Baú de Histórias, Geral

Trabalho x amamentação, mais um desafio de ser mãe

Amamentar é mais que o ato de alimentar um filho. Significa dar carinho, mesmo que à distância

Quando engravidei, estava no penúltimo semestre da faculdade de jornalismo e estagiava no departamento de comunicação de uma empresa. Tive uma gestação super saudável e não era transtorno assistir aula pela manhã, estagiar no turno da tarde e ainda aproveitar o fim do dia para circular pelas lojas do centro de Salvador, em busca dos itens do enxoval do bebê. O parto aconteceria no final do semestre e, no período seguinte, só precisaria escrever o TCC (trabalho de conclusão de curso). No máximo, me reunir com o orientador umas duas vezes por semana, apenas para ir ajustando o projeto, mas sem necessidade de ir à faculdade todos os dias. Já o estágio, ainda duraria um ano e meio. Administrar trabalho e maternidade é que seria o meu desafio. Mantive as atividades no estágio até o nono mês. Não sentia desconforto com a gravidez, engordei apenas 10 quilos, a pressão arterial mantinha-se em 10.6, dormia bem, fazia o pré-natal e comia direito, apesar da rotina de trabalhar e estudar. Faltando pouco mais de duas semanas para o prazo do bebê nascer, pedi afastamento do estágio. Ouvi da minha chefe que eu poderia retornar em dois meses, se tivesse interesse em continuar. Mais tempo que isso, ela não conseguiria segurar a vaga, pois seria obrigada a contratar outra estagiária. Não pensei duas vezes, disse a ela que em dois meses estaria de volta. Ela me questionou o que eu faria para dar conta do bebê e da amamentação e eu respondi que daria um jeito, já que, sem necessidade de ir à faculdade, por causa do TCC, teria a manhã e as noites livres, deixando as tardes para o estágio. Não podia perder aquela oportunidade, poucos estudantes da minha turma tinham tido a sorte de arrumar estágio durante o curso e menos ainda com possibilidades reais de contratação. Era um dilema: trabalho x amamentação, com toda certeza, mas com jogo de cintura, daria certo, teria de dar!

Operação ordenha – Meu bebê nasceu e eu teria dois meses para cuidar dele e ir tocando meu TCC. O menininho, além de um fofura (e que mãe não acha o seu bebê o mais lindo do mundo) era um esfomeado, mamava muito mais do que a clássica fórmula “de três em três horas”. Amamentar era uma delícia. Rapidinho, perdi os dez quilos ganhos com a gravidez, mais rápido ainda me recuperei. Era inexperiente (tinha 23 anos) mas fazia questão de fazer tudo para o bebê. Minha mãe era a professora para assuntos de puericultura e ficava na supervisão das minhas primeiras barbeiragens, mas me deixava tentar, ela sabia que eu tinha de aprender a lidar com mais esse papel social, o de ser mãe. Após os dois meses de “licença” (há 12 anos ainda não existia leis de estágio e muito menos férias para estagiários), era hora de voltar para o trabalho. Seria só um turno, mas não minto para vocês, deu um apertinho no coração. Eu, porém, sabia que se perdesse aquela chance, poderia me arrepender um dia e não tem peso pior para um filho carregar do que o arrependimento de sua mãe. Então, arregacei as mangas e coloquei a “operação ordenha” em prática. Fui à farmácia, comprei uma bomba de tirar leite materno e, diariamente, antes de ir trabalhar, eu me “ordenhava” e deixava a quantidade de leite que o bebê iria precisar no tempo em que estivesse fora. Nos turnos em que eu passava em casa, ele mamava no seio. Quando eu não estava, tomava o meu leite, mas na mamadeira. O processo era simples, tirava com a bomba, armazenava nas mamadeiras e colocava na geladeira, onde o leite materno dura até 24 horas, se for cuidadosamente guardado em recipiente esterilizado. No freezer, dura até 15 dias.

Cuidados de higiene são essenciais na operação ordenha. O seio tem de estar limpo, assim como as suas mãos. Os equipamentos: bombas, copinhos, mamadeiras, todos esterilizados, e os cartuchos dos equipamentos, de qualquer boa marca que você escolha, tem todo o passo a passo do que fazer. Alguns pediatras recomendam que o leite não seja dado ao bebê na mamadeira, ao invés disso, usa-se copinho e colherinha, daquelas bem pequenas, para não machucar a boca do bebê, para não ter risco dele se acostumar com a mamadeira e recusar o seio. Não tive esse problema, meu filho mamava no peito e na mamadeira com a mesma empolgação.

Olha aí uma bomba manual parecida com a que eu usava para garantir o leitinho do filhote

Ele mamou até os seis meses, exclusivamente leite materno. Dos seis meses até os dois anos, mantive a amamentação em paralelo com outros alimentos introduzidos na dieta dele, de acordo com as orientações do pediatra. No seu aniversário de dois anos, entramos em acordo: ele já era um “rapazinho” e não precisava mais do peitinho da mamãe. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), amamentar até os dois anos garante o fortalecimento do sistema imunológico da criança. Já o Ministério da Saúde recomenda que no mínimo o bebê mame seis meses apenas no seio, sem consumir outros alimentos, nem água ele precisa, porque o leite tem todos os nutrientes. Após os dois anos, aí já é a psicologia que não recomenda a manutenção da amamentação, porque nessa fase, é hora do bebê começar a compreender que ele e a mãe não são uma entidade única e indivisível. Geralmente, é a idade em que as crianças vão para a creche ou escola e é quando se esboça a construção da identidade, que vai ganhar muito mais força a partir dos quatro, cinco anos (idade da pré-escola e do início do domínio da linguagem).

Com o coração pequenininho – Não digo para vocês que é fácil se afastar de uma coisinha tão pequena e frágil como um filho recém-nascido e que não existiu nenhum sentimento de culpa cada vez que eu batia a porta para ir estagiar. Existiu, lógico, havia um lado meu que queria sim ficar em casa, “lambendo a cria”. Se não tivesse recebido ajuda da minha mãe, provavelmente não conseguiria, mas acredito que o fato de eu ter me preparado para amamentar o bebê à distância, deixando as mamadeiras que iriam garantir o meu leite para ele, ajudaram em muito ao meu processo de adaptação à nova realidade. E a dele também. Me orgulho muito de não ter aberto mão de nada na vida por conta do meu filho, que é uma soma na minha vida e não um empecilho. Também me orgulho de, durante os dois anos em que ele mamou no peito quando eu chegava do trabalho, termos estreitado laços de carinho e cumplicidade que duram até hoje. A ordenha só durou os seis primeiros meses, depois dessa fase de leite materno exclusivo, o ato de mamar virou um momento de afeto entre nós dois, misturado com a minha crença de que a OMS tem razão.

Cartaz do Ministério da Saúde, em uma das campanhas anuais do órgão, de incentivo ao aleitamento materno. A modelo é a atriz Dira Paes, na foto com seu bebê e sua mãe, para mostrar a importância do apoio da família às mulheres que amamentam

Ser mãe não é fácil, mas é bem menos difícil do que tentam nos fazer crer. Lógico que nem todas as mães terão experiências parecidas, tudo o que está dito acima foi o caminho que eu encontrei, sozinha ou com ajuda, para enfrentar o desafio trabalho x maternidade. Mais ainda, o desafio amamentação x trabalho. Quis registrar aqui a minha experiência, porque dia desses estava de papo com uma amiga que enfrentará este mesmo desafio daqui há alguns meses, quando o bebê dela nascer. Mais do que uma fórmula mágica para lidar com a questão, é preciso haver serenidade e, principalmente, sinceridade nas decisões. Se abrir mão da carreira para ser mãe for sua prioridade, faça isso sem culpas e sem arrependimentos. Do contrário, vale a pena tentar conciliar, pois abrir mão da nossa vida em prol de alguém que amamos (mesmo que esse alguém seja um filho) é um passo grande em direção à frustração. Sacrifícios extremos só são bonitos e dão certo nos folhetins.

A lei brasileira garante licença maternidade que varia de quatro a seis meses (nem todos os setores adotaram ainda a licença de seis meses), se for possível para você cumprir todos os meses da licença, cumpra, mas se não for, monte uma boa logística para garantir sua presença ao lado do bebê ao menos em um turno e a amamentação, principalmente. Tenha em mente que mais do que alimento, leite materno é carinho. No caso da relação mãe e filho, também aplica-se a máxima de que o que vale mais é a qualidade do tempo que passamos com nossos bebês. Seu filho não vai lembrar de todas as horas do dia que passa com você, mas vai lembrar de cada um daqueles momentos, por mais simples que sejam, que foram especiais de alguma forma.

Fiz uma opção da qual não me arrependo e posso atestar dia a dia, na medida em que vejo meu filho crescer, que este foi o melhor caminho para nós dois. Meu orgulho maior é ver a autonomia e a autoconfiança do meu filhote, um pré-adolescente realmente fantástico!

Abaixo, listei alguns sites e marcas de bombas de tirar leite, para o caso de alguma nova mamãe precisar:

Serviço:

Bomba elétrica Qualyleite/Medela (importada)
Site| www.qualyleite.com
E-commerce| www.mamizem.com
Sugestão de preços: R$ 85,00 por mês para aluguel ou R$ 400,00 para compra

Bomba Tira Leite Manual ISIS
com Sistema VIA Philips/Avent
site: www.lojadosbebes.com
Sugestão de preços: (em euros) 68.60

Bomba de Tirar Leite Manual – Copo de Leite – Promillus
Site: www.toymania.com.br
Sugestão de preço: R$ 159,90

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2 thoughts on “Trabalho x amamentação, mais um desafio de ser mãe”

  1. Amei, parabéns pela conquista.
    Espero poder ser vitoriosa na minha também.
    Só em ler sua história me deixou motivada, obrigada por ter escrito me ajudou muito.

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