Datas, Geral, História

461 anos de Salvador: sobre o mestre Luís Dias

Nesta segunda-feira, Salvador comemora 461 anos de fundação. Ano passado, fiz alguns posts falando do aniversário da cidade e, com base em documentos históricos, contei a origem de Salvador, a sua importância para o processo de colonização do Brasil e também escrevi sobre Thomé de Souza, o famoso primeiro governador geral. Este ano, não pretendia voltar ao tema, até porque, os posts antigos continuam valendo como material de pesquisa (a data e as circunstâncias da fundação da primeira capital do Brasil não mudarão a menos que os pesquisadores descubram novos fatos e documentos que alterem o que vem sendo dito e ensinado nos últimos séculos). Mas, arrumando alguns livros aqui em casa, nesta manhã, bati o olho numa pequena brochura que recebi de presente alguns anos atrás, fazendo uma reportagem histórica justamente sobre a origem da capital baiana. Trata-se de A propósito de Luís Dias, mestre das obras da cidade do Salvador e decano dos arquitetos brasileiros, escrito por Américo Simas Filho em 1978 e reeditado (com autorização da família do autor) em 1998, pela Fundação Gregório de Mattos (um órgão da prefeitura). Ao ver esse livrinho, lembrei que seria interessante, aproveitando o aniversário da cidade, trazer aqui para o blog um mini perfil de Luís Dias. Lógico que, quem levou o crédito pela construção da cidade foi o capitão geral (Thomé de Souza), mas a importância dele ao executar o projeto merece ser lembrada.

Aos que gostam de história, apresento-lhes o mestre de obras que tornou possível a construção da cidade fortaleza. E, logo no final do post, os links para os textos que contam a origem da cidade:

Luís Dias – o coadjuvante

O mapa é de 1631 e mostra o núcleo original do povoamento de Salvador

Não é fácil encontrar muitas fontes que citem os coadjuvantes da história. Se o próprio astro principal da fundação de Salvador, Thomé de Souza, tem fatos misteriosos e nebulosos sobre sua vida, que dirá o mestre de obras que construiu a cidade. Descobrir quem foi e o que fazia Luís Dias antes de atravessar o Atlântico com as plantas da cidade embaixo do braço é tarefa árdua. O documento escrito por Américo Simas é uma das poucas referências a ele e foi todo baseado na análise de cartas antigas (trocadas entre Luís Dias e o rei D. João III e entre o mestre de obras e seu, digamos, chefe, o mestre do reino Miguel de Arruda) e também na leitura de compêndios da história colonial, principalmente a de Souza Viterbo (Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Constructores Portuguezes ou a Serviço de Portugal). Como vocês devem ter notado pela grafia de algumas palavras, o dicionário de Viterbo é documento antigo, do tempo em que se escrevia farmácia com ph. Sim, caro leitor com menos de 20 anos, nossa língua sofreu transformações inúmeras em cinco séculos de colonização.

No seu livreto sobre Luís Dias, Américo Simas não tem dados biográficos precisos sobre o mestre de obras. Não diz quando e onde nasceu, quem eram seus pais, se tinha alguma particularidade da personalidade, algum caso pitoresco em sua vida. Provavelmente porque, até ser nomeado para acompanhar Thomé de Souza, ele era só mais um entre os tantos cavalheiros e funcionários da coroa portuguesa. Se fosse um artista de tv, seria estrela do segundo escalão. Mas então por que o interesse numa figura tão apagada? Ora pois, como diriam os gajos portugueses, porque o homem executou uma das obras de engenharia mais audaciosas do século XVI, ou vocês pensam que construir Salvador foi tão fácil quanto é agora erguer um arranha-céu de 50 andares?

Luís Dias, embora não estivesse necessariamente nas colunas sociais do reino luso, não era um zé ninguém sem experiência quando desembarcou pelos lados de cá. Embora não fosse famoso, não chegava necessariamente a ser um estagiário (com todo respeito aos estagiários).

Em 13 de novembro de 1524, o nosso personagem, que a essa altura da vida, ainda bem jovem, morava em Cafin, cidade portuguesa, foi nomeado pelo rei como mestre de obras daquela localidade. Quem me contou isso foi o livrinho do América Simas. Existia uma relação entre Luís Dias e Miguel de Arruda, esse sim, bem mais conhecido (ao menos além mar) era o mestre de obras e fortalezas do reino de Portugal. Projetista de D. João III, constriu fortalezas em Ceuta, projetou o mosteiro da cidade de Batalha (a mulher de Luís Dias, Catarina, era desta cidade). Ou seja, o talento do jovem Luís e a influência de Miguel de Arruda, que parecia confiar no rapaz, recomendavam-no ao rei. Ele não deve ter feito um papel ruim no cargo, pois 25 anos depois, recebeu de D. João III a honra e o desafio de construir Salvador sob as ordens do capitão geral (os governadores gerais eram assim chamados) Thomé de Souza.

Sua nomeação para o cargo de mestre de obras da cidade de Salvador aconteceu em 14 de janeiro de 1549 e em 29 de março do mesmo ano, desembarcou na Vila Velha do Pereira (Porto da Barra). O salário anual era de 72 mil réis. Em Portugal, a mulher de Luís, para não ficar desamparada enquanto o marido aventurava-se no novo mundo, receberia duas carradas de trigo por ano (o pão estava garantido) e além disso, sob os cuidados de um sobrinho, aprendiz dele no ofício de mestre de obras, ficariam outros 36 mil réis, para as despezas da família.

O mais interessante é que Salvador foi uma cidade projetada à distância. Miguel de Arruda, o mestre de obras do reino, era o chefe de Luís Dias, que por sua vez, foi nomeado um tipo de chefe de uma sucursal do reino (Salvador). E o objetivo para a construção da cidade era esse: Salvador seria o braço do império português nas Américas, o centro da administração colonial, posto que manteve por mais de 200 anos.

Miguel de Arruda fez esboços da cidade fortaleza, desenhou uma planta para Salvador, sem nunca ter vindo aqui, e Luís Dias teria de adaptar o projeto às condições encontradas para erguer a cidade. E é aí que o nosso coadjuvante mostra que tinha capacidade para segurar o interesse da audiência nesta epopeia colonizatória. O primeiro desafio foi domar a natureza. Thomé de Souza escolheu a encosta de uma montanha para construir a cidade. Era ótimo do ponto de vista militar (defesa) e tinha o brinde de oferecer uma vista maravilhosa para a baía de Todos os Santos. O problema é que a encosta era teimosa, desabava, rolava pedra.

Mapa geográfico da Baía de Todos os Santos e recôncavo baiano

Luís Dias quebrava a cabeça para assentar muros, baluartes, torres de vigia e traçar ruas seguindo a sinuosidade da montanha e claro, rezando para Nossa Senhora da Conceição não deixar a chuva levar seu trabalho montanha abaixo. A santa devia andar meio ocupada, porque numa carta de 13 de julho de 1551, escrita de Luís para Miguel de Arruda, ele, a título de prestar contas do que já tinha sido feito na cidade, revela que houve um desabamento de encosta devido “às injúrias do tempo” (a chuva que castiga Salvador entre março e maio e que até hoje derruba casas e causa transtornos à população).

As cartas de Luís Dias são raríssimas, porque fora essa correspondência (são duas longas cartas apenas) e alguns relatos esparsos de Thomé de Souza e dos jesuítas, não existem muitos documentos que contem a história da fundação da cidade. Existem sim, muitos relatos posteriores, como os de Gabriel Soares de Souza, que rememora os fatos com base no que ouviu de pessoas do período, mas documentos precisos, não existem. Historiar um fato é trabalho de arqueólogo minha gente, os pesquisadores passam a vida armando quebra-cabeças, confrontando fontes, sendo frustrados pela falta de elementos e tecendo teorias muitas vezes confirmadas ou negadas por colegas.

As cartas, além de falar das dificuldades da obra, também trazem relatos da pobreza da população nos primeiros tempos, da falta de conforto, a cidade era toda erguida em palha e madeira (até o palácio do governador), da solidão porque muitos navios que deixaram Portugal naufragavam antes de chegar aqui. E claro, ele também cobrava o salário atrasado, porque desde aquela época era hábito do governo demorar meses, até mais de um ano, para quitar dívidas de obras públicas.

Para a arquitetura, as cartas de Luís (Luyz Dyaz, como ele mesmo grafava seu nome) representam uma troca riquissíma de informações entre ele e Miguel de Arruda. O mestre daqui escrevia ao seu chefe pedindo conselhos, os dois trocavam impressões sobre as dificuldades da obra, Miguel de Arruda mandava ainda novas plantas e amostras de lá para cá e Luís daqui para lá, mostrando os avanços na construção. O medo de extraviar no caminho com a incerteza da navegação era grande, mas corria-se o risco na falta de internet e e-mail.

Em 1553, depois de deixar a cidade pronta e de não aguentar mais passar privação na colônia. Luís Dias voltou para Portugal e para a mulher. Recebeu honras do rei, o pagamento atrasado e as carradas de trigo que por três anos garantiram o sustento de dona Catarina foram incorporadas como uma espécie de pensão vitalícia para o casal.

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*Fontes de pesquisa para este post:

1 – Livro: A propósito de Luís Dias, mestre das obras da cidade do Salvador e decano dos arquitetos brasileiros, Américo Simas Filho, 1978, reedição em 1998 pela Fundação Gregório de Mattos

2 – Wikipédia (foi de onde tirei o mapa e planta de Salvador que ilustram o post)

*O texto é meu, sem copiar de ninguém. Se for usar, cite minha autoria. Não copie!


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