Cinema

Crítica: A Estrada

Fui assistir A Estrada com uma amiga neste sábado. Publico minha opinião sobre o filme, para os interessados…

Viagem solitária em uma terra desolada

A Estrada foge do convencional dos filmes catástrofe ao retratar saga de sobreviventes após colapso ambiental do planeta

Andreia Santana

Baseado em romance homônimo de Cormac McCarthy (autor de Onde os fracos não tem vez) e vencedor do maior prêmio literário dos EUA, o Pulitzer, em 2007, A Estrada chega ao cinema adaptado e dirigido pelo australiano John Hillcoat (A proposta) e tem como chamariz a presença de Viggo Mortensen (o Aragorn da saga O Senhor dos Anéis) encabeçando o elenco. O ator vive um pai que numa terra devastada, após uma catástrofe ambiental que matou boa parte dos seres humanos e reduziu os sobreviventes a nômades próximos da barbárie, tenta sobreviver e salvar a vida do único filho.

Mas, a semelhança de A Estrada com um filme catástrofe nos padrões hollywodianos como O Dia Depois de Amanhã ou mesmo o recente 2012, fica apenas no tema explorado: o apocalipse. O tratamento nesta história busca em um lirismo às avessas (literalmente, a beleza extraída da miséria) uma fuga do convencional. A Estrada é um filme sobre relações humanas e o quanto somos frágeis enquanto indivíduos, quando isolados do nosso bando. Trata da viagem do pai e seu filho (os personagens não tem nome, nomes são desnecessários numa terra reduzida a escombros) rumo ao litoral, onde acreditam que o caos seja menor, mas é uma jornada intimista.

A semelhança com um road movie não está só no nome, mas ninguém espere a emoção de grandes descobertas comuns às viagens de autoconhecimento, como no belo Na Natureza Selvagem (Sean Penn). O que o pai tenta ensinar a seu filho é o mais básico em termos de sobrevivência, não há muito espaço para filosofia. O protagonista é frágil, um resto de gente, o ator emagreceu bastante para filmar, não lembra em nada a virilidade do cavaleiro Aragorn, salvador da Terra Média.

Enquanto lutam para conseguir comida, pois nenhum animal sobrou no planeta após o cataclisma, e veem as últimas árvores morrerem, o pai e seu filho estabelecem uma cumplicidade comovente e se agarram um ao outro para não sucumbir. Os dois ainda precisam fugir de bandos de seres humanos que no auge do desespero passaram a praticar o canibalismo. O destaque fica para o pequeno ator (Kodi Smit-McPhee) que vive o filho. Ele se entrega ao papel de maneira comovente e convincente.

A Estrada é angustiante e opressivo. A própria luz e a fotografia são usadas para criar um clima de desolação e claustrofobia, mesmo diante da grandiosidade do deserto despovoado da Terra. O planeta congela, a cinza de incêndios espontâneos mantém a atmosfera permanentemente nublada, não existe sol, o mar não é mais azul e no meio de toda essa agonia da Terra que morre pouco a pouco, o amor do pai e de seu filho tentam resistir aos atos mais extremos. A aflição do espectador é descobrir se eles vão conseguir ou vão se entregar.

Para quem está acostumado a roteiros lineares e a filmes com começo, meio e fim demarcados, ou mesmo com aqueles de ação frenética, A Estrada surpreende por sua deliberada fuga de padrão e pela lentidão das cenas. Em certa medida, lembra o cinema do Leste Europeu pós queda do comunismo e foge, sem pseudo afetação, das produções nos moldes norte-americanos. Outro fator que chama atenção é a ausência de interação entre os sobreviventes da catástrofe. Os seres humanos não confiam mais uns nos outros e isolam-se deliberadamente. Boa parte do tempo vemos o pai e seu filho na viagem interminável e silenciosa. Não há longos diálogos, a economia de palavras casa com o ambiente ao redor. O silêncio é preenchido pela vastidão desolada.

Quem espera explicações, verá que nada fica explicado de maneira tão simples. Em nenhum momento, o espectador vê qual foi a catástrofe que acometeu a Terra, não são mostradas cenas da desintegração gradativa da humanidade, não aparecem governos tentando planos de ação e evacuação. Os grupos canibais são apenas como bandos de hienas famintas caçando outras hienas, na falta de outro alimento, nada que lembre, por exemplo, a ditadura dos cegos no sanatório em Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles).  As únicas cenas convencionais, em flashback, são as lembranças do pai vivido por Viggo Mortensen, da vida anterior ao cataclisma. As lembranças, propositalmente, são inseridas nos sonhos do protagonista, como se uma vida “normal” não passasse de um devaneio.

O filme resume-se à jornada inglória de restos de seres humanos, que a muito custo tentam manter o que o protagonista chama de “fogo interior”, que nada mais é do que resquícios de humanidade duelando contra a selvageria. A questão é saber quem vai predominar no final ou se nos “novos tempos” pós-apocalípticos, a visão maniqueísta do bem contra o mal ainda se sustenta.

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5 thoughts on “Crítica: A Estrada”

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