Cotidiano, Crônicas, Geral

Sapatilhas de Ballet

Ela era tão pequena que devia bater nos meus joelhos. Estava totalmente vestida de rosa, com uma rede prendendo os cabelos em coque. Segurava a mão da mãe e as duas caminhavam à minha frente, na calçada. Conversavam animadamente, mas eu só ouvia os “né, mãe?” do final de cada frase que dizia. Pelo tamanho e pela voz, imagino que devia ter no máximo uns quatro anos. Seguindo-as, embora sem nenhuma intenção, só estávamos indo para o mesmo lugar, lembrei do tempo em que levava uma das minhas primas ao ballet. Na época, minha prima devia ser só um pouco mais velha. Recordo com uma certa graça da minha ingenuidade de adolescente, tantos anos depois, que nesses dias de sair com ela toda vestida para sua aula de dança, costumava prender meu cabelo no mesmo penteado. Gostava que imaginassem que íamos as duas dançar.

Era muito bom me sentir um pouco bailarina nas tardes em que caminhávamos pela rua até a sua escola de ballet. Tentava imitar a forma de andar daquela pequena boneca. Ombros esticados, costas eretas, passadas com a elegância de um felino. Desde criança, quis muito ser bailarina. Na adolescência, me realizava assistindo minha prima fazer “pontinhas” com suas sapatilhas de gesso e lacinho. Adorava as apresentações dos festivais de dança da sua escola, chorava de emoção quando as bailarinas mais velhas entravam em cena. Perdi a conta das vezes em que assisti O sol da meia noite. Houve um tempo, lá pelos meus 15 anos, em que fui apaixonada pelo Mikhail Baryshnikov e devaneava uma apresentação do Bolshoi. Nós dois faríamos um solo.

É como diz o verso: “toda pequena menina, sonha um dia em ser bailarina”. Comigo não foi diferente. E é engraçado como uma cena comum do cotidiano pode nos fazer voltar no tempo. As oportunidades de recordar são muitas. Na rua onde moro tem uma escola de ballet. As tardes frescas são sempre povoadas de pequenos flamingos vestidos em colants e saiotes rosa bebê, faixa da mesma cor na testa. Tão engraçadinhas com suas redes no cabelo, sapatilhas de “pontinha”, seguram as mães, ou babás, pela mão. Tagarelam feito periquitinhos australianos. Adoro observá-las.

Penso que se tivesse tido uma filha, iria levá-la ao ballet com o mesmo prazer da adolescência, quando flanava imitando os passinhos macios de minha prima. Seria uma daquelas mães que sentam na primeira fila e realizam-se nas suas meninas. Ainda sou apaixonada por espetáculos de ballet e O sol da meia noite também é um dos meus filmes preferidos. Baryshnikov envelheceu na mesma proporção em que eu tornei-me adulta. O meu tempo de dançar passou… Hoje em dia, tento fazer com que bailem as palavras, embora elas sejam tão caprichosas quanto uma primeira bailarina de teatro municipal.

Mas ainda dou minhas piruetas e rodopios na imaginação. De vez em quando, penso em como seria minha vida agora se, ao invés de tecer fios de frases, tivesse calçado as sapatilhas de ballet. Na mente e na alma, embora não saiba fazer nem uma meia ponta, acredito ter alma de dançarina. E, na medida do possível, deslizo pela vida…

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