Cinema

Os filmes da semana 2

Caminhando nas Nuvens – O universo onírico do cineasta mexicano Alfonso Arau me encanta. Como água para chocolate é um dos meus filmes prediletos. Nunca tinha assistido Caminhando nas Nuvens, de 1995, mas minha irmã adquiriu o DVD recentemente. Protagonizado por Keanu Reeves, em começo de carreira – divido a filmografia deste ator em antes e depois de Matrix – nesse caso, antes, o filme é uma pequena fábula ambientada em um vinhedo de hispano americanos que, geograficamente situa-se em Sacramento mas metaforicamente, nas nuvens. Las Nuvens (The Clouds) é o nome da propriedade para onde Reeves, ou melhor, Paul Sotton, um ex-combatente da II Guerra, é levado por uma jovem que ele decide ajudar em um ato de cavalheirismo só possível de se imaginar em um filme ambientado nos anos 40, os trágicos e encantadores anos 40. Grávida e com medo da reação do pai conservador, a moça recebe ajuda do ex-soldado, que finge ser seu marido. Seria um romance típico hollywoodiano no melhor estilo moça conhece rapaz, eles fingem que são casados, mas depois se apaixonam de verdade… Mas, com o dedinho mágico de Alfonso Arau, a história mais simples ganha doses extras de charme e encanto. A fotografia dos filmes do diretor costumam ser um capítulo a parte, de tão linda, como se de fato caminhássemos num sonho, suspensos nas nuvens, nos braços de Morfeu. Antony Queen está no elenco, como o terno e sábio D. Pedro, patriarca do vinhedo. A cena em que ele e Keanu Reeves, literalmente um encontro de gerações dentro e fora das telas, bebem conhaque e cantam velhas guaranias mexicanas, é a mais bonita e comovente do filme. Nota nove e uma das melhores escolhas que fiz na semana.

Os esquecidos – Escolhi esse por causa da Julianne Moore, uma das atrizes que fazem parte dos meu quarteto fantástico (a saber, o meu quarteto fantástico do cinema contemporâneo é: Julianne Moore, Meryl Streep, Emma Thompson e Kate Winslet. O que essas moças fizerem, eu assisto). Pois bem, o filme vale por ela, única e exclusivamente. O roteiro poderia ter sido muito melhor desenvolvido, tem um bom gancho, que é a relação literalmente visceral que une mãe e filho, mas não se desenvolve e acaba apelando para soluções óbvias (algumas esdrúxulas). O que sustenta a produção, de 2004, é o talento da atriz, unicamente. Sem ela, o filme não valeria nem nota 5, mas ela consegue dar verossimilhança a seu personagem de tal forma que cava uma média 7 honrosa para a fraca produção. Julianne Moore vive uma editora de livros infantis chamada Kelly Paretta. Há um ano, ela perdeu o único filho num desastre aéreo (o bimotor que levaria o garoto e mais oito crianças para um acampamento de férias desapareceu sem deixar vestígios). Um dia, na sessão com o psiquiatra que a ajuda a lidar com a perda do filho, Kelly descobre que tanto o seu médico quanto o marido querem convence-la de que o menino nunca existiu, que ela nunca teve filho e que tudo não passou das alucinações de uma mente psicótica. A partir daí, a história de fato começa e percebemos que o filme é um thriller de suspense em que uma mãe desacreditada pelos vizinhos, pelo marido e até pelos pais das outras crianças desaparecidas, faz de tudo para provar que não está louca e que as crianças “esquecidas”, apagadas do mundo, de fato existiram um dia e que podem até não estar mortas de verdade… Não dá para contar mais nada porque tiraria a graça de quem não viu em descobrir afinal se esta mãe é de fato uma psicótica delirante ou se o vínculo que a une à sua cria é tão ancestral que é incapaz de sucumbir a qualquer pressão física, psicológica ou social. A pergunta é: instinto materno existe? Se existe, é capaz de superar toda dor e recusar o esquecimento? Se o filme responde, aí vai depender da interpretação de cada um, mas a despeito da fraqueza do roteiro, a ideia é essa.

Dúvida – Não vi no cinema na ocasião da estreia, em 2008, e confesso que também não dei muita atenção aos comentários sobre a produção. Entretida no zapeamento preguiçoso típico de quem está de férias, vi que iria passar na tv e decidi conferir. Na minha cabeça, era mais uma referência assim: um filme com a Meryl Streep que eu ainda não tinha visto. A primeira coisa que notei é que até quando abre mão da interpretação para se dedicar puramente à técnica de interpretar, essa mulher é maravilhosa. Neste filme ela está quase shakespereana, o que na minha cabeça significa que está correta, teatral na medida clássica e tradicional da palavra, mas ainda assim é Meryl Streep. O filme se sustenta unicamente por ela,  mas ao contrário da produção mais simples com a Julianne Moore, aí acima, Meryl sozinha não consegue levar o filme. Se não fosse a desconfiança obsessiva da freira interpretada por Streep não haveria história provavelmente, mas ainda assim, falta recheio. Diretora carrancuda e ditatorial de um colégio (segundo uma das minhas avós, as freiras do seu colégio eram iguaizinhas), a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep) desconfia que o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman, igualmente competente) abusou de um aluno, o único menino negro a ser admitido na escola desde a sua fundação. A freira persegue o padre para comprovar sua desconfiança, mas antes mesmo de ouvi-lo, sequer concede-lhe o benefício da dúvida. Ela acredita no que quer acreditar e pronto, não tem dúvida nenhuma. Aí eu me decepcionei. Pode ser que eu tenha entendido tudo errado, mas poxa, senti falta de um drama com contornos mais palpáveis, senti falta dessa questão do racismo da vizinhança, dos pais das outras crianças, da própria freira, ser melhor explorada no filme. Acabou ficando chato girar só em torno das desconfianças (certezas) da freira e de uma tentativa de defesa completamente ambígua do padre. A mãe do menino negro desconfia que o filho seja homossexual, o pai o surrou por essa mesma desconfiança, e o padre parece ser o único que pode ajudar o menino não a deixar de ser gay, mas a entender o que está acontecendo com ele. O garoto tem uns 13 anos no máximo e claro, está confuso com a própria sexualidade, sendo rejeitado por todos os lados, não apenas por ser negro, mas porque também é possivelmente gay. O padre, à primeira vista, parece querer ajudar não porque seja pedófilo, mas porque também é homossexual, mas isso tudo fica apenas na esfera da especulação. Provavelmente porque o diretor não quis entrar na seara da homossexualidade dentro da igreja. Daí, ficam pontas soltas demais, dúvidas demais que não se esclarecem  nunca e que matam um filme que poderia ser fantástico. Deveria se chamar Promessa (no sentido de não cumprida). Nota cinco, apesar de Meryl Streep.

Quem quer ser um milionário? – Pois é, o filme mais badalado dos últimos dois anos, pelo menos até Avatar, ganhador de oito oscars e coisa e tal, e eu não tinha visto ainda. Mais uma das minhas idiossincrasias (birra, usando um português menos metido a besta). Acho até que prometi ver nas férias do ano passado, mas não vi. Bom, agora eu já vi. É um bom filme? É sim, diria até que está um grau acima de bom, mas não alcança o patamar de muito bom e nem chega perto de excelente. É um nota oito, muito justa. Fica um pouco acima da média, cumpre uma proposta, seja lá qual for a proposta de Danny Boyle, mas não é maravilhoso, não chega nem perto dessa celeuma toda que armaram em torno dos favelados indianos, não merecia os oito oscars que levou. Quem quiser conhecer a Índia esquizofrênica que sintetiza a mistura de oriente e ocidente em meio a arranha-céus e falta de saneamento básico, da intolerância religiosa e do machismo atávico, leia Salman Rushdie. Se a ideia for a Índia exótica sob o ponto de vista do olhar estrangeiro e pop, Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson, é bem melhor, ao menos na minha modesta opinião nem um pouco especializada. Quem quer ser um milionário? é descaradamente fake. De fato, como disse um amigo meu,  supera só um pouco a visão de um diretor britânico tirado a moderninho que decide fazer uma mea culpa básica de ex colonizador com a Índia miserável e a Mumbai/Bombaim de mil nomes. Mas comigo não funcionou, lamento muito. Eu até gosto de outros filmes de Danny Boyle (Cova Rasa e Por uma vida menos ordinária), ainda não vi o igualmente badalado Transpointing, até tem o DVD aqui em casa, acho até que já prometi a mim mesma que vou ver e já devo ter dito isso aqui no blog…Mas, voltando a Slumdog Millionare, por mais que eu tenha tido muita boa vontade, não me convenceu. A nota oito é pela fofura dos guris que protagonizam o filme e pelo número de dança totalmente “Bollywood” do final.

Atrás das linhas inimigas – O título deste filme é um daqueles, tanto em inglês quanto na sua tradução, que acaba incorporado ao vocabulário ordinário do cotidiano. Mas o filme é só mais uma produção de guerra que exalta o belicismo e heroísmo auto exaltado dos norte-americanos. Vale para quem gosta desse tipo de produção. O filme é de 2001 e embora eu soubesse que era uma bomba (sem trocadilho, juro!) tinha um desejo meio mórbido de assistir. É protagonizado pelo veterano Gene Hackman, de quem eu gosto muito, e pelo bonitinho Owen Wilson, antes da fama adquirida em comédias românticas como Marley e Eu (que é um filme bem legalzinho). Mas fica muito aquém do talento “natural” que o ator demonstra por exemplo, ao encarnar os desajustados das produções do amigo Wes Anderson. Está muito bem,  por exemplo, fazendo uma dobradinha fantástica com Angelica Huston, no já citado Viagem a Darjeeling, e mereceu a dupla indicação ao oscar pelo roteiro (é co-autor) e pelo seu personagem, em Os excêntricos Tenembaums, também de 2001 e igualmente filmado ao lado de Gene Hackman. Acho que Atrás das linhas inimigas serve para mostrar que o ator tanto sabe fazer rir quanto é bom de briga, ou então, aproveitou a celeuma em torno dele quando foi indicado ao Oscar. A história, se é que tem outro mortal na terra, além de mim, que não tinha visto ainda, é a de um piloto de caça americano (Owen) abatido na Sérvia, durante a guerra civil na ex Iugoslávia, quando fazia um voo de reconhecimento e acabou fotografando coisas que não devia sequer ter visto (covas clandestinas onde o governo enterrava a população massacrada na guerra). Pois bem, o piloto, que vivia às turras com o seu comandante casca-grossa (Gene Hackman) precisará sobreviver na casa do inimigo, literalmente, enquanto espera o socorro chegar. E quem é que vai resgatar o rapaz, numa relação meio freudiana de pai/filho, amor/ódio, que rege mais esta exaltação das forças armadas e dos fuzileiros dos EUA, sem contar com a exaltação da testosterona? Pois é, o comandante turrão, que move céus e terras para trazer de volta o piloto, antes que ele seja morto pelos sérvios. A parte mais interessante do filme é logo no comecinho, quando num momento de folga, os pilotos jogam futebol americano e a bola cai no mar (eles estão em um porta-aviões no Pacífico) e Owen, da amurada do navio, grita a plenos pulmões: “I´m Sorry, Wilson!”, numa referência a Tom Hanks, em Náufrago. Pode ainda soar como um pedido de desculpas a si mesmo por permitir-se filmar algo tão sem graça.

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