Geral, Literatura, Resenhas

Resenha: Não há silêncio que não termine

Na edição do Caderno 2+ de A TARDE deste sábado, saiu a reportagem e a resenha crítica que fiz para Não há silêncio que não termine, relato de Ingrid Betancourt para os quase sete anos em que foi prisioneira das Farc, na selva colombiana. Trago uma adaptação do texto publicado no jornal aqui para o blog e aviso aos interessados que aqui neste link fiz também uma reflexão sobre as mulheres na guerrilha, com base nas narrativas de Ingrid.

Memórias de uma descida ao inferno

Andreia Santana

Não há silêncio que não termine é um livro de cunho político, mas é também a catarse da dor de dezenas de seres humanos rebaixados a condição de pária. A obra de Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência colombiana sequestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em 2002 e mantida em cativeiro até 2008, mescla narrativa em primeira e terceira pessoa com um ritmo ágil, como um thriller, a ponto do leitor (o menos preguiçoso) não sentir o peso das mais de 500 páginas. Traz ainda a angústia de uma mulher e de uma mãe privada da companhia dos filhos por longos anos. E a tristeza de uma filha que perdeu o pai, maior referência de sua vida.

Um mês depois do rapto, Ingrid ficou sabendo da morte de seu pai, o ex-embaixador da Unesco Gabriel Betancourt, porque ao receber comida de um guerrilheiro, ela estava embrulhada em um pedaço de jornal que narrava o cortejo fúnebre. Em 23 de fevereiro de 2002, em uma viagem durante a campanha presidencial, a então candidata foi raptada pelas Farc – um dos grupos mais famosos da guerrilha no país -, na estrada que conduzia até a cidade de San Vicente de Caguan. Estava sem escolta, porque no último minuto, ordens do governo colombiano confiscaram os soldados que iriam proteger a comitiva da candidata, sob alegação de que a área estava desmilitarizada e era segura.

Ingrid e Clara Rojas, assessora que foi sequestrada junto com ela, durante a campanha presidencial de 2002, antes do rapto. No livro, a autora narra os sucessivos confrontos com Clara e as tentativas de fuga que as duas empreenderam. Ingrid tentou fugir quatro vezes e na última, ao ser questionada por um comandante da guerrilha sobre o porquê de não colaborar com a revolução, ela respondeu: “Você se julga no direito de tirar minha liberdade e eu tenho o dever de tentar reconquistá-la”.

Durante quase sete anos, até ser libertada em 2 de julho de 2008, Ingrid viveu prisioneira em um paraíso verde que ganhou contornos de uma das estações do inferno de Dante Alighieri (italiano renascentista, autor da Divina Comédia). Escondida em sucessivos acampamentos na selva amazônica, passou fome e frio; além de sofrer violência moral e física. Sua história é mais que conhecida, ela virou mito ainda em cativeiro. A foto que a mostrava debilitada e presa em um dos acampamentos, correu o globo e chamou a atenção da opinião pública mundial. Então, o livro não traz novidades quanto aos fatos, mas traz o testemunho de quem viveu o inferno na pele e a análise dos acontecimentos, sob a perspectiva da vítima.

Desabafo – Ingrid Betancourt precisa romper o silêncio, como o título da obra sugere, e expurgar toda a miséria que presenciou. Por ser uma pessoa de cultura refinada e com traquejo com as palavras, além de sólida formação filosófica e humanista, essa catarse é conduzida em uma narrativa magistral, que introduz o leitor na mata cerrada, entre os igarapés e os grandes rios da Amazônia colombiana. A selva de Ingrid dá medo na mesma proporção em que suas angústias comovem e revoltam.

Com grande lucidez, a autora elabora um dossiê com olhar crítico e humanístico sobre o fracasso do ideal revolucionário diante do jogo do poder. Revela ainda sua decepção com a condução do caso pelo governo de seu país, ressentindo-se do “abandono” legado aos reféns da guerrilha pelo presidente Uribe. Lembra porém, os presidentes franceses Chirac e Sarkozy; além do venezuelano Hugo Chávez, que tentou sucessivas negociações para a libertação dos reféns e conseguiu a soltura de Clara Rojas.

Quem espera uma descrição romântica da luta armada, pensando na figura de Che Guevara, por exemplo, se choca com a crueza com que a narradora disseca as Farc, uma associação descrita por ela como corrupta (associada e financiada pelo narcotráfico) e cruel. Mas, o livro passa muito longe de ser apenas o espelho de revolta de uma ex-prisioneira. Embora condene os atos de brutalidade praticados por muitos dos guerrilheiros que lhe serviram de carcereiros e mostre que o ideal socialista da revolução cedeu lugar a interesses bem capitalistas como roupas boas e aparelhos eletrônicos, a autora não deixa de se questionar sobre o que faria se fosse ela do lado oposto à mira do fuzil.

Aqui, a famosa imagem que comoveu a opinião pública mundial e que muitos detratores de Ingrid afirmam ser uma encenação. Segundo ela mesma conta no livro, essa foto foi feita pelo comandante guerrilheiro que chefiava o último acampamento para onde foi removida. A imagem é de cerca de dois meses antes da libertação e a autora revela os detalhes das capturas de imagens que serviam como “prova de vida”. As Farc passavam a alimentar melhor os prisioneiros quando recebiam ordens do alto comando para fotografar ou filmar os reféns. Houve versões na internet de que Ingrid teria sido estuprada no cativeiro, ela nega que tenha sido molestada sexualmente, embora tenha sofrido diversos outros castigos. Mas conta no livro que surpreendeu um adolescente da guerrilha se masturbando enquanto ela tomava banho, já que era obrigada a despir-se e lavar-se ante forte vigilância e quando ia se vestir, os soldados impediam que usasse um lençol estendido numa corda para esconder a nudez. Ela se queixou ao chefe do acampamento e ameaçou dar uma surra no garoto se o surpreendesse novamente em ato de desrespeito. O comandante, que ao ser interpelado pela prisioneira, disse que “direitos humanos eram um sentimento burguês”, acabou cedendo e trocando a guarda de Ingrid. Nos relatos do livro, também não esconde que fez amizade com alguns homens e mulheres da guerrilha que tratavam os sequestrados com mais humanidade e revela todo o jogo psicológico de dependência que se estabelecia entre raptados e raptores.

Também não nega que em meio ao contingente recrutado pelas Farc entre camponeses e miseráveis num país de grande injustiça social e corrupção do governo (com as oligarquias que se sucedem no poder), existam de fato aqueles que acreditam no poder da revolução. O problema é que a ideologia dos mais ingênuos (ou humanos) é manipulada habilmente por aqueles que cobiçam o poder pelo poder e não porque desejam reparti-lo com os mais pobres. Em nome de manter para si um padrão social semelhante ao da burguesia que diz combater, o alto comando da guerrilha afunda as bases do socialismo em um mar de sangue e relações escusas com o crime organizado, denuncia a autora.

Fé e filosofia – Reflexivo, o livro serve de autoanálise para uma mulher que encontrou na natureza selvagem da Amazônia uma prisão, mas também um santuário – tão assustador, silencioso e isolado quanto uma catedral – para se reconectar com Deus. Em alguns trechos, o misticismo da autora parece exagerado e exasperante (principalmente aos leitores mais pragmáticos). Mas quem pode saber como reagiria ao sofrimento enfrentado por ela? Na fé e nas longas reflexões filosóficas, Betancourt encontrou a serenidade necessária para não enlouquecer, mas sobretudo para não perder-se no labirinto criado pela guerrilha com o objetivo de quebrar a resistência moral dos prisioneiros.

Durante 2.323 dias, Ingrid Betancourt foi amarrada em troncos de árvores por correntes presas ao pescoço; se viu forçada a marchar debaixo de tempestades tropicais até os pés esfolarem; foi obrigada a fazer suas necessidades fisiológicas diante de homens que zombavam dela e não a chamavam pelo nome, mas apenas de cucha (velha) e que se referiam aos prisioneiros como pacote, encomenda ou a carga. “É um mecanismo de autodefesa dos guerrilheiros. Eles precisam nos destituir de humanidade, porque é mais fácil atirar numa carga do que em um ser humano. Matar um ser humano a sangue frio traz culpa”, escreve.

Em meio aos seus relatos, é impossível não sentir na carne, sobretudo se o leitor for mulher, quando ela nos descreve o constrangimento de tomar banho menstruada junto com os demais prisioneiros (homens e mulheres) e sempre sob a mira de uma arma.

A mesquinhez que a alma humana revela quando posta a prova e quando destituída dos seus confortos básicos (casa arrumada, roupas limpas, comida boa), também é tema recorrente ao longo do livro. Com lucidez, Ingrid expõe as próprias feridas e fraquezas e as dos companheiros de cativeiro, revelando as brigas infantis e desesperadas por comida ou por pedaços de plástico que serviriam de abrigo contra a chuva.

Mostra ainda as intrigas típicas do ambiente penitenciário, com as divisões entre preferidos e desafetos dos carcereiros e a arrogância despótica daqueles que caem nas graças dos comandantes. Por nunca ter abaixado a cabeça para a guerrilha, foi duramente criticada pelos companheiros de cárcere e chamada pedante. No entanto, pagou na carne, sofrendo torturas dignas da Inquisição, por cada ato de rebeldia que tinha o objetivo de manter sua integridade. Se recusava a virar “a carga” ou “o pacote”, embora tenha se sentido exatamente um nada, nas crises de depressão.

Esta é a foto da contracapa do livro. Mais uma vez recebeu críticas ao fato de estar preocupada em aparecer bonita e maquiada nas imagens recentes. Sinceramente, os seres humanos são doentes! É perfeitamente lícito e  compreensível que a mulher queira voltar à vida depois de tanto tempo confinada na selva e reduzida à quase indigência.

Julgamento moral – A autora julga a todos ao seu redor, sem pudores, mas principalmente, julga a si mesma num exercício de humildade quase inaciano. Ao longo das páginas do seu diário (versão moderna das Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos ou da Memória da Casa dos Mortos, de Dostoiévski) é perceptível que ela carrega um forte sentimento de culpa, provavelmente fruto da formação cristã que recebeu e das diferenças de classe tão demarcadas pelas condições extremas de vida no seio da guerrilha. Mas também, fruto do choque em descobrir-se capaz de, nessas mesmas condições extremas, cometer os atos de barbárie que condena nos guerrilheiros.

E ainda, porque ao perder tudo e ser reduzida ao estado bruto e primitivo do ser humano, só via dois caminhos: o embrutecimento ou a redenção pela solidariedade. Ingrid Betancourt, ao que parece, escolheu o segundo caminho.

Em tempo: Uma produtora de cinema, a The Kennedy/Marshall, comprou os direitos autorais de Não há silêncio que não termine, cujo título foi retirado de um verso de Pablo Neruda (o poeta frequentava a casa de Gabriel Betancourt) e o roteiro do filme baseado nos relatos de Ingrid está sendo adaptado.

Ficha técnica:
Não há silêncio que não termine

Autora: Ingrid Betancourt

556 páginas / R$ 45,00

Companhia das Letras (www.companhiadasletras.com.br)

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6 thoughts on “Resenha: Não há silêncio que não termine”

  1. tbm vi o video do suposto estupro….fiquei horrorizada e chocada…..mto aliviada por saber que ñ é veridico

  2. eu vi o video onde ela supostamente foi estruprada e tive pesadelos com que teriam feito a ela,fico feliz de saber que aquilo nao aconteceu,porque seu calvario teria sido pior que o descrito no livro.

  3. Li esse livro e adorei! nos prende do começo ao fim e a medida que a leitura avança vamos sofrendo com o calvário de Ingrid…impressionante as cenas relatadas por ela e toda mesquinharia que o ser humano é capaz mesmo em uma situação onde a união poderia fazer toda diferença.

  4. Eu acabo de ler “Não há silêncio que não termine” e chego à conclusão de que é uma obra importante ao conhecimento de todos, capaz de causar um incômodo necessário para que compreendamos as detestáveis ações a que o ser humano ainda é capaz de realizar. Por outro lado, é ainda mais importante por relatar a busca por se manter a ética, a dignidade e a esperança. Você lê, e é difícil de acreditar que histórias assim ainda possam acontecer em nossos tempos.

    1. Bem lembrado, Lidi. É realmente uma luta e uma busca, como você diz, para se manter a integridade. Uma lição e tanto nesses tempos de perda de referências humanas. obrigada por comentar aqui no blog, abraços!

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