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Sobre amor, clichês e Paul Young

Li outro dia em uma reportagem que o amor era “um sentimento clichê”. Fiquei matutando no assunto e me pergunto se a ideia foi generalizar para todas as manifestações de amor ou apenas para o que convencionou-se chamar “amor romântico”. No primeiro caso, resisto em classificar como clichê o amor entre pais e filhos, entre grandes amigos, dos abnegados por suas causas humanitárias e até, dos donos por seus animais de estimação, sem falar nas incontáveis formas de amor que não entraram nesta lista mas que existem no mundo (até mesmo o amor que se disfarça de paixão e dura uma chuva). Só não admito o amor assassino, até porque, amor e violência não combinam. No segundo caso (amor romântico), embora Fernando Pessoa tenha dito que “as cartas de amor são ridículas”, acredito que o disse não com a intenção blasé que costumam atribuir ao verso do poeta português, mas admitindo que a vida, independente do amor, é um belo apanhado de pequenas coisas, algumas ridículas, outras mesquinhas, outras prosaicas, outras especiais, que quando reunidas assumem os tais grandes significados que vivemos buscando e/ou tentando atribuir a nós mesmos e aos outros. No fundo, somos apenas macaquinhos falantes muito prepotentes, que se julgam os reis da criação, a quem foi dado o dom da palavra e junto com ela,  a capacidade de reflexão.

A reportagem, lógico, era uma das prévias ao Dia dos Namorados (sacaram que não abordei o tema à toa, Mar de Histórias também fica de olho no calendário). Daí, um dos blasés, a gente cool e descolada do mundo, diz que é “só mais uma data do comércio”. Sim, pergunto, e se for? Qual o problema de positivar a data e torná-la aquilo que queremos que ela seja? E aqui cabe inclusive considerá-la nada de especial ou atribuir-lhe status do dia mais importante do ano. Embora o marketing insistente, para não dizer agressivo, do comércio se volte para cima dos enamorados, querendo associar amor = presente, e para cima dos solteiros, como a jogar-lhes na cara: tá vendo aí, não tem par vai ficar sem ganhar nada ou, compre para si mesmo o prêmio de consolação; tendo também a acreditar –  apesar dos esforços para me provarem o contrário – que as pessoas não são ovelhas (pelo menos boa parte não é) e são capazes de pensar por conta própria (algumas ainda o são, com toda certeza) e decidir se querem jogar-se de cabeça e cartão de crédito no apelo do consumo ou se vão tornar o 12 de junho, e todos os outros dias que o precedem e sucedem, um dia especial para manifestar amor seja pela cara-metade ou por qualquer outra criatura privilegiada (pais, filhos, amigos, o vizinho, o cachorro, o caixa da padaria…).

Na minha cabeça, o Dia dos Namorados é “só mais um dia” para tentarmos manifestar amor, inclusive por nós mesmos. E olha que o mundo anda precisando de amor, esteja ele transmutado nos assemelhados solidariedade, carinho, tolerância, compreensão, respeito…ou apenas embalado em papel carmim, com flor na lapela e um urso de pelúcia do tamanho do Empire States. Gosto da frase do Fernando (Pessoa) porque me sinto ridiculamente boba quando manifesto amor por quem quer que seja e dada a natureza passional que carrego, amar e apaixonar-me (até por livros e filmes) é frequente.

Tenho arrepios é com o verso de Camões. De fato, o amor é “o fogo que arde sem se ver”. E a pieguice? Olha, digo a vocês, a coisinha pasteurizada, de frase pronta, feita com o objetivo de comover na pressão, me desagrada. Mas, como sou do tipo que chora em cinema (e sai da sessão de olhos vermelhos, fungando e encarando todos os blasés com uma grande e profunda piedade pela total incapacidade de sentir deles) recomendo de vez em quando, em doses homeopáticas, porque doce demais estraga a receita e ácido demais não tem quem coma, um pouquinho de pieguice romântica.  Faz bem ao espírito amar com intensidade. Ao meu, com certeza!

Para ajudar a criar um clima bem clichê, uma música que adoro. Dos idos de 1978 (quando eu já era uma incorrigível menininha romântica de 4 anos. Projeto da futura mulher da renascença que construiria como auto identidade) Paul Young canta Love is in the air. Os créditos, óbvio, pertencem ao São Youtube das Memórias Preservadas. Divirtam-se meus amados!

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