Artigo: Uma mulher no comando do Brasil de hoje

Que fique claro que não pertenço a nenhum partido político ou movimento social e que não pretendo, com este artigo, fazer análises ou comparações partidárias. Tampouco vou declarar meu voto, porque uma vez que a eleição terminou e não o declarei durante o pleito, não faz nenhum sentido fazê-lo agora. Mas acordei pensando no que significa para nós, mulheres, termos Dilma Rousseff como Presidente da República no nosso país historicamente machista, com ainda vergonhosos índices de violência contra a mulher e onde a valorização feminina, em muitos casos, ocorre apenas como mercadoria das indústrias do entretenimento e do prazer.

Acordei pensando em escrever sobre essa conquista feminista e feminina, acima de tudo. Mas tinha de resolver uns assuntos antes, portanto, compartilhar minhas reflexões com vocês teria de esperar. Logo cedo, saí de casa e vi um homem que segurava um jornal. Ao passar por mim, resmungou: “Dilmão é o novo presidente do Brasil”.  O leitor matutino fazia uma insinuação a orientação sexual da nossa nova presidente. No entanto, o que sei de Dilma, nas biografias que já pipocam na internet é que ela foi casada duas vezes, tem uma filha e agora um neto.

Lógico que, ter sido casada, ser mãe e avó não dizem nada sobre a orientação sexual de uma pessoa. Só que, como não privo da intimidade da presidente, não sei qual é a orientação de Dilma e nem tenho interesse em saber, para ser sincera. Se ela for heterossexual, a sua eleição continuará sendo um marco histórico das conquistas feministas e femininas. Se for bi ou homossexual, além de conquista feminista e feminina, será também uma grande vitória para os movimentos gays. Minha percepção continuará a mesma e a diferença é que haverá mais gente celebrando a sua conquista.

O objetivo, porém, não é debater a intimidade da presidente e sim o fato de que uma mulher foi eleita para comandar o destino do Brasil contemporâneo. Enfatizo o período histórico porque já houve mulheres no comando do país em outras ocasiões. Mas, cada tempo tem seu contexto. Os atos de ontem não podem ser lidos sob o prisma dos de hoje.

Quando a família real portuguesa se mudou para o Brasil, em 1808, transferindo a corte de Lisboa para a sua colônia mais rica neste lado do Atlântico, Maria I – A Louca, é quem estava oficialmente no comando do trono. No entanto, como o apelido da rainha já revela, a mesma encontrava-se impossibilitada de exercer o poder e seu filho, D. João VI, é que era o regente.

Em 1822, enquanto Pedro I andava as voltas com as confusões geradas pelo retorno de D. João VI a Portugal e os embates (políticos e bélicos) entre brasileiros e portugueses, que antecederam a nossa Independência, a princesa Leopoldina, esposa de D. Pedro, assumiu a regência do país por um breve período. Em 1888, a neta de Pedro I, a princesa Isabel, também foi regente do império durante uma viagem do pai, o imperador Pedro II.

Só que, essas mulheres, embora também tenham sua importância, não foram escolhidas, por meio de um processo democrático representado pelo voto, para exercer um cargo de comando. Elas foram chamadas para substituir os titulares que andavam ocupados com outros assuntos. Tem importância? Claro, porque se dependesse da ideologia da época provavelmente um homem teria assumido o comando interino do império. Mas é diferente.

Com Dilma Rousseff é totalmente diferente. Houve um marco na eleição presidencial deste ano. Entre os candidatos ao cargo, havia duas mulheres. Das duas, uma delas passou para o segundo turno, disputando contra uma ideologia política adversária, mas também disputando contra um homem. Embora a guerra dos sexos seja algo ultrapassado e a ideia aqui não seja discutir se as mulheres são melhores que os homens e vice-versa, a verdade dos fatos é que, para uma parte significativa do eleitorado, o sexo do candidato tinha importância tão grande quanto a bandeira partidária.

As regentes do império possuiam o berço nobre como escudo e embora enfrentassem o preconceito tanto quanto qualquer mulher (a herança judaico-cristã e ibérica pesando implacável), não sofriam na pele o que as companheiras das castas inferiores sofriam. Recordo Gilberto Freire narrando em Casa Grande & Senzala que as sinhás descontavam nas escravas o que sofriam nas mãos dos maridos, que delas também eram senhores.

O machismo no Brasil não é mito. Existe tanto na sua forma declarada: mulheres têm salários mais baixos que homens exercendo o mesmo cargo, por exemplo; quanto na sua forma velada: disfarçado na “coisificação” do corpo feminino que abrange tanto a dançarina seminua exposta como carne no açougue, quanto a bonequinha de luxo tratada como bibelô sem cérebro. Infelizmente, na visão ainda imperante, de homens e de mulheres machistas, se uma garota gosta, por exemplo, de maquiagem, moda e ler romances, é tachada de cabecinha de vento. Mesmo que ela faça doutorado ou saiba discutir futebol.

A própria forma como uma parte considerável das revistas femininas tratam a mulher é esquizofrenia pura: ou ela é uma Barbie no melhor estilo Mulheres Perfeitas ou então é a “masculinizada” bem-sucedida executiva de alto escalão. Ou ainda, a terceira versão, que combina a bem-sucedida executiva dotada de agressividade masculina, com um instinto sexual de predadora, além de estar sempre bonita, cheirosa e estilosa (Carrie Bradshaw em Sex and the City). No meio termo entre um extremo e outro, um limbo onde gravitam todas as outras mulheres e suas múltiplas identidades.

O machismo dos brasileiros – e brasileiras – é disfarçado tanto na educação recebida desde a infância (menino pode, menina não pode, menino isso, menina aquilo, menino brinca de carrinho e menina de boneca); quanto nas piadas que humilham e rebaixam (“loura burra”, “mulher no volante…”). Torna-se, no entanto, mais que declarado no ato hediondo de um homem bater numa mulher porque se considera seu dono, seu superior e com direitos sobre o corpo, o afeto e a vontade dela. A própria religião cristã (tanto faz se católica ou evangélica) endossou essa crença durante séculos e veladamente ainda endossa quando afirma que Eva foi criada a partir da costela de Adão. A bíblia dos dois credos é a mesma.

Vi no Twitter ao longo do dia de segunda-feira, o primeiro em que o Brasil acordou tendo uma presidente (ou presidenta), muitos homens usando o nome de Leopoldina e Isabel como para menosprezar o fato de uma mulher estar no comando do país. “Não é novidade, o Brasil já foi regido por mulher”, desdenhavam os internautas. De fato, foi regido, mas agora será comandado. O verbo aí tem grande importância simbólica.

No passado, a regência durou poucos meses ou dias, embora Isabel tenha aproveitado a sua para assinar a Lei Áurea e Leopoldina apoiasse a Independência. Mas agora, até que provem o contrário, são quatro anos de uma mulher no governo, com a possibilidade de renovação por mais quatro. Tudo vai depender da vontade da presidente em candidatar-se à reeleição em 2014 e da disposição dos eleitores em mantê-la no posto.

Ouvi ao longo da campanha que acompanhei por força da profissão e por interesse de eleitora, muita gente dizendo que Dilma é o avatar de Lula, que sem ele, ela não teria se elegido, que o presidente mais carismático da história recente do país elegeria até um poste. Honestamente, acredito que o apoio dele foi importantíssimo, mas tendo a pensar que boa parte do que dizem é efeito do machismo velado e da dificuldade da nossa sociedade em admitir que uma mulher pode fazer o próprio caminho.

Um exemplo que comprova minha suspeita é a própria Marina Silva, a candidata que terminou o primeiro turno com 20 milhões de votos. Ela não tinha o apoio de Lula e ainda assim, teve força suficiente para desequilibrar a balança de tal forma que a eleição precisou ser definida em um segundo turno.

É por isso que acredito que eleição de Dilma Rousseff para a presidência da República, independente do partido e da ideologia que ela segue, é um marco histórico para o Brasil, da mesma forma que, há dois anos, o mundo inteiro reconheceu a eleição de Barack Obama, nos Estados Unidos, como marco na história de um país com forte tradição racista e onde ainda se luta contra a segregação racial.

Se Dilma vai fazer um bom governo? Não tenho a menor ideia, embora espere que sim, para o bem do desenvolvimento social e econômico do país onde eu vivo e crio um filho. Se ela é corrupta? Também não sei, mas espero que não, porque já vivemos decepções demais com os nossos ex-governantes para um só povo.

Do governo Dilma vou esperar o que todos os brasileiros também vão: que cumpra bem o seu papel e ajude a melhorar as desigualdades gritantes do país. Sozinha, convenhamos, uma presidente – ou os presidentes que a antecederam ou vão suceder-lhe (independente do sexo) -, nada podem. Então, que ela tenha capacidade de articulação para reunir os aliados certos que a ajudem na missão que lhe foi confiada por milhões de eleitores.

O marco histórico, porém, já existe. Mesmo que o governo Dilma não agrade a todos e ela não consiga fazer tudo o que pretende e prometeu durante a campanha, o fato de que em 2010, o Brasil elegeu a sua primeira presidente não vai mudar jamais. Uma mulher chegou ao posto de comando mais alto do país, queiram os machistas ou não!

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3 pensamentos sobre “Artigo: Uma mulher no comando do Brasil de hoje

  1. Gostei muito do artigo! não é pelo sexo, e nem pela opção sexual que se mede uma administração pública. o mesmo espírito que anima a mulher, anima o homem.

  2. Andreia, adorei o seu post!
    Você falou tudo o que está engasgado na garganta de muitas eleitoras da Dilma, e que não tem essa desenvoltura toda com as palavras!
    Sim, eu votei na Dilma, e vibrei muito com a notícia de que teríamos a primeira mulher escolhida pelo povo no cargo de maior importância do nosso país!
    E acredito que esse acontecimento é o início de um novo tempo na vida das mulheres brasileiras!
    Concordo com o que a Presidente eleita pensa: “Sim, a mulher pode!”.
    Parabéns pelo post!
    Beijos!

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