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Resenha: Orgulho e Preconceito

A obra-prima de Jane Austen, com toda certeza

Concordo em gênero, número e grau quando a crítica especializada diz que Orgulho e Preconceito é a obra-prima de Jane Austen. O fato dela ter concluído o livro antes dos 21 anos então, torna-o, aos meus olhos, mais que um prodígio. Do pouco que sei sobre a autora, do pouco que já li de suas obras, sem dúvida, este é o meu favorito. Elisabeth Bennet já entrou para o rol das minhas heroínas preferidas. E eu simpatizei com Fitzwilliam Darcy desde a sua primeira aparição no romance. Secretamente, ao longo das páginas, torci por ele. Escaldada com Willoughby, de Razão e Sensibilidade, não comprei nem por um minuto as boas intenções de Wickham.

Deixando de lado as minhas paixões declaradas pelo livro, Orgulho e Preconceito me parece a obra mais ousada de Jane Austen, ao menos comparando com as outras leituras que fiz na mesma sequência: Mansfield Park e o já citado Razão e Sensibilidade.  O senso de humor da autora também está muito mais apurado neste romance do que nos outros dois, que são mais dramáticos. A ironia é deliciosa. O capítulo de abertura, com o diálogo entre o Sr. e Sra. Bennet é de um primor literário, de um sarcasmo, de um doce veneno que nos diverte e põe para refletir. Até transcrevi um trecho aqui no blog e já “favoritei” no rol dos meus diálogos literários favoritos.

O “duelo” entre Elisabeth e Darcy durante o baile na casa de Bingley. Uma das cenas mais interessantes do filme e sem dúvida, outro diálogo inesquecível no livro

O universo do livro é o mesmo da Inglaterra rural e das caçadoras de marido que consagrou Austen como hábil cronista do cotidiano de seu tempo. Mas, neste livro  em especial, a ousadia dela foi mais longe do que se esperaria de uma jovem casta, filha de um pastor anglicano e nascida no final do século XVIII. Jane fala com desenvoltura do amor, do desejo reprimido, da energia feminina, da sensualidade aprisionada em espartilhos que mal deixavam as damas respirarem. Por baixo da maquiagem e das incontáveis peças de roupa que impediam o contato mais direto de homens e mulheres (e aqui contato direto é um simples abraço ou aperto de mão sem a luva no meio), ela explode em desejo. E ainda, sem trocar um único beijo, fascinante!

A ”queda” e a reabilitação de Lídia, uma das irmãs mais novas de Elisabeth, é de uma sutileza narrativa impressionante. Lembrei de minha avó, nascida no Brasil rural de 1902 e ainda cheia de tabus para tocar em assuntos como virgindade. Ela era do tipo que dizia, corando, que “uma moça se perdia” ao experimentar o amor antes do casamento. E o tom do livro é exatamente esse das confidencias, mas é também revolucionário, porque ao mostrar o que se escondia na alma de moças como ela mesma, Jane Austen nos brinda com um rico panorama de sentimentos que iam da esfuziante alegria juvenil de Elisabeth, à doçura de Jane. Passando pela aflição de Darcy, um orgulhoso e aristocrático enamorado; chegando até a cara-de-pau de Wickham, a frivolidade de Lídia, a falta de senso de ridículo da Sra Bennet; a indolência, que para mim beira mais a indiferença, do Sr. Bennet; a ingenuidade do Sr. Bingley, a malícia maldosa das irmãs de Bingley.

Os personagens seguram a história, pouco rica em descrições de paisagens, pois Jane Austen é a autora que fala de dentro para fora e não de fora para dentro. Não é o lugar que molda as pessoas, mas seus conflitos psicológicos, seus embates entre fé e razão. A luta não se dá contra a natureza selvagem, mas contra a natureza humana e as convenções que aprisionam e frustram. A redenção, – oh romântica Jane -, se dá pelo amor verdadeiro, um amor capaz de vencer o orgulho da casta e o preconceito do julgamento precipitado.

Foto de divulgação da versão de 2005 para Orgulho e Preconceito. Na obra original de Austen seria impossível uma cena em que Darcy deitasse com tanta desenvoltura no colo de Lizzy Bennet

O filme – Pouco depois de ter concluído a leitura do livro, assisti ao filme, produção de 2005, franco britânica, dirigida por Joe Wright e protagonizada por Keira Knighttley. Confesso que fiquei curiosa em assistir a série de 1995, da tv inglesa, com Colin Firth (um dos atores britânicos de quem gosto muito) vivendo o Sr. Darcy. Engraçado que nunca vi essa série, mas ao saber que Firth, um ator shakespereano clássico, já tinha vivido o papel, não pude deixar de imaginar o Sr. Darcy na pele dele. Combinam com perfeição!

Bom, sobre o filme de 2005: tem bela fotografia, um elenco competente, com alguns atores que se destacam, mas a adaptação, embora busque uma primorosa semelhança com o romance, precisa dar muitos saltos na narrativa. O livro é longo, difícil de comprimi-lo em duas horas de produção. Daí, creio que a série de 1995 seja mais feliz, porque o formato minissérie, em capítulos, tem maiores chances de preservar a riqueza da história de Austen. Pretendo cavar por aí para assistir.

Comparando com a adaptação de Emma Thompson e Ang Lee para Razão e Sensibilidade, por exemplo, Orgulho e Preconceito fica aquém. Mas ainda assim, para quem não conhece o universo da escritora, é uma bela introdução e um filme que vale a pena ser visto.

Cena de O Clube de Leitura de Jane Austen

P.S.: Dia desses, numa das minhas zapeadas pelos canais fechados, esbarrei num filme chamado O clube de leitura de Jane Austen. Achei lindo! O filme é uma produção norte-americana de 2007, dirigida por Robert Swicord, e conta a história de um grupo de mulheres que passam por diversos problemas em suas vidas pessoais, e para se distrair, decidem fundar um clube de leitura. Começam as reuniões com as obras da escritora inglesa. Na medida em que se reúnem para debater as motivações dos personagens de Austen,  encontram as respostas para seus questionamentos pessoais. Recomendo para quem é amante de literatura.

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Mais leituras de Jane Austen:

>>Resenha: Razão e Sensibilidade

>>Resenha: Mansfield Park

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20 thoughts on “Resenha: Orgulho e Preconceito”

  1. Adoro a insolência de Elisabeth e coragem ao desafiar a sociedade de há dois séculos – não muito diferente da nossa,não é verdade?

  2. Li o livro e adorei. Cada parte que se referia inteiramente ao Sr. Darcy e Lizzy eram as minhas favoritas. Ao meu ver Sir. Darcy era um homem reservado e que só se dirigia alguém quando lhe convinha, e por ser desta forma muitos que não o conheciam incluindo Elizabeth o julgava orgulhoso. Porém o mesmo era sensato, inteligente, generoso e por não expressar tais qualidades era vítima de preconceito. Sta Bennet que no começo o detestava por sua postura aos poucos viu -se injusta
    ( orgulhosa e preconceituosa) principalmente depois da declaração de amor feita pelo dono de Pemberly a ela e aonde houve toda a revira volta na história, que para mim foi o momento mais emocionante. Não posso deixar de apontar outra personagem que me chamou a atenção foi a espevitada Lidya, que não podia ver um oficial, além da sra Bennet que era ¨alcoviteira¨ , interesseira e antipática; e do sr. Collins que na minha humilde opinião era um puxa saco de mão cheia. Mas com tudo aaaaaammmmeeeiii o livro.

  3. Belíssima obra. Uso-a para mostrar para meus alunos a passagem de uma vida rural para uma vida urbana e a chegada da idade moderna. Curioso como as falas registram o surgimento de um mulher mais independente que não se apega ao afazeres domésticos e consegue impor seus pensamentos diante de homens tão poderosos como o Sr. Darcy.

    1. Oi Kathlen, obrigada pelo comentário, mas só lembrando que esta resenha é sobre o livro, só usei as fotos do filme para ilustrar. Recomendo que leia o livro, porque é infinitamente superior ao filme. Abs!

  4. Realmente, o livro é llindo, a história é primorosa!

    O filme de 2005 é bom, mas a série de 1995 é muito melhor. Colin Firth teve um desempenho espetacular, lindíssimo!

    Beijos! Amei seu blog! Vou acompanhar semmmmmpre!!!

  5. SIMPLESMENTE AMOOOO ORGLHO E PRECONCEITO E SO ASSISTI O FILME , TO LOUCA PELO LIVRO QUE SEMPRE É MAIS LEGAL E NÃO ENCONTRO ¬¬ ALGUEM ME DA UMA DICA DE LIVRARIA MORO EM NATAL RN

  6. Oi Raquel,
    Sim, de fato fiquei muito curiosa para ver o filme de 1995. E vc tem razão, algumas adaptações cinematográficas conseguem dar conta do recado direitinho em duas horas de projeção, outras, infelizmente, ficam muito aquém e acabam mutilando a obra original. Abraços!

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