Literatura, Resenhas

Resenha: A trilogia do amor

O amor que esvazia-se e vive apenas do desejo, aquele que só se realiza na fantasia e o que se completa mesmo à distância por laços de afeto que não excluem nem o desejo e nem a fantasia. Definir o amor é pretensão, mas a psicanalista e escritora Betty Milan, com a experiência em falar do tema dentro e fora do consultório, ao invés de definições, faz digressões em prosa-poética para o que o poeta Camões batizou de “o fogo que arte sem se ver”.

Reunidas e relançadas este ano em A trilogia do amor (Ed. Record), três histórias já publicados anteriormente pela autora: O sexophuro (1981), A paixão de Lia (1994) e O amante brasileiro (2003), mergulham fundo na alma feminina e escavam emoções, camada a camada, ao mesmo tempo em que avalia as relações contemporâneas, misto de lirismo dos últimos românticos e da crueza dos envolvimentos fugazes e virtuais.

Ora flertando com a poesia, ora em prosa telegráfica, ou ainda verborrágica como o fluxo do pensamento – dos sentimentos – a escritora tece uma colcha de retalhos da afetividade humana e brinda o leitor com personagens de fácil identificação, mas ainda assim, que parecem saídos de um folhetim. Sem linearidade, as histórias inserem-se umas nas outras, mas não seguem um padrão convencional de começo, meio e final, este sempre em aberto. Prestam-se tanto ao deleite quanto à reflexão e são absorvidas de maneira sinestésica pelo leitor.

Eros (Cupido) e Psiquê

Puro orgasmo – O sexophuro, como o nome já diz, primeira das histórias de A trilogia do amor, é o desejo primitivo e, a depender do padrão de julgamento, insensato que a personagem – sem nome – sente pelo ex-marido, a ponto de aceitar tornar-se sua amante depois que ambos reconstroem as vidas com outras pessoas. Reduzido ao sexo, o amor define-se em gozo e, passado o efeito do orgasmo, transmuta-se em repulsa, culpa e obsessão.

O que a personagem de O sexophuro vive, numa definição da própria autora, é o amor servil, escravo do corpo e da vontade do outro para realizar-se. E é com o gancho da vontade que Betty Milan nos apresenta Lia, a personagem solitária e imaginativa da segunda novela de A trilogia... Lia é pura sensação, seus contornos são imprecisos. Perdida na fantasia, ela é diáfana. Das três mulheres retratadas, esta lembra a Joana de Clarice Lispector (personagem central de Perto do Coração Selvagem). O estilo da narrativa também remete à prosa de Clarice.

A paixão de Lia concretiza-se na alma da personagem, é toda idealizada e por isso mesmo, sem pudores e fronteiras, sem convenções – ou contenções – sociais, é sem gênero. Apesar da libido à flor da pele, Lia é um anjo, não tem sexo. Inspirada em Zeus, metamorfoseia-se naquilo que sua imaginação dita. Tanto pode ver-se em um bordel da Paris da Belle Époque, quanto servindo ao culto de Afrodite, ou numa visita à ilha de Lesbos; ou ainda, intuir que há misto de dor e prazer no ato de amamentar um filho, criando um vínculo mais poderoso que o próprio parto.

O beijo – Auguste Rodin

Almas gêmeas – Se tem a liberdade do amor tecido pela própria vontade, Lia vive a escravidão do amor irrealizado e apenas pressentido. Como uma heroína romântica, ela não está livre da espera por aquele – ou aquela – que a fará completa. Seu amor é infantil e egoísta, pois teme a realização plena. Mas é pelos passos vacilantes de Lia que a autora conduz o leitor até Clara, última personagem e também a mais autobiográfica. É inspirada na coluna de consultório sentimental que Betty Milan manteve primeiro em jornal impresso e depois na internet por vários anos.

O amante brasileiro, fechando a trilogia, relata o encontro de um homem e uma mulher cuja distância é incapaz de aplacar seus sentimentos e antes serve a um exercício de autoconhecimento compartilhado, com um amante funcionando como espelho do outro e a internet como o elo de ligação entre os dois. Ao mesmo tempo, a novela, toda escrita em forma de troca de emails entre a personagem e o namorado Sebastién, é a mais “psicoanalisada” e autocentrada das três. Serve de pretexto para a escritora filosofar sobre o amor e a incessante busca por compreensão e afeto que, em maior ou menor grau, motiva os amantes na ficção e fora dela.

Quem é Betty Milan? – Escritora, doutora em psiquiatria, psicanalista, blogueira (mantém uma página sobre sexualidade no site da Veja), twitteira… Betty Milan nasceu em São Paulo, descende de libaneses e queria ser escritora desde menina, mas estudou medicina. Autora com oito livros publicados (cinco romances), já teve textos adaptados para o cinema e o teatro. Tradutora de Lacan, depois de ter passado quatro meses como paciente do célebre psicanalista, em Paris, e ter se tornado discípula dele, divide a vida entre São Paulo e a capital francesa. Entre seus livros mais famosos estão O Papagaio e o Doutor (onde narra a convivência com Lacan), Fale com ela (que reúne as cartas de uma antiga coluna de consultório sentimental que manteve na Folha de São Paulo por dois anos) e os três contos reunidos em A trilogia do amor.

Ficha Técnica:

A Trilogia do Amor

Autora: Betty Milan

Editora: Record (www.record.com.br)

240 páginas / R$ 37,90

*Minha resenha também foi publicada no Caderno 2+ (suplemento cultural) do jornal A TARDE, em Salvador, na edição de 23/10/2010.

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