Cidadania, Cotidiano, Crônicas, Geral, Querido Diário

Educação em Salvador, quem perdeu?

Uma amiga querida me chama após o trabalho: “Vamos ao cinema?” Eu topo, embora ande correndo léguas das salas escuras. Com exceção das matinées com o filhote, tenho evitado as sessões da tarde porque não tenho mais paciência com a falta de educação das pessoas. Isso acontece depois que a gente passa dos 30. Fica mais forte quando dobramos a curva dos 35. Estou nos 3.6, paciência para certas coisas não faz mais parte do meu repertório. Elegemos uma comédia bem despretenciosa (aguardem comentário sobre o filme em outro post), nada de pipoca (sou discípula de André Setaro, amém!).

Sala razoavelmente vazia de uma segunda-feira no final da tarde, mais perfeito que isso, impossível. Oba! Vamos rir, relaxar…O filme foi uma delícia, do tipo para desopilar o fígado, bem “coisa de mulherzinha”… De vez em quando é bom me lembrar que sou uma mulherzinha. Adoro!

Findo o espetáculo, levanto-me da cadeira. Uma garota, camiseta vermelha daquelas que deixam metade da barriga à mostra, combinada com uma calça jeans em que metade da calcinha também fica de fora, um piercing no umbigo, cabelos longos e lambidos pela chapinha, levanta da cadeira ao lado, segura um copo de milkshake vazio. E voilá! Atira o copo na cadeira. Uma parte do líquido, o restinho do fundo do copo, batiza minha até então imaculada camisa branca. Eu reclamo, ela finge que não ouviu, eu insisto: “Ei, moça, você jogou seu lixo em mim!”. Ela olha como se eu fosse de Marte, diz que eu que estava no lugar errado!!!! Eu respondo: “Bom, educação é artigo raro, nem todo mundo traz de berço e não vende em loja, nem nas de grife”. Ela responde um impropério.

Como não tenho o perfil de quem bate-boca em cinema,  desisto de argumentar. Vou embora com a minha amiga, pensando em colocar uma pedra de gelo sobre a mancha na camisa. Mas a reflexão é inevitável. Odeio quando as pessoas me provam que estou certa ao esperar sempre o pior delas e infelizmente, na maioria das vezes, não espero nada, e quando espero, é sempre o pior. Raríssimas criaturas despertam em mim amor incondicional, simpatia extrema, benevolência e uma esperança positiva de que servem para alguma coisa além de encher o planeta e provocar desequilíbrio ambiental. Conto e não enchem os dedos das duas mãos, infelizmente, as criaturas que valem a pena. Mas, felizmente, a amiga que foi comigo ao cine preenche um dos dedos. Imediatamente ela desvia minha atenção da “sintonia errada” da garota do milkshake. Anjo que é, começa a comentar as cenas mais divertidas do filme. Esqueço a camisa manchada. Venho para casa em paz. Agradecendo aos céus ter raras, porém fieis amigas como ela.

A reflexão porém, não me abandona. Penso nas pessoas que nos dão cotoveladas para entrar primeiro no ônibus, penso nas que não tomam dos nossos braços uma sacola pesada se estão sentadas e nós, de pé no coletivo, penso nos motoristas que não param na faixa e que cortam pela esquerda, direita (quase passam por cima) do carro que decide parar num sinal e deixar o pedestre atravessar, penso nas buzinas absurdas e insistentes mal o sinal abre e o carro da frente faz menção de arrancar, penso na selvageria do trânsito, penso no som alto do vizinho, da igreja evangélica embaixo da minha janela, do alto-falante no porta-malas do playboy, penso nas crianças mimadas e enjoadas, filhas de pais e mães omissos, que se jogam no chão do supermercado dando chilique ou que dirigem o carrinho de compras como se fossem o Hamilton, sempre passando por cima do nosso pé ou trombando nas pernas, penso nas pessoas que ficam falando ao celular durante um filme, penso naquelas que conversam aos berros nos pontos de ônibus, penso nas pessoas que nos dão “ombradas” na calçada, e volto à cena triste de ver uma garota jogar um copo vazio de milkshake de chocolate sobre a cadeira de um cinema onde outra pessoa vai sentar, na próxima sessão. E lembro dos papeis de bala, copos, garrafas, guardanapos sujos de acarajé e outras porcarias atiradas na sarjeta, entupindo bocas de lobo, enfeando as ruas da cidade. E constato (obviedade) que educação é uma utopia e que a cortesia pertence aos românticos às criaturas renascentistas como eu…

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s