Literatura, Resenhas

Resenha: A Mordida da Manga

Memórias, cicatrizes e superação

A Mordida da Manga, biografia de sobrevivente da guerra civil em Serra Leoa, revela as feridas abertas do continente africano

Mariatu Kamara atualmente

Em ano de primeira Copa do Mundo realizada no continente africano, o Brasil descobre Serra Leoa a partir de um livro de memórias. Terceiro pior desempenho em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e um dos recordistas mundiais de mortalidade infantil (161 para cada mil crianças nascidas), o país, na África Ocidental, há oito anos saiu de uma sangrenta guerra civil. O conflito, que durou de 1991 até 2002, fez milhares de vítimas: 50 mil mortos e 500 mil refugiados. Ao menos duas mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças, tiveram as mãos ou as pernas cortadas pelos integrantes da RUF (Frente Unida Revolucionária).

Uma dessas vítimas é Mariatu Kamara, que transformou a experiência em bandeira de luta social. Responsável por uma fundação que leva seu nome, cuja missão é ajudar mulheres e crianças vítimas do conflito, Mariatu, 24 anos, virou representante especial do Unicef. Quando tinha 11, perdeu as duas mãos na guerra, decepadas por meninos-soldado da RUF que invadiram seu povoado. “Os rebeldes cortavam as mãos das pessoas, para impedi-las de votar”, conta Mariatu em A Mordida da Manga, livro de memórias lançado em 2008, best-seller de não ficção internacional, que tem recente edição em português pela Editora Planeta.

A biografia de Mariatu foi escrita em parceria com a jornalista Susan Mclelland, do Canadá, país para onde a adolescente emigrou aos 14 anos, com a ajuda do Unicef. Em suas 208 páginas, o livro revela uma história de superação que, muito antes de trazer uma mensagem edificante do tipo “há mais gente sofrendo no mundo do que imaginamos”, investe no relato cru de uma jovem muçulmana que viu seu país, já pobre e explorado por séculos de colonialismo, ser reduzido ao estado de barbárie e indigência.

Cena do filme Diamante de Sangue. Solomon Vandy (Djimon Hounsou) visita a esposa, que vive em campo de refugiados da guerra civil

Sem vergonha ou papas na língua, Mariatu desfia o rosário, mas o tom não é melodramático. Entre as desditas, há o estupro praticado por um amigo da família, a violência dos rebeldes conseguida à base de doses de heroína, a frustração de ter engravidado aos 12 anos (em conseqüência do estupro) e ter perdido o bebê, com dez meses de vida, vítima de desnutrição, quando ela e a família viviam em um campo de refugiados.

Mariatu não esconde nada, toca em temas tabu como a mutilação genital feminina (a polêmica extirpação do clitóris praticado em países da África), revela a vida de mendicância pelas ruas de Freetown (capital de Serra Leoa) e a expectativa mensal de centenas de famílias que aguardam roupas, comida e remédios caírem do céu, via ajuda humanitária. A missão das crianças mutiladas, depois que saem do hospital, é alimentar a família inteira, porque sem os braços, pernas ou mãos, elas conseguem mais esmolas dos “estrangeiros, jornalistas e dos ricos de Serra Leoa”.

A intenção da obra é a militância e um alerta para o ocidente próspero, como a lembrar ao mundo que oito anos não são nada e que boa parte da África continua miserável e faminta, espoliada primeiro pela escravidão colonial e depois por mineradoras estrangeiras que exploram as riquezas do continente e não revertem nenhum benefício aos países e seus habitantes.

Danny Archer (Leonardo DiCaprio) concorda em ajudar Solomon por interesse em raro diamante cor-de-rosa, que vale milhões

O sucesso do livro fora do Brasil vem da sinceridade da autora. A intenção de Mariatu não é tornar-se referência de rebuscamento literário. Sua obra é uma grande reportagem escrita a quatro mãos e que mistura as lembranças de uma refugiada antes e depois da guerra, a passagem pela Inglaterra em busca de próteses para as mãos, sua nova vida no Canadá e o retorno ao país de origem, em 2004, quando teve um encontro com o presidente para pedir melhores condições de vida aos sobreviventes do confronto.

A tradução em português carece de uma boa revisão. Mas os erros de digitação tornam-se mínimos diante da força da história contada. Para quem gosta de relatos de guerra e de casos de superação, em certos trechos, Mariatu demonstra a maturidade adquirida a custo de muito sofrimento. Já em outros momentos, revela o quanto da criança ingênua de antes da guerra sobrevive dentro dela.

Guerra civil inspirou livro e filme

Maddy Bowen, personagem de Jennifer Connelly, abrigada por família que conseguiu fugir da guerra e buscar segurança em aldeia não invadida

Serra Leoa só conquistou a independência em meados do século XX e depois disso, viveu longos períodos de ditadura entremeados por governos corruptos e acirrados conflitos étnicos. Além do livro de Mariatu Kamara, a guerra civil também rendeu outra obra literária de não ficção, Muito Longe de Casa – Memória de um Menino Soldado, escrito pelo sobrevivente Ismahel Beah. Ex-combatente, Ismahel foi resgatado pelo Unicef, imigrou para os Estados Unidos e desde o fim da guerra, se dedica a ajudar outros ex-meninos soldados. É ele quem assina o prefácio de A Mordida da Manga.

O conflito sangrento em Serra Leoa e as memórias do autor serviram de inspiração para o argumento do filme Diamante de Sangue (2006), protagonizado por Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou e Jennifer Connelly. O filme conta a história de Danny Archer (Di Caprio), um mercenário que trafica armas entre Serra Leoa e a vizinha Libéria, e que acaba sendo forçado, por interesse em um raro diamante rosa, a ajudar Solomon Vandy (Djimon), um ex-lavrador que teve a aldeia destruída pelos rebeldes da RUF e cuja família agora vive em um campo de refugiados. Recrutado para minerar diamantes para os rebeldes, Solomon quer salvar o filho mais velho, Dia Vandy, aliciado com drogas e transformado em um menino soldado. Para tirar a família de Serra Leoa, ele conta com o apoio de Maddy Bowen (Connelly), jornalista que trabalha em reportagem de denúncia sobre a rota dos diamantes de sangue. Ou seja, as pedras preciosas usadas para financiar a guerra.

Serviço:

A mordida da Manga

Autoras: Mariatu Kamara e Susan Mclelland

Tradução: Lea Zylberlicht

Editora Planeta (www.editoraplaneta.com.br) / 208 páginas / R$ 29,90

Saiba mais: Fundação Mariatu Kamara para vítimas da guerra: www.mariatufoundation.com (em inglês)

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