Dicas de leitura, Literatura, Resenhas

Resenha: As Crônicas de Nárnia

Acabo de responder ao comentário de um leitor, postado em um texto sobre Salman Rushdie (o padroeiro do Mar de Histórias). Engraçado é que o leitor se refere a autora do post como “Caro amigo”. Escrevendo para o Cineinblog, o blog de cinema do A TARDE On Line, preciso frequentemente lembrar aos leitores que insistem em chamar a autora de “companheiro” ou “amigo”, que a blogagem, no meu caso específico, tem sexo e gênero: mulher, feminino, fêmea. Adoro os meninos, sou mãe de um, inclusive, e sou menina. Como disse Simone de Beauvoir, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Pois bem, tornei-me mulher desde a mais tenra infância e não me arrependo da decisão. Aos que gostam de ler as palavras da “cara amiga”, abaixo, mais uma resenha literária. Enjoy yourselves!

Mais que um mundo bíblico traduzido em conto de fadas

Andreia Santana

A obra literária As Crônicas de Nárnia seria uma coletânea de contos fantásticos, de fantasia e sonho puro muito mais interessante se deixasse de lado o tom de catequese nas tardes de sábado. Mas, sendo o autor um homem de formação religiosa tradicional, e a obra escrita em meados do século XX (precisamente entre 1949 e 1954), não tinha como não transpor para as aventuras dos irmãos Pevensie as tradições bíblicas herdadas da cultura judaico-cristã. Mas, é um engano e uma leitura rasa, interpretar toda a obra de C.S. Lewis apenas como uma tradução bíblica em versão infanto-juvenil e com faunos e dríades como coadjuvantes para as agruras de Susana, Pedro, Lucy e Edmundo.

Embora essas crianças, coitadas, – não à toa chamados de filhos de Adão e filhas de Eva – paguem todos os pecados da sua humanidade ao longo da história, é inegável o mérito do autor ao compor sua sinfonia de animais falantes, árvores sussurrantes e jornadas épicas. Pessoalmente, Aslam poderia se parecer menos com o Deus vingativo do Velho Testamento e se tornar mais um leão de fábula, sábio, mas não tão severo. Majestoso, mas sem a arrogância daqueles que tem certeza de que são infalíveis. O tom profético e professoral cansa, mas o livro tem seus momentos memoráveis. Sobretudo no conto A viagem do Peregrino da Alvorada, o meu favorito.

Os irmãos Pevensie na versão da Disney para O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, um dos sete contos (ou livros) que integram As Crônicas de Nárnia

Para quem gosta de finais previsíveis, o desfecho das Crônicas pode frustrar e para quem foge de pieguice como o diabo da cruz, este mesmo final pode parecer um sermão de domingo, daqueles que fazem metade dos fiéis cochilarem na igreja. No entanto, a capacidade de C.S. Lewis de deixar a imaginação voar por terras e povos exóticos transcende em muito o esforço dos estúdios Disney em adaptar O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Por mais que o filme traga as amplas tomadas e passeios de câmera por vastidões selvagens, as cenas descritas no livro, os detalhes meticulosos, o tom entre o irônico, o jocoso e o paternal, tudo isso contribui para aquele ambiente de histórias de ninar que eu, particularmente, adoro. Imaginar Nárnia e todas as terras estranhas descritas por Lewis é um exercício de criatividade dos mais fascinantes.

Entendo os sete contos (ou livros) que compõem As Crônicas de Nárnia como um grande requiém para os sonhos infantis. C.S. Lewis parece dizer a cada linha, de maneira inegavelmente nostálgica, que crescer é uma frustração constante. E é mesmo, Peter Pan que o diga. E não é à toa que Lewis é tão britânico quanto J. M. Barrie, o criador do menino que não queria crescer. Provavelmente, ele mesmo cresceu lendo Peter Pan e outros contos de fadas, que aliás, admitia ler com mais interesse e encanto na idade adulta. Eu também. Daí manter minha teoria de que contos de fadas fazem tão bem – ou até mais – aos adultos, do que propriamente ao seu público-alvo atual, as crianças.

Pedro, o Grande Rei (de armadura vermelha) e o príncipe Caspian

Inegável o objetivo educativo das Crônicas, embora, ao que parece, o autor não tinha necessariamente em mente escrever um manual de escola, mas acabou fazendo de forma semiconsciente. Na edição das obras completas (os sete contos em um volume único), que li, o último texto é um artigo inspirado, escrito por um C.S. Lewis intelectual e filósofo, refletindo sobre o ato de escrever para crianças. Neste texto, ele mesmo condena os livros que se assemelham a manuais, mas não deixa de enfatizar a importância de comunicar algo importante aos mini leitores, só que de uma forma que eles entendam e divirtam-se ao mesmo tempo. Vale muito a pena ler este texto, principalmente quem pensa em escrever profissionalmente.

Conservadora? Sim, em certa medida As Crônicas de Nárnia é uma obra conservadora. Os valores judaico-cristãos lembram? Culpa, pecado original, a mancha que todos trazemos ao nascer, graças a Adão e Eva, e por aí vai… Mas tem também um toque de mil e uma noites, muitas referências à mitologia “pagã” grega, romana e nórdica; e ainda, em alguns momentos, a obra é audaciosa.

Meninas guerreando? Numa obra escrita nos anos 50?! É certo que as mulheres já haviam conquistado muitos direitos civis no final dos anos 40 e é certo também que a chamada “revolução dos costumes” apenas se insinuava, vindo a eclodir mesmo nos transgressores anos 60, e portanto, o autor, fazendo jus ao seu papel de homem religioso, teria de rebelar-se contra certas “modernidades” (vide o injusto destino de Suzana, a Pevensie mais velha).

Jadis, a sedutora serpente do paraíso

Mas ainda assim ele foi audacioso para os padrões do período e criou meninas independentes, muito mais inteligentes que os protagonistas meninos, por exemplo. E criou Jadis, a feiticeira, que embora demonizada, a própria encarnação de Lilith, literalmente a serpente do paraíso, não deixa de ser um personagem feminino peculiar e dotado de fascínio. A sensação que eu tenho é que nem o religioso autor escapou da sedutora maldade da feiticeira. Aslam muito menos.

Mostrando-se discípulo da filosofia de Platão, C.S. Lewis não se furta aos jogos de realidade x simulação. Nárnia é um mundo entre muitos mundos criados, que tem um começo e um fim. As passagens para penetrar em seus mistérios são abertas secretamente e de forma inesperada. Nunca é possível retornar pelo mesmo caminho.

Suzana Pevensie, destino injusto

O primeiro livro das Crônicas (seguindo a ordem de leitura que o próprio autor recomendava), O sobrinho do mago, é uma viagem pelo espaço-tempo. Duas crianças, uma delas no futuro seria ligada aos irmãos Pevensie, descobrem aneis de poder que os permite viajar no tempo. Enquanto pulam de um mundo para o outro, como se pulassem de uma brincadeira para outra, as crianças encontram Jadis em um mundo muito antigo, em extinção, e presenciam o nascimento da própria Nárnia. Esses acontecimentos porém, ocorrem em fissuras temporais distintas. O autor nos lembra, dessa forma, que as histórias ocorrem em paralelo e simultaneamente, no nosso mundo ou nas terras encantadas. Não deixa de ser assim na vida fora dos livros: enquanto vivemos nossa história, milhares de outras ocorrem ao mesmo tempo neste mundo. E quem sabe em outros?

Aslam canta para Nárnia nascer, da mesma forma que cantaram os ainus, os deuses que na mitologia recriada de Tolkien, deram origem à Terra Média. A Nárnia criada por Aslam, porém, é uma entre infinitas nárnias e este mundo mágico ora surge inocente, ora brutal.

C.S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, foi amigo íntimo de J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Aneis). Os dois integravam um grupo de escritores – “os cavaleiros da tinta” – que se reuniam em pubs para discutir literatura. Frequentemente, uns opinavam nas obras em que os outros estavam trabalhando. Lewis nasceu em Belfast (Irlanda) em 1898 e morreu na Inglaterra, em 1963.

Na medida em que as crianças que visitam o leão e seu reino de fantasia crescem, envelhecem, amadurecem, muda a percepção delas sobre a magia e o encanto deste país de faunos e árvores falantes. Nárnia não fica incólume a essas mudanças de percepção. É como o mito das fadas, em que é preciso crer na existência dessas pequenas criaturas aladas para que elas de fato passem a existir. Tanto que, para aquelas crianças que, mesmo aos 80, continuam acreditando em Nárnia, ela perdurará infinitamente.

A crueldade é que o portal se fecha para sempre para quem deixa de acreditar. Neste sentido, a mensagem religiosa (a importância da fé) acaba predominando na obra. Mas ainda assim, ela é bem mais do que um mundo bíblico traduzido em forma de conto de fadas.

Advertisements

7 thoughts on “Resenha: As Crônicas de Nárnia”

  1. A historia é maravilhosa assisti duas vezes, os ensinamento são importantes principalmente para as crianças.

  2. eu sou apaixonada por narnia e seus contos sou fissurada nesse mundo de fantasias sou professora e sei o quanto e importante estimular a imaginacao foi os melhores filmes que ja assisti agradesso por essas producoes.

    1. É Daiane,
      Gosto do filme baseado em “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”. Mas acho o filme “Príncipe Caspian” muito aquém da obra original em texto. No caso dessa análise aqui do blog, estou falando das crônicas em texto e não das adaptações para o cinema. Só as imagens que ilustram a resenha literária é que são dos filmes. Abraços.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s