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Sonhos que cabem em um reino ou para carregar na bolsa

O exercício literário que me propus neste final de semana foi comparar duas leituras infantojuvenis recentes: A bolsa Amarela, da brasileira Lygia Bojunga, e Ponte para Terabítia, da norte-americana Katherine Paterson. Confiram o resultado e divirtam-se!

Sonhos que cabem em um reino ou para carregar na bolsa

A bolsa amarela, da brasileira Lygia Bojunga, e Ponte para Terabítia, da norte-americana Katherine Paterson, têm mais em comum do que o fato de suas autoras terem nascido no mesmo ano (1932) e aparecido para o mercado editorial no mesmo período, a década de 70, adquirindo prestígio internacional e arrebanhando prêmios de destaque no gênero infantojuvenil.

As duas histórias falam dos conflitos do “adolescer”, mas usando como contraponto a fantasia e a imaginação. Escritas com leveza – A bolsa amarela em primeira pessoa, e Ponte para Terabítia em terceira –, as histórias têm em comum os temas autoestima e conflito familiar. Raquel, protagonista de A bolsa… e Jess, de Ponte…, estão na pré-adolescência, nasceram em famílias numerosas e com dificuldades financeiras, enfrentam o descaso dos pais e as implicâncias dos irmãos mais velhos. Jess ainda encara o bullying na escola.

A diferença é: enquanto Lygia discute esses problemas sob o ponto de vista de uma menina, Katherine prefere mostrar como um menino enfrenta questões tão sutis e profundas como rejeição, timidez e sentimento de inadequação. Ainda assim, a autora norte-americana coloca um contraponto na história: Leslie, melhor amiga de Jess, com seu olhar feminino e fantasioso para enfrentar a dureza da realidade. Enquanto Lygia faz nascer em Raquel um imenso desejo de ter nascido homem, só porque no contexto de sociedade em que a menina vive “homem pode tudo e mulher não pode nada”.

Cena do filme Ponte para Terabítia, baseado em livro homônimo de Katherine Paterson

A sutileza e sensibilidade com que as duas autoras trabalham as questões de gênero pontuam toda a obra e ficam claras tanto nas injustiças sofridas por Raquel por conta de ser menina, quanto no duelo inicial que marca o nascimento da profunda amizade entre Jess e Leslie.

Os pontos em comum entre as duas histórias ambientadas em países e culturas diferentes (a brasileira e a norte-americana) são prova de que a infância e a adolescência, o sentido de família e os medos juvenis são os mesmos, independente da distância geográfica entre EUA e Brasil.

As divergências, por outro lado, dão aquele molho especial que caracteriza o estilo da prosa de cada uma das escritoras e que marcam as formações e experiências pessoais delas, que transparecem, por exemplo: na religiosidade de missionária de Katherine Paterson e na rebeldia e liberdade de Lygia Bojunga, que não à toa, ambienta A bolsa… nos emblemáticos anos 60.

Com linguagem simples, clara e fluída, os dois livros se configuram em leitura agradável para adolescentes e adultos. De forma muito lúdica – e lúcida –, exploram a inocência dos sonhos infantis em contraste com a amargura da vida adulta. Aos olhos de uma criança, crescer é quase sempre dramático, com os adultos o tempo inteiro afundados em dívidas ou cansados demais dos seus trabalhos medíocres para brincar.

As metáforas da bolsa amarela onde Raquel guarda suas vontades inconfessáveis ou o reino mágico de Terabítia que Leslie ajuda Jess a construir para que ele tenha um refúgio do seu cotidiano miserável, mostram formas diferentes de amadurecimento. Enquanto Raquel, em determinado momento, alimenta tanto seus desejos secretos que eles arrebentam a bolsa e revelam-se – rebelam-se – diante da família repressora, marcando um novo lugar, de mais respeito, para a menina; Jess, ao lidar com sentimentos de perda e ausência provocados pela morte, opta por encarar a vida real com todos os seus dissabores, mas sempre reservando intacto o refúgio de sonho, como o lugar onde ele pode recarregar as baterias e quebrar o ciclo vicioso de criança infeliz criada por família infeliz e que se tornaria, por tabela, um adulto infeliz.

Raquel constrói um presente muito mais ensolarado, em tons de amarelo berrante, como sua bolsa, que irá levá-la ao futuro dos seus sonhos (tornar-se escritora), sem que para isso precise nascer de novo no corpo de um homem. Ela aprende a se valorizar como menina e abrir seu caminho no mundo. Já Jess, diante da impossibilidade de alterar o presente, constrói para si e para a irmã menor uma promessa de futuro, onde a sensibilidade de sua alma de desenhista encontre eco em outras “leslies” pela vida afora.

Um resumo de cada obra:

>>A bolsa amarela conta a história de Raquel, uma menina com problemas de autoestima que tem três grandes vontades: ter nascido menino, se tornar adulta e virar escritora. A família de Raquel parece não compreender a enorme imaginação da garota e por ela ser o que se chamava antigamente de filho “temporão” seus pais já estão sem paciência para educá-la, enquanto os irmãos mais velhos vivem pegando no seu pé. A família de Raquel é bem pobre e uma tia rica vive enviando sobras de seu guarda-roupas para as sobrinhas. Num dos pacotes, uma bolsa amarela que ninguém quer acaba sendo adotada pela menina como uma espécie de mundo secreto, onde ela guarda suas vontades e histórias…

>>Ponte para Terabítia foi escrito para o filho da escritora Katherine Paterson e conta a história da amizade entre Jess Aarons e Leslie Burke. Ele é o único menino em uma família com quatro irmãs e ela é filha única de um casal de intelectuais. Enquanto Jess é reprimido pelo pai e precisa sempre atender as expectativas de sua mãe, além de lidar com as implicâncias das irmãs mais velhas e a idolatria da caçula, Leslie é criada com liberdade e incentivo à imaginação e aos seus talentos naturais. Após conhecer o frágil Jess na escola, Leslie o ensina o poder da leitura e da fantasia como aliadas para vencer as adversidades da vida real.

As autoras:

Lygia Bojunga nasceu em Pelotas, em 1932. Começou carreira como atriz e atuou no rádio e no teatro. Em 1972, ganhou notoriedade como escritora, com o livro Os Colegas. Consagrada dentro e fora do Brasil e comparada aqui com Monteiro Lobato e no exterior com Saint-Exupéry, já teve obras traduzidas para diversos idiomas como alemão, francês, espanhol, sueco e japonês. Um dos seus livros, Corda Bamba, foi filmado na Suécia.

Katherine Paterson também nasceu em 1932, só que na China, onde seus pais, norte-americanos, atuavam como missionários. Em 1940, por causa da guerra, a família veio para os Estados Unidos. O primeiro livro nasceu durante um curso de escrita criativa para adultos. A autora foi agraciada com a medalha Hans Christian Anderson, o mais importante reconhecimento de literatura infantojuvenil no mundo. Atualmente, ela preside a Aliança Nacional de Livros e Literatura Infantil.

 

Fichas técnicas:

Ponte para Terabítia

Autora: Katherine Paterson

Tradução: Ana Maria Machado

160 páginas / Editora: Salamandra

 

A bolsa amarela

Autora: Lygia Bojunga

135 páginas

Editora: Casa Lygia Bojunga

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2 thoughts on “Sonhos que cabem em um reino ou para carregar na bolsa”

    1. E a protagonista ainda se chama Raquel! Também já quis, bem nessa faixa etária dos 12/13 anos. Lembro que uma vez na escola fiz uma enquete com as colegas e a maioria queria ter nascido homem, por acreditar que eles podiam tudo enquanto a gente não podia tanto assim. Hoje a visão é outra, ainda bem!

      Beijos grande.

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