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Sobre Ingrid, mães e pessoas amargas

A competente e talentosa Natália do Vale dá vida a um dos personagens femininos mais polêmicos já criados por Manoel Carlos. Ela consegue ser ainda mais assustadora que a Heloísa de Giulia Gam, em Mulheres Apaixonadas, porque sua obsessão volta-se para os filhos, que ela literalmente martiriza com sua falta de amor e excesso de controle

Há alguns dias que venho reparando em Ingrid, personagem de Natália do Vale na novela Viver a Vida. Primeiro, quero só deixar registrado que essa é a pior novela de Manoel Carlos que já assisti, sendo que não gosto das novelas do autor, acho todas extremamente machistas, misóginas e preconceituosas, no sentido de só trabalhar com os preconceitos e estereótipos que governam nossa sociedade, principalmente da classe média para cima, e a forma como esse grupo enxerga a população situada da classe média para baixo. Segundo, sim, eu tenho um lado totalmente noveleiro, como qualquer criatura comum, independente de fazer às vezes de jornalista metida a intelectual. E terceiro, adoro Natália do Vale, acho-a excelente atriz, cresci vendo-a brilhar em diversas novelas e as críticas que seguirão abaixo, jamais, em tempo algum, podem ser interpretadas como críticas à atriz. Aliás, Ingrid chama tanta atenção graças ao show de interpretação de Natália, que deve estar fazendo das tripas coração para dar vida a essa mulher tão amargurada. Pois bem, agora que já expliquei os pingos dos is, vamos falar de Ingrid, das mães e de pessoas como ela, que infelizmente – na minha opinião – povoam este vasto mundo mais do que seria saudável.

É de se pensar que alguém como Ingrid só pode existir na forma de ficção. Mas sabemos muito bem que existem mais ingrids por aí do que supõe nossa vã filosofia. No começo, ela era só uma mãe super, ultra, mega protetora, caricata e meio exagerada, mas num sentido muito negativo tanto da maternidade quanto da proteção. Não tenho nada contra as mães (sou uma delas, inclusive!) e muito menos tenho algo contra proteção. Protegemos aqueles que amamos, lógico, sempre buscamos dar o melhor aos nossos filhos, tanto afetiva quanto materialmente, até aí nenhuma novidade. Recomendar que o filho leve o casaquinho antes de sair, preparar um chá se ele estiver doente (minha mãe faz isso até hoje) e até oferecer o ombro amigo caso ele queira desabafar, é algo tão inerente ao papel de mãe que nem vale mais listar como pré-requisito ao cargo. Mães costumam ser mesmo seres estranhos, como diz uma amiga, e algumas parecem dotadas de sexto sentido, adivinham cada sentimento e pensamento nosso. Lidar com isto é meio assustador e reconfortante ao mesmo tempo, beira o sobrenatural. Algumas são mais descoladas e independentes, são mais ou menos atentas…Enfim, há tantos modelos de mães quanto existem tipos de pessoas neste mundo, sem que uma seja melhor que a outra, são apenas diferentes. Óbvio que as mães que rejeitam o posto, abandonam ou ferem seus filhos não entram nessa reflexão. A doença delas é de outra natureza, exige outra abordagem e muitas dessas medeias modernas são mais dignas de piedade do que de ódio.

Mas Ingrid não é nada disso. Ingrid é só uma mulher amarga, frustrada na sua feminilidade, é uma mãe que usa os filhos como muleta para amparar todas as suas fraquezas como ser humano e todas as tristezas de não ter se realizado no casamento, na profissão, na sexualidade. Freud, desculpem o chavão, mas a verdade é essa, explica isso muito melhor que eu. Não tenho pretensão e nem competência para explicar melhor que o pai da psicanálise. Mas, o que me incomoda em Ingrid porém, não é nem tanto a sua maternidade obsessiva e doentia (isso também incomoda, porque na superproteção dela falta o principal, afeto. E falta ainda a maior prova de amor que uma mãe, mesmo quando nos liga diariamente para saber se precisamos de alguma coisa, pode dar a um filho: que é deixá-lo caminhar com próprias pernas). O bacana das mães que protegem por afeto e não para compensar suas frustrações pessoais é que elas mantém o ninho quentinho a vida toda, mas jamais nos obrigam a permanecer nele. E permanecer no ninho não é meramente morar na casa dos pais, o sentimento de liberdade transcende o lugar onde dormimos.

O que me incomoda profundamente em Ingrid é a sua falta de humanidade, a sua índole cruel, a sua visão absurdamente distorcida e preconceituosa da vida e das pessoas. Ingrid divide o mundo em castas: sadios x aleijados, bonitos x feios, viúvas x solteiras e por aí vai. Ela categoriza os seres humanos e nisso não ajuda em nada a diminuir as intolerâncias que nos cercam. Não é que ela rejeite o politicamente correto ao não chamar a futura nora de cadeirante e preferir o termo aleijada, é que ela não percebe que o que faz de uma pessoa um ser humano inteiro não é se ela anda sobre as duas pernas ou sobre rodas, é algo que transcende o corpo. O espírito de Ingrid é que tem uma grande deformação.

Cena da novela Viver a Vida. Ingrid e o filho Jorge

Me espanta que uma mãe como ela, com tantos defeitos de caráter, tenha criado filhos “do bem” como os seus gêmeos Miguel e Jorge. Uma mulher como Ingrid, sinceramente, não tem nada de bom para ensinar a uma criança, só frustração, amargura, futilidade e uma falta de solidariedade, de afeto e de humanidade enormes. Uma mulher como Ingrid sequer deveria ter optado pela maternidade, porque fica óbvio que ela teve filhos apenas como prêmio de consolação por sua vida ordinária e digna de uma pena que eu não me vejo capaz de sentir. E vale sempre lembrar: filhos não são troféus, são pessoas que, apesar de terem saído de dentro das suas mães, geradas com a ajuda dos genes de seus pais, não pertencem nem a uns e nem a outros como objetos comprados numa loja. Eles, os filhos, pertencem ao mundo, como bem dizia minha sábia avó paterna. E é para o mundo que nós os criamos, ao menos eu tento me lembrar disto diariamente.

Não tenho nenhuma pena de Ingrid, apenas lamento a existência dela. Acredito que, no que diz respeito a audiência e condução narrativa da novela, a personagem ainda vá destilar muito veneno sobre a vida dos filhos, do marido, das possíveis noras, dos amigos e dos funcionários do seu estúdio fotográfico. Talvez termine louca e internada em algum hospício, ou então entre num grupo de autoajuda desses que sempre surgem nas novelas de Manoel Carlos (como a Heloísa de Mulheres Apaixonadas e o grupo Mulheres que Amam Demais). Só que Ingrid nem poderia contar com a ajuda que Heloísa contou, por exemplo, porque ela não ama nem demais e nem de menos. Ingrid não sabe o que é o amor e não tem a menor ideia de como senti-lo.

No entanto, não é com a Ingrid de ficção que estou preocupada, é sim com as ingrids (sejam mulheres ou homens) que circulam por aí. Esses seres, que também não contam com a minha piedade ou simpatia, apenas com a profunda tristeza de saber que eles existem e disseminam suas sementes do mal mundo afora, me preocupam porque é graças a essas pessoas, seus preconceitos e intransigências, que vivemos em uma sociedade ainda presa a tabus arcaicos e cada vez mais caótica, fria e insensível.

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