Vou de bobes

Ela entrou no ônibus e sentou ao meu lado, muito lindinha, com uma nuvem branca na cabeça. Devia ter uns 70 anos, mais ou menos. Não havia nenhum fiozinho preto, sequer cinza, eram todos imaculadamente alvos como os lençóis das propagandas de sabão em pó. Os bobes também eram brancos. Ela cheirava a patchouli e foi isso que chamou minha atenção. Primeiro a senti com o nariz e lembrei minha avó, que cheirava do mesmo jeito. Depois, quando ela sentou ao meu lado, reparei nos cabelos brancos e finos como uma penugem, os da minha avó também eram assim, plumas de passarinho que esvoaçavam com qualquer brisa. Por último, achei muita graça naqueles bobes. Tive vontade de puxar conversa. O rosto dela era tão sereno, convidava a uma dessas entrevistas que ajudam a passar o tempo da viagem. Mas ela entabulou um papo com uma conhecida, sentada no banco da frente, e eu não quis interromper. Fiquei observando, exercendo a curiosidade dos jornalistas e dos escritores, comecei a transformá-la em personagem de um conto, talvez uma crônica, enquanto com sua voz macia de idosa, ela perguntava à conhecida sobre as novidades, a saúde da família, os netos… Não pude deixar de compará-la a minha mãe e a minha avó, ambas com seus cabelos igualmente brancos, mas sempre cortados curtos. Fiquei calculando o tamanho dos cachos que, livres dos bobes, penderiam da cabeça como casulos de bicho-da-seda. Depois divaguei, levada pelo som da sua voz, o perfume do colo de minha infância e o zum zum zum de dezenas de outras conversas paralelas no ônibus. Imaginei como deve ser gostoso chegar numa idade em que não existem mais vergonhas ou vaidades, quando sair com a bolsa pendurada no antebraço, rescencendo a banho recente e toucador; e ostentando, tranquilamente, bobes na cabeça, não implica em julgamento sobre a imagem, ser in ou out, estar up to date com a moda. Envelhecer sem medo de parecer uma vovozinha de contos de fadas, embora a mídia e o mercado nos incentive a perseguir a juventude eterna, deve ser uma delicia! Talvez isso seja o que os poetas e os loucos chamam de liberdade verdadeira…

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