Cinema, Datas, Ensaios

In Memoriam: Os 50 anos de Psicose III

E o terceiro trecho da análise de Psicose entra no ar nesta quinta, com um certo atraso, mas por uma boa causa!

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Leia  os outros trechos da análise:

>>In memoriam: Os 50 anos de Psicose I

>>In memoriam: Os 50 anos de Psicose II

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Psicose: O assassinato como obra de arte (continuação)

Hitchcock, analisando Psicose na célebre entrevista que concedeu a François Truffaut, diria sobre a cena do chuveiro: “A filmagem das punhaladas em Janet Leigh durou sete dias e houve setenta posições de câmera para 45 segundos de filme. Para esta cena, foi fabricado um maravilhoso torso artificial com o sangue que devia jorrar sob a faca, mas não me servi dele. Preferi utilizar uma moça, um modelo nu, que dublava a atriz. De Janet, só se vê as mãos, os ombros e a cabeça, todo o resto é com o modelo. Naturalmente a faca jamais toca o corpo, tudo é feito na montagem. Jamais se vê uma parte tabu do corpo da mulher, pois filmamos certos planos em câmera lenta para evitar ter os seios na imagem. Os planos filmados em câmera lenta não foram acelerados depois, pois sua inserção na montagem dá a impressão de velocidade normal”. Fica explicado pelo próprio autor o porque da lenda que diz que Janet Leigh nunca mais tomou banho de chuveiro após gravar Psycho.

Acusado de ser extremamente violento, Psicose correu o risco de rejeição, o que não aconteceu e que Hitchcock explica como uma inversão da intensidade dramática. Ele mata a atriz principal no primeiro terço da produção usando uma alta carga de violência e causando um impacto que se desvanece nas cenas seguintes do filme, que a essa altura sofreu uma mudança radical na trama. “Eles (os espectadores) pensaram que era sobre uma garota que comente um assalto e foge, e de repente ela morre e o mistério começa”.

Ao entrar no quarto de Marion Crane, Norman Bates vê o corpo e apaga cautelosamente todos os vestígios do assassinato, atribuído por ele à sua mãe. A partir desse momento, as investigações sobre o desaparecimento de Marion vão revelando um Norman Bates seriamente doente, obcecado pela figura materna, num dos complexos de Édipo mais funestos já registrados nos filmes de Hitchcock.

A sexualidade reprimida de Norman Bates e do próprio Anthony Perkins, ator que dá vida ao personagem, na época de lançamento do filme, abriram um leque imenso de interpretações para as patologias do assassino. Travestido na mãe, que descobre-se não passar de um corpo empalhado ao qual o próprio Norman empresta voz implacável, projetada da consciência culpada (já que também é matricida), o jovem desenvolve uma dupla personalidade, vive a própria vida e a vida dela. Fragilizado pela criação repressora que recebeu e pela super proteção, ele preenche a ausência da forte figura materna com uma fantasia. Durante a conversa com Marion, na sala das aves empalhadas, ele fala sobre a mãe ser “o melhor amigo” de um garoto, e sobre a passividade dos pássaros empalhados, dando pistas da sua “psicose”.

Norman mata a mãe para tê-la submissa à sua vontade, já que quando ela estava  viva, ele cumpria as dela.  Assumiu a identidade da mãe por constatar na sua loucura, que não conseguia mais viver sem estar sob o jugo da sua dominadora. A mãe ciumenta com o filho, que deve tê-lo privado de amigos e amigas após enviuvar, toma um amante e desperta os ciúmes do filho, único homem em sua vida desde a morte do pai. Mais freudiano que Psicose, só Marnie, filme em que a personagem cleptomaníaca roubava ricos empresários numa compensação para seus problemas em relação ao sexo.

…o último post da série será publicado nesta sexta

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