Bala no Alvo, Crônicas

Aberta a temporada de desabamentos

“Abril, águas mil!”

Ainda lembro de minha avó recitando esse ditado pela casa, como se fosse o oráculo de Delphos, enquanto cobria todos os espelhos. Tinha medo de raios e trovões – “valei-me minha Santa Bárbara” – e acreditava que suas orações recobriam a casa como a capa da invisibilidade do Harry Potter. Minha mãe herdou o mesmo princípio, mas da minha geração para baixo, a fé tem se diluído na realidade nua e crua dos noticiários.

Salvador, como sempre, despreparada para a chuva. Olho da janela e vejo a obra da via expressa, o viaduto que vai cortar a Rótula do Abacaxi e conduzir os bens nascidos ao Horto Bela Vista, ladeira do Cabula acima. Por uma fração de segundo penso, porque gastar tanto dinheiro fazendo mais viadutos enquanto as encostas da Barros Reis ameaçam dissolver-se e arrastar para o meio da avenida as casas, móveis e os ossos dos mortos que descansam (em paz?!) no cemitério da Quinta dos Lázaros?

Daí me lembro que o progresso precisa, ora essa andreia, “progredir”, o que mais? Viadutos, mega complexos #moretrabalhegozeaqui, carros e mais carros, engarrafamentos… (é o preço da entrada no terceiro milênio, baby). O mercado imobiliário baiano está em franca expansão estampa a manchete do jornal. Bilhões investidos no metrô que não anda e já desandou ainda na planta, outros bilhões no viaduto… Infelizmente, senhoras e senhores, a prefeitura é pobre, não tem como investir nas obras em áreas de risco, o subúrbio vocês bem sabem, fica lá longe, ninguém está olhando mesmo; também faltam vassouras (vá lá, tratores) para limpar os canais. E o povo, ora essa, o povo é porco mesmo, mal-educado, joga lixo nas encostas, entope os canais. Sujou, agora aguente! Além disso, quem mora em área de risco é pobre, uns mais outros menos, que diferença faz? Pois é, eugenia social.

E o governo do estado? A chuva é de responsabilidade do município. É que o céu de onde despenca a ira diluviana foi loteado. Tantos quilômetros para lá é da alçada da prefeitura, tantos para cá, o estado vai liberar uma graninha para as lonas pretas, mas veja bem, não é nossa obrigação. Além disso (com quantos além dissos se faz um político?) amparar uma meia dúzia de encostas não garante eleição, garante? O negócio é criar projetos megalomaníacos, fazer grandes promessas, é o progresso, seremos modernos, mais até, seremos ultra pós-modernos. Vamos ligar Salvador a Itaparica por uma ponte, vamos ligar seis quilômetros por metrô, fará uma diferença enorme para a cidade inteira, seis quilômetros de metrô é o suficiente para dizer que não somos atrasados, Salvador tem (terá?)  metrô ora essa, e de superfície, que não somos tatu para andar embaixo da terra. Um conhecido me disse que caminha 10 quilômetros todo dia para se exercitar. Dá quatro voltas no Dique: 2,5 km por volta = 10km.

Quanto maior o projeto, mais brilham os olhinhos da arraia miúda, de admiração; e da arraia graúda, de cobiça (até ouço o tilintar das moedinhas). E o povo? Aprende natação no canal que transbordou e surfa na enxurrada. Para descer o diabo ajuda. Aquilo ali que passou foi minha geladeira? Não, foi o corpo do vizinho, afogou-se, coitado…

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2 thoughts on “Aberta a temporada de desabamentos”

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