (o primeiro) e Sangue de Tinta, o segundo e magistral episódio, revelando além de um ritmo que vai crescendo até a vertigem, o amadurecimento dos personagens e dos leitores. Se em Coração de Tinta somos apresentados aos atores principais desta intrincada e envolvente trama, e no segundo livro a série define seus contornos de misto de conto de fadas, aventura, suspense e romance; neste terceiro livro, Meggie, a menina que perdeu a mãe sugada para dentro das páginas de um livro aos três anos, agora vive os conflitos da adolescência, com suas dúvidas e dores de amor.

A disputa – numa releitura do complexo de Electra – que se estabelece entre Meggie e Resa, a mãe reaparecida – pela primazia do amor de Mortimer Folchart, o pai, marido, encadernador  e agora herói vingador de Ombra, dotado ainda do poder da sua “língua encantada”, dá toda a densidade dramática de um grande conto em homenagem aos laços invisíveis que prendem aqueles que se amam com profundidade. Meggie não sabe lidar com essa mãe desconhecida e ao mesmo tempo tão familiarizada com o Mundo de Tinta, mas aprende a amar Resa a partir do momento em que se permite ver a mãe pelo olhar apaixonado de Mortimer.

Outra cena do filme Coração de Tinta, inspirado no primeiro livro da trilogia. Na foto: Farid, Meggie, Mortimer (Brendar Fraser), Elinor (Helen Mirren) e Dedo Empoeirado (Paul Betany)

Saltimbancos e fadas – Uma grata surpresa é a valorização do personagem Dedo Empoeirado, o coadjuvante outsider do primeiro episódio, que seduz as filhas da morte no segundo livro, e que neste terceiro, ganha status de protagonista, desenvolvendo atitudes heroicas e funcionando como uma espécie de alma gêmea de Mortimer. Além disso, a história do “dançarino de fogo” e de sua mulher Roxane – misto de feiticeira, fada, curandeira e saltimbanco – lembra Romeu e Julieta: terna, intensa e trágica na mesma medida.

Outro personagem da saga que cresce bastante em Morte de Tinta é Orfeu, que se revela a antítese do personagem mitológico do qual rouba o nome, pois ao invés de acalmar o guardião do inferno para salvar a amada Eurídice, este Orfeu criado por Cornélia Funke é dotado de uma lira amaldiçoada e traiçoeira.

Para quem andava também com saudades das loucuras da bibliófila Elinor Loredan, dos resmungos e egocentrismos de Fenoglio (o alter ego da autora) e criador do Mundo de Tinta, ou mesmo ansioso para descobrir como Mortimer vai resolver o imbróglio de ter encadernado a morte entre as páginas de um livro em branco para garantir a imortalidade de um príncipe sanguinário, todas as respostas estão neste capítulo final da saga, sem decepção até para os fãs mais xiitas.

Mortimer Folchart, que no cinema foi vivido pelo ator Brendan Fraser (em Coração de Tinta), vai precisar de mais do que os seus talentos de encadernador ou a língua encantada, para desfazer o imbróglio em que se meteu ao desafiar a Morte

Morte de Tinta, porém, tem alguns problemas de ritmo logo no começo. Diferentemente de Coração de Tinta e Sangue de Tinta, que seguem num só fôlego, este terceiro livro, por ser mais denso e filosófico e por ter a tarefa de amarrar todas as pontas soltas da trama, esclarecendo os mistérios, demora um pouco para embalar.

Os capítulos iniciais, embora muito bons (a obra no geral beira a perfeição, como dito acima), carecem do mesmo vigor dos dois primeiros livros. Mas, ao contrário do que ocorre com muitas trilogias, a fórmula não deu sinal de desgastes e depois que o leitor vence essa etapa inicial e mais árida do caminho da leitura, a história começa a falar por si e vai numa crescente narrativa até o clímax e o final poético, de um lirismo encantador e apaixonante.

Uma Sinopse de cada livro da trilogia:

Coração de Tinta – É o primeiro livro da saga do Mundo de Tinta. A obra, uma metonímia, conta a história de Mortimer Folchart, um restaurador de livros raros e encadernador, e de sua filha, Meggie. Dono de um estranho poder que consegue dar vida aos personagens dos livros, tirando-os do mundo da fantasia para o “mundo real”, Mortimer, numa noite de leitura para a esposa e a filha de três anos, acaba tirando de dentro do seu livro favorito – Coração de Tinta -, o vilão Capricórnio e seu capanga Basta, além do saltimbanco e cuspidor de fogo Dedo Empoeirado, ao mesmo tempo em que manda para dentro do livro a própria esposa. Ao longo de dez anos, Mortimer tenta resgatar Teresa (Resa) e devolver os personagens para dentro do livro, mas a coisa se complica porque Dedo Empoeirado, que parecia um aliado, muda de lealdade a todo o momento e porque o vilão Capricórnio pretende dominar este mundo real. Para deter o vilão, Mortimer decide ir atrás de Fenoglio, o velho autor do Coração de Tinta e, portanto, criador dos personagens da trama…

Sangue de Tinta – Em Sangue de Tinta, o segundo episódio da série, Mortimer e Meggie, junto com Orfeu, outro leitor de língua encantada que morre de inveja do talento do encadernador, vão esbarrar dentro do livro Coração de Tinta, junto com Resa e Dedo Empoeirado, que assim, retorna para casa e para a mulher, a bela saltimbanco e curandeira, Roxane. Só que Fenoglio, o criador da história, mandado para dentro do próprio livro no final do primeiro episódio, se acomodou a uma vida muito confortável na sua cidade fictícia de Ombra, no seu mundo de fantasia; e, elevado a condição de poeta da corte do príncipe Porcino, está mais criativo do que nunca e começa a escrever tramas paralelas dentro da história original. Até que alguma coisa foge ao controle e, ao que parece, a história começa a se escrever sozinha, colocando todos os personagens, os do “mundo real” e os fictícios, em grande perigo, porque o príncipe Cabeça de Víbora, rival do castelo de Ombra, se prepara para atacar…

Morte de Tinta – O terceiro e último episódio começa com as consequências do acordo que, no final de Sangue de Tinta, Dedo Empoeirado fez com as filhas da Morte para salvar um amigo. Este também é um período terrível para o povo de Ombra, cada vez mais oprimido pelos príncipes cruéis deste reino que se torna mais e mais hostil. Graças a uma história de Fenoglio, Mortimer tornou-se o Gaio, um salteador justiceiro em quem o povo deposita esperanças para derrotar a tirania dos príncipes (clara referência a Robin Hood), o que deixa Resa e sua filha Meggie em estado de constante aflição pelos riscos que ele corre. Além disso, Mortimer, no episódio anterior, encadernou um livro que aprisionou a morte, tornando o príncipe Cabeça de Víbora imortal e agora vai precisar fazer um acordo com a Ceifadora para consertar a confusão e devolver as coisas à sua ordem natural, inclusive, separando, ou não, o Mundo de Tinta do “mundo real” de onde ele, Meggie e Resa vieram…

Ficha Técnica:

Morte de Tinta

Autora: Cornelia Funke

Tradução: Carola Saavedra

Editora: Companhia das Letras

576 páginas / R$ 44,00

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6 thoughts on “Resenha: Morte de Tinta”

  1. Nossa é maravilhosa essa trilogia… Estou terminando o segundo e logo começarei o terceiro (peguei na biblioteca) um mundo fascinante do qual eu amaria fazer parte…. Sem dúvidas, a escritora merece muitos aplausos ela é magnifica e criou um mundo dentro de outro mundo *———*

  2. eu amo a triologia mundo de tinta , me apaixonei desde o primeiro , e uma historia envolvente ,que nos motiva cada vez mais a ler , fiz varias estravagancias na vida , e muitas delas foi para poder ler o livro.

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