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Resenha: A inacreditável epopeia atlântica do português que nos pariu

Neste sábado, o Caderno 2+ de A TARDE publica  a resenha que fiz para o livro O Português que nos pariu, de Angela Dutra de Menezes. Como fiz anteriormente com as outras resenhas escritas para o veículo impresso, reproduzo a íntegra do texto no blog:

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A inacreditável epopeia atlântica do português que nos pariu

Andreia Santana

Cabral, o “descobridor”

Com quantos portugueses se faz um colonizador? A pergunta não é nenhuma pegadinha e algumas respostas estão no livro O português que nos pariu, da jornalista Angela Dutra de Menezes, relançamento recente da editora Record. Com este título sugestivo, a obra, considerada best-seller deste e do outro lado do Atlântico – mais de 50 mil cópias vendidas –, não é nenhum compêndio de história geral, mas ajuda muito aos que tentam entender afinal de contas, de onde foi que nós, brasileiros, viemos.

Para começar a responder essa pergunta quase filosófica, a autora, dona de um texto extremamente irônico, inteligente e bem humorado, mergulha fundo na história de Portugal e desvenda essa criatura coberta de panos, com barba de dois meses e precisando de um banho urgente após longa travessia marítima, que desembarcou de navio na costa de Porto Seguro em 1500. Já vai logo jogando por terra a crença ainda imperante sobre a “alvura” dos descendentes de Cabral.

Português legítimo, cozido no caldo da evolução, é mais misturado que mingau de cremogema. E é assim mesmo, com uma receita culinária, que Angela Dutra de Menezes abre o livro no hilário capítulo I, chamado “Receita de Português”. E nessa mistura tem de tudo: de homem pré-histórico a índio lusitano, de celtas – sim, celtas – a romanos, de bárbaros (toda a cepa de godos que vocês puderem imaginar) a mouros e árabes, de judeus a cristãos. Uma belezura de miscigenação, para fazer qualquer membro da elite quatrocentona descer do salto.

A clássica representação da Primeira Missa, em Porto Seguro
Caravela, a embarcação

Depois da autópsia no sangue do colonizador, Angela avança mostrando os feitos políticos e marítimos dos portugueses. E não foi à toa que Fernando Pessoa “poetou” o inesquecível verso “navegar é preciso”. Precisava mesmo. Primeiro por falta de espaço – Portugal é minúsculo, gente !–; e, depois, porque o povo da terrinha além-mar tomou gosto por esse negócio de colonizar. Negócio altamente lucrativo, diga-se de passagem.

Mas, antes de lançar-se mar adentro, os lusos tiveram uma trabalheira danada para botar ordem no próprio quintal. É nessa parte que, sem a menor vergonha, a autora invade palácios, revela segredos de alcova e desfaz fio a fio a teia de duques, príncipes e casamentos arranjados que resultou no primeiro país europeu a conquistar o status de nação.

Bisneta de portugueses – grande coisa, diria você leitor, todos somos de uma forma ou de outra –, Angela Dutra de Menezes não se esquiva de um certo orgulho no melhor estilo Policarpo Quaresma: “porque me ufano de vovô Joaquim”. E o livro, em alguns trechos, descamba a tecer loas aos feitos heróicos da trupe colonizadora. Mas, justiça seja feita, nem Camões conseguiu empolgar tanto ao narrar a epopeia atlântica no século XVI.

O texto de Angela nos transporta ao período das grandes navegações e, embora seu livro não tenha a menor pretensão de ser didático, cumpre papel melhor de nos ensinar história do que os volumes maçantes que nos empurravam goela abaixo na escola. Inclusive, o livrinho de pouco mais de 200 páginas, desses de ler “numa sentada”, vem sendo adotado por escolas de ensino médio e faculdades desde a primeira edição, lançada nas comemorações dos 500 anos do “achamento” ou “tomamento de posse” ou “invasão” do Brasil, em 2000.

D. Henrique, criador da famosa Escola de Sagres, entidade que deu início ao ciclo das grandes navegações portuguesas

Que a colonização tem seus revezes e resultou em muita coisa negativa – escravidão e genocídio indígena e negro, além da corrupção “atávica” no Brasil, liderando o ranking -, a autora não nega. O mérito da sua obra, porém, é justamente mostrar a origem desses males ao traçar a radiografia do dominador. Mas, como tudo tem dois lados e até mais de dois, a depender do ângulo por onde se olha, é inegável que a raça que nos “achou” é feita de homens – e mulheres, ora, pois! – aguerridos, persistentes e audaciosos.

Não falta ainda uma pitada de doideira. Desde reis e rainhas que, literalmente, perderam a cabeça, o juízo e a coroa, até os visionários que, contra todas as superstições do homem medieval, inflaram velas e desbravaram oceanos. Para quem tem necessidade quase vital de descobrir a origem das coisas, a leitura é perfeita.

Angela nos faz embarcar em uma viagem de cinco séculos no tempo, mas sem o risco de ficarmos “mareados” nas caravelas.

Ficha técnica:
O português que nos pariu
Autora: Angela Dutra de Menezes
Editora: Record
208 páginas
R$ 37,90

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3 thoughts on “Resenha: A inacreditável epopeia atlântica do português que nos pariu”

    1. Oi Cláudia,
      Infelizmente não posso resumir. Trata-se de uma resenha crítica e jornalística sobre um livro, não é um trabalho escolar. Caso você esteja precisando fazer um trabalho escolar sobre este tema – a colonização portuguesa – recomendo que busque um site especializado em conteúdo de pesquisa escolar, porque este aqui, é o meu blog pessoal, não é site de pesquisa. Quem entra nessa página é porque está interessado em ler o que eu escrevo, independente do tamanho do texto. Ah, e por gentileza, se for usar informações deste texto, cite a fonte, porque meu conteúdo é protegido por direitos autorais e só pode ser usado sem fins lucrativos e mediante a citação da fonte e da autoria. Abraços e obrigada pela visita!

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