Cinema, Datas, Ensaios

In memoriam: Os 50 anos de Psicose I

Psicose, a obra-prima de Alfred Hitchcock, completa 50 anos nesta quarta-feira. Em homenagem a importante data do calendário dos cinéfilos, resgatei do fundo do baú o capítulo em que analiso o filme no meu Projeto Experimental de Graduação – na minha época ainda não se chamava TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) -, defendido em 1998, na Faculdade de Comunicação da UFBA. Além disso, os professores eram menos exigentes quanto a forma. Se o conteúdo tinha qualidade, se havia pesquisa e referências claras, um texto poético e pouco ortodoxo tinha tanto mérito quanto os que seguiam as normas da ABNT. Era um projeto experimental e como o nome já insinua, a ideia era testar conhecimentos, mas sem engessar a criatividade do estudante numa fórmula padrão recheada de citações, notas de rodapé e outros penduricalhos que tornam o trabalho um verbete de dicionário. Meu texto, na ocasião, era pouco ortodoxo. Acredito que ainda seja. O tema do projeto foi a obra do diretor e os recursos da linguagem cinematográfica que ele utilizava para provocar, deliberadamente, os sentimentos  da plateia. A comoção nas suas obras não é resultado da narrativa, mas deriva da linguagem e da técnica. Batizei a monografia com o título “A Obsessão do Mestre: O espectador na obra de Alfred Hitchcock”. Já prometi uma vez digitalizar o trabalho na íntegra, a versão original (relíquia de museu). Por enquanto, transcrevo o capítulo sobre Psicose e o publico – em partes – aqui no blog, ao longo da semana, como tributo ao filme. A análise é feita em linguagem livre, mas é acadêmica, e portanto, eu conto sim, o clímax da obra. Caso você nunca tenha assistido Psicose nestes 50 anos, tudo é possível, troque de canal rapidinho (pule de post – ali ao lado no menu tem um arquivo cheio), porque nesse caso, “a mocinha morre no começo”!

Preservei o texto tal qual foi escrito nos meus 24 anos, inclusive com as “falhas” de apuração. É preciso ser fiel às próprias memórias…

Psicose: O assassinato como obra de arte

Quarenta e nove facadas e calda de chocolate marcaram a história do cinema e contribuíram para inscrever o nome já consagrado de Alfred Hitchcock no rol dos criadores mais geniais da sétima arte. Psicose, quando foi lançado em 1960, causou impacto pelas cenas de violência e sensualidade exibidas. Mas, o esfaqueamento brutal de Marion Crane (Janet Leigh), seu sutiã preto à mostra, ou a sexualidade ambígua de Norman Bates, não impediram que a produção batesse o recorde de bilheteria da época, faturando a generosa quantia de US$ 32 milhões de dólares.

Em Psicose, Hitchcock explora todas as nuances da dupla personalidade e da culpa, alguns de seus temas preferidos. O jovem Norman Bates mora com a mãe numa casa sinistra, sempre filmada em contra-plongée (de baixo para cima) para aumentar o impacto desconfortável que a arquitetura opressiva causa no espectador. Anexo à casa há o motel de beira de estrada dirigido por Norman. Este, além de administrar o negócio, cuida da limpeza do motel. Somando ainda às suas tarefas diárias os cuidados domésticos e a assistência a mãe inválida, que só conhecemos a sombra sempre presente em uma das janelas do casarão. O espectador sente piedade por Norman. Ele duela com a mãe em diálogos dolorosos e vive uma existência miserável, até que Marion Crane, após dar um desfalque de US$ 40 mil na empresa onde trabalhava, chega ao motel como hóspede. Inadvertidamente invadindo o frágil equilíbrio da relação edipiana entre Norman e a Sra Bates.

Confortavelmente instalado na poltrona da sala escura, o espectador acompanha a história de Marion a partir do momento em que ela e o namorado se despedem de um encontro estrategicamente marcado no horário do almoço. Nesta cena rápida, a frustração de ver Janet Leight vestir, ao invés de tirar a roupa. De volta ao escritório e queixando-se de dor de cabeça, uma amiga (Patricia Hitchcock), lhe oferece uma aspirina e um asqueroso milionário texano a assedia sem nenhum pudor. Se foi por revolta com o assédio ou simples tentação, Marion Crane rouba o dinheiro de uma transação entre o milionário e seu chefe, que ela foi encarregada de depositar no banco. O espectador torna-se cúmplice da fuga da jovem ladra, mas ao mesmo tempo se pergunta se ela é a vítima (por ter sofrido assédio) ou apenas se aproveitou da situação para “arrumar a própria vida e a do namorado”.

Depois de dirigir horas a fio, a exausta Marion Crane e o exausto espectador, que passou com ela todos os perigos (desde o momento em que joga as roupas apressadamente na mala, até um policial pedir-lhe os documentos na estrada), chegam ao motel Bates, onde ela conhece o frágil Norman e ouve uma discussão dele com a mãe. Ainda antes da chegada ao hotel, a música de Bernard Hermann, criando um desconfortável clima de perigo, a chuva torrencial, a escuridão da estrada, o para-brisa em movimentos ritmados como se fizesse a regência da música, a claridade do letreiro luminoso do hotel nos olhos de Marion, indicam o que Hitchcock chamou de “mudança no eixo da história” ao referir-se à Psicose. Lentamente, esses elementos de cena conduzem o espectador a imaginar que há mais do que o roubo de uma firma por sua funcionária e o perigo em ser descoberta. O medo é crescente, parece imaginário, plantado pouco a pouco na mente de Marion, lentamente modificando-se em pavor…

Continua nesta quarta-feira



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