Cinema

“Crítica” para a Alice de Tim Burton

Delírios de Tim Burton no País das Maravilhas

Por: Andreia Santana

Tim Burton não para de me surpreender. Quando eu penso que a fórmula para filmes deliciosamente góticos e melancólicos do diretor se esgotou, ele aparece com outra surpresa tão agradável quanto a sua versão para o clássico Alice no País das Maravilhas. E aqui, eu peço licença aos críticos especializados, mas discordo em gênero, número e grau de boa parte do que vem sendo dito sobre esse filme: A Alice de Tim Burton, ao menos para mim, não decepciona nem um pouco. É exatamente o que eu esperava de um filme do diretor e no caso dele, cheguei à conclusão de que não quero surpresas, gosto mesmo é da fórmula e da máxima futebolística: “em time que está ganhando não se mexe”.

Para efeitos da análise a que me proponho, vale deixar claro que o filme de Tim Burton bebe na fonte do clássico de Lewis Carrol, recria o universo onírico do País das Maravilhas, mas conta outra história. Ou, para ser mais precisa, o diretor se permite um exercício que qualquer leitor bem treinado e de imaginação fértil adora fazer: imaginar o que acontece quando a história acaba. Quem nunca ficou pensando se a Cinderela e o príncipe foram mesmo felizes para sempre? Ou se sentiu tentado a escrever (ao menos imaginar) uma continuação para o conto, com a Cinderela tendo seus filhos e vivendo algum outro tipo de aventura, mesmo que aventura aí seja cuidar de uma casa, do marido, arrumar um emprego, ir ao cinema com as amigas, e pagar as contas em dia? Ou então, Cinderela se divorciou, porque o príncipe era um chato, e recomeçou uma vida nova, em outras terras, sozinha ou até com outro príncipe. Por quê não?!

A fantasia é um alimento para a alma humana tanto quanto água e glicose são vitais para o corpo. Mas o que é preciso entender é que, nos tempos atuais, a fantasia flerta com a vida real e busca numa linguagem mais cotidiana, novos adeptos para o reino do sonhar. Morfeu agradece. Como já disse antes, a mitologia clássica é fabulosa e deve ser preservada, mas novas histórias que bebem na fonte dos clássicos são sempre bem-vindas, ao menos para mim. Sendo que o conceito de novo atualmente não pode mais ser dissociado da ideia de recriação.

Pois é isso que Tim Burton faz, ao recriar Lewis Carrol com pitadas da sua própria mitologia pessoal. Transpõe para a tela do cinema um delírio imaginativo de um autor visionário, que há 150 anos (mais ou menos) foi capaz de conceber um mundo colorido e exagerado para explicar a uma criança que os adultos são criaturas muito esquisitas mesmo. Mas, como é Tim Burton, ele não se furta a inserir neste delírio de Carrol, alguns elementos do seu mundo: vilões bonachões e ridículos como a Rainha Vermelha Cabeçuda (reatualização da rainha de Copas do original) e mocinhas sombrias e com um sorriso meio ambíguo, como a Rainha Branca. O reino da Rainha Branca é mais assustador, na minha concepção, do que o coloridíssimo jardim da Rainha Vermelha.

A protagonista – A Alice de Tim Burton tem quase 20 anos, retorna ao País das Maravilhas após fugir de uma cerimônia de noivado, sendo que ela é a noiva e não tem o menor desejo de se casar. Órfã de pai, mulher numa sociedade conservadora (século XVIII), ela quer mais da vida, embora não tenha ainda muita clareza do que quer ou de quem é de fato (a identidade é ponto forte no filme tanto quanto no livro). “Sou a Alice errada”, dito pela personagem num dos momentos do filme, para mim é uma das falas mais significativas e é aí que o diretor se mostra fiel ao princípio que guiou Lewis Carrol. O livro original é a viagem de descobertas de uma criança, perante o mundo adulto e nonsense de seu tempo. O filme é a viagem de autodescoberta de uma jovem inserida num mundo adulto onde não vê sentido e ao qual não faz a menor questão de fazer parte.

A irmã de Alice é casada, uma dama da sociedade, obediente, convencional. Alice quer é transgredir, fugir do destino que a aguarda. Mas para isso, precisa amadurecer e dar-se o direito de enlouquecer um pouco. Quando criança, ela ouviu do pai que as pessoas loucas são as melhores e a loucura aqui é usada como metáfora para as pessoas mais audaciosas, corajosas, que fazem o próprio caminho. Não é à toa que o diretor opta por transformar o Chapeleiro, figura emblemática da obra de Carrol, em um líder excêntrico de uma rebelião contra a Rainha Vermelha.

A loucura do Chapeleiro de Tim Burton é a dos visionários e dos apaixonados. Nesse aspecto, Alice e ele são mais compatíveis do que o noivo “lorde britânico de narizinho empinado” que tentam empurrar-lhe no mundo superior. Johnny Depp, lógico, dá verossimilhança a esse Chapeleiro que se equilibra de forma tênue entre o bobo da corte e o herói, sendo ambos e nenhum deles ao mesmo tempo. Sem falar na construção visual do personagem, belíssima e de uma riqueza de sentidos que só um tratado de semiótica para explicar.

Outra sacada genial do diretor é transformar o País das Maravilhas em submundo. Durante séculos, a ideia de submundo, mundo inferior, foi associada ao inferno, mas vamos dar o nome correto aos bois: O que se convencionou chamar de submundo na verdade é tudo o que foge ao padrão, tudo o que choca a norma socialmente aceita e estabelecida. E é do underground que na maioria das vezes surgem os sopros de renovação, depois incorporados e “legitimados” pelo mundo de cima. Não sem antes serem desinfetados da rebeldia underground. Além disso, nenhuma viagem de autodescoberta que se preze, desde Dante, é válida se não houver uma descida ao “inferno”. Portanto, o submundo, em se tratando de localização geográfica, é o local perfeito para assentar o País das Maravilhas. A fantasia, afinal, tem sua morada no inconsciente, o submundo da nossa consciência.

Em se tratando de técnica cinematográfica, Alice no País das Maravilhas tem o cuidado com cenários e personagens que se vê nas obras de Tim Burton, tanto em animação quanto com atores reais. O que gosto na rica filmografia deste diretor é que para ele, a história, tanto quanto a narrativa (a forma de contar essa história) ou a técnica de filmagem e a linguagem cinematográfica, são igualmente importantes e valorizadas.

Quem vai ao cinema esperando ver a Alice do desenho da Disney, atenuada e infantilizada para as crianças da década de 50, com certeza vai se decepcionar. Além disso, Tim Burton não se satisfaz em recontar à sua maneira uma história que todos nós já conhecemos. Antes, o diretor se dá o direito de recriar Lewis Carrol, mas de avançar para além do País das Maravilhas, desenvolvendo uma trama em que Alice é a protagonista e não apenas a menina que cai no buraco do coelho e descobre um mundo fabuloso.

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1 thought on ““Crítica” para a Alice de Tim Burton”

  1. Parabéns pela resenha. Depois de ter lido decepções sem muito argumento, algumas até bem raivosas, outras dizendo que “a história foi estragada” e etc. estava sem esperanças de encontrar alguém que tivesse realmente algo a dizer sem detonar Tim Burton e sua excentricidade, que realmente explicasse seu ponto de vista. Estou fazendo um trabalho sobre este filme, comparando opiniões e, tenha certeza, a sua me ajudou muito. Obrigada.

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