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Uma reflexão sobre o ato de “dizer sim para a vida”

Dia desses assisti uma comédia com Jim Carrey, da sua fase mais madura, que é a que, pessoalmente, gosto mais. Chama-se Sim, Senhor! (Yes Man, 2009, direção de Peyton Reed). No filme, Carrey vive um homem em crise profissional, entediado, recém-divorciado e acomodado às circunstâncias. Até que conhece um guru desses que costumam fazer palestras motivacionais. O guru tem um plano de tratamento que requer que o “paciente” diga sim para tudo, todas as oportunidades, das menores às grandiosas. O personagem de Carrey, que era um tremendo “não, senhor”, fechando-se para o mundo exterior, precisava aprender a se tornar um Yes Man (daí o título do filme).

Exageros à parte, afinal trata-se de uma comédia, e eliminando um pouco do excesso no “tom autoajuda” da produção (não tenho preconceito com autoajuda, mas prefiro sempre o caminho do meio ensinado por Buda, ou seja, nada de excessos), a mensagem que fica é a seguinte: se o não é mais educativo que o sim em muitas circunstâncias da vida (principalmente na infância), é o sim que nos empurra para a frente. Claro que, na hora de usar um e outro, é preciso bom senso.

Mão na roda: pensar no cinema como uma grande metáfora para a vida ajuda bastante na hora de encontrar imagens para ilustrar posts “filosóficos”. As cenas neste texto, claro, são do filme Sim, Senhor!

Demorei algum tempo para digerir a mensagem de Sim, Senhor! e precisei brigar com uma amiga para finalmente a ficha cair completamente. Depois de dizer-lhe algumas verdades e de ouvir dela outras tantas, e de ambas reconhecerem os exageros e pedirem desculpas uma à outra, passei os últimos dias matutando. Lembrei do Jim Carrey e seu personagem na comédia de Peyton Reed e decidi trazer as reflexões aqui para o blog. Dividir aprendizados é sempre importante, porque pode servir de ajuda para alguém. Também nos auxilia a consolidar a lição em nós mesmos.

Durante a nossa vida, não são raras as vezes em que entramos em crise, seja profissional, pessoal, afetiva, como pais, como amigos, amantes, com a fé (para quem é religioso) e mais uma infinidade de coisas que só o ser humano (esse bicho complexo) consegue inventar para complicar a própria vida.

Jogar-se de uma ponte pendurado por um elástico. Metáfora aparentemente “lugar comum”, mas que simboliza situações da vida diária, quando só um fio nos prende ao nos lançarmos em um desafio

Lembrei de todas as ocasiões em que, impulsivamente (e quem me conhece sabe que sou impulsiva), me joguei em novidades apenas pelo prazer da descoberta, da tentativa, da vontade de seguir em frente e dar uma guinada de 180 graus. Esses foram os momentos em que disse sim para a vida. O resultado, na maioria das situações, foi sucesso de bilheteria (usando uma metáfora cinematográfica, já que pego um filme como parábola para o post). Mas, houve aqueles momentos em que me esborrachei feio no chão, quebrei a cara com todas as letras e tive de começar tudo de novo.

Acredito que com quase todo mundo que é atirado, impulsivo e impaciente, ocorra a mesma coisa. Nesses momentos, nos entregamos à autopiedade, reclamamos da sorte, choramos e, passada a fase da catarse, lavamos a cara e lá vamos nós de novo. Ao menos, a ideia é essa, mas o tempo de recuperação varia de pessoa para pessoa.

No filme Sim, Senhor!, um guru da autoajuda leva o personagem de Jim Carrey a libertar-se do excesso de nãos na própria vida. Aqui no mundo fora da tela, não aconselho ninguém a sair brigando com os amigos para “enxergar a luz”, mas no meu caso, a discussão ajudou a recordar certas posturas esquecidas

Houve também aquelas ocasiões em que me deixei dominar pelo medo da novidade, de sair da segurança, do conforto de uma situação conhecida para me lançar numa nova aventura. Nesses momentos, além de dizer não, pratiquei a auto sabotagem e em muitas ocasiões, ao me sabotar, afastei-me, deliberadamente, das pessoas que poderiam representar uma mudança no meu mundinho organizado. “Egoísmo!”, diria a amiga com quem tive a discussão que acabou gerando este post. E é mesmo, analisando friamente, admito, ela está coberta de razão, é egoísmo. Não só isso, insegurança também.

Por mais bem resolvida que uma pessoa seja, em algum momento da vida, vai sentir-se amedrontada, insegura, hesitante. É da natureza de bicho do ser humano sentir-se apreensivo diante de uma mudança (é instinto de sobrevivência, inclusive). E é também da nossa natureza civilizada, moldada pelos sins e nãos da sociedade, ora rebelar-se e ora submeter-se às pressões do meio. Esse foi o preço pago ao deixarmos as cavernas do paleolítico. O processo, para quem anda com saudade do nosso estado in natura, parece não ter mais retorno, apesar de toda barbárie da sociedade pós contemporânea.

No filme, o personagem de Carrie descobre que o sim pode se tornar também uma prisão, se não for usado da maneira certa. Qual é a maneira certa? Não existe fórmula, gente! O bom-senso de cada um vai ditar. E se o seu bom-senso anda falhando, apele para o de um amigo. Ele pode não te dar uma fórmula mágica, mas pode te dizer “umas verdades” que servirão para indicar o caminho

O que aprendi, ou talvez tenha sido só uma forma de recordar, ao brigar com essa amiga e ao ver o filme do Jim Carrey é que dizer sim para a vida não significa se jogar em tudo, “na doida”, sem o mínimo de reflexão (e até os impulsivos são capazes de refletir). Dizer sim para a vida também não requer doses enormes de coragem, mas apenas o suficiente para arriscar uma mudança, no começo sutil (a postura, por exemplo) e com o tempo alçar voos mais altos. Dizer sim para a vida é seguir em frente mesmo com sabotagem externa, mas, principalmente, saber reconhecer quando os empecilhos são criados por nós mesmos. Dizer sim para a vida é permitir-se sonhar, é maturar o sonho (mesmo que no início apenas com palavras) e depois buscar os meios de torná-lo concreto.

Não desprezo a força das palavras, porque somos definidos por elas – “o homem é um oceano de conceitos”, diz o escritor Salman Rushdie -. Por fim, mantenho o não no meu vocabulário, mas com o passar dos anos, a chegada da maturidade, as revisões que fazemos nas metas e o grau de evolução, esse não precisa deixar de ser um escudo protetor, para tornar-se o equilíbrio que nos mantém, aí sim, a salvo, mas capazes de seguir em frente, sempre!

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