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Reflexões sobre grandes provas de amor

Uma das histórias das tantas emocionantes sobre o terremoto no Haiti é a do marido que, à trabalho na República Dominicana (país vizinho), recebeu a notícia do terremoto, dirigiu 150 quilômetros e, chegando em casa, cavou os escombros com as próprias mãos, até resgatar a esposa, com vida. Na redação do jornal onde trabalho, o comentário, principalmente entre as mulheres, era que dificilmente alguma outra prova de amor semelhante seria dada a uma parceira (o) pelas próximas décadas. O que espantava algumas das minhas colegas é que um homem tenha feito o sacríficio para salvar a esposa, arriscando a própria vida em meio aos escombros do terremoto. Outras colegas diziam que esse tipo de atitude espera-se de uma mãe, ou pai, para com os filhos, ou vice-versa. Os meninos, lógico, se defendiam, dizendo que o gesto poderia ser adotado por qualquer pessoa, a depender da circunstância, e que as meninas estavam romantizando a situação e dividindo os homens em príncipes (os capazes de arriscar a vida) e plebeus, todo o resto.

No meio da discussão, comecei a pensar nas provas de amor que exigimos e que exigem de nós diariamente. Por coincidência, no mesmo dia desta notícia e da conversa na redação, minha mãe recebeu de uma irmã um daqueles arquivos em ppt com mensagens edificantes, que as velhinhas religiosas que aprendem a usar a internet costumam trocar entre si.

A princesa e o sapo. Ela tem de beijar o anfíbio nojento, se quiser libertar o príncipe

A mensagem contava o caso de um homem que, recém casado, lembrava dos cafés da manhã preparados por sua mãe, com ovos mexidos e linguiça frita, do cheiro bom do café quente na mesa e de como ele e os irmãos eram bem tratados por aquela mãe zelosa. O homem da mensagem acordava no seu primeiro dia de casado, na expectativa de encontrar a mesa posta e o mesmo cheiro de café da sua infância. Mas, a esposa dormia profundamente ao seu lado e ele, irritado, ia para o trabalho sem comer. Lá pelas tantas, no seu escritório, ouvia a conversa de dois colegas e um deles aconselhava o outro: “faça aos outros aquilo que você espera que façam a você. Nem sempre a felicidade reside no que recebemos, mas no que a gente dá aos outros”. Um ditado popular dos mais singelos, mas que diz muita coisa. De volta à sua casa, o homem passou a acordar mais cedo, todos os dias, para preparar uma bela bandeja de café da manhã para a esposa. Fez isso nos 25 anos em que foram casados, antes de enviuvar.

O que mensagens como essa (independente do teor religioso) ou gestos como o do marido haitiano escondem? Será que existem pessoas capazes de amar de forma desinteressada, amar por amar, amar a ponto de arriscar sua vida pelo objeto amado? Sim, acredito que existam e não são apenas casais, ou pais e filhos. Amigos podem se amar de uma forma tão profunda, cheia de cumplicidade e carinho como se fossem parte de uma mesma alma. Daí a crença na nossa metade perdida, que atravessa os séculos. No entanto, existe um outro sentimento que está acima do amor romântico na situação do Haiti e mesmo do gesto desse marido de ficção que acorda mais cedo para fazer pela esposa o que ele gostaria que ela fizesse por ele: trata-se da solidariedade. É um ato solidário tentar salvar alguém de morrer sufocado embaixo de pedras e terra. É um ato solidário, e de grande respeito, deixar que alguém ao seu lado durma tranquilo, enquanto você mesmo resgata os seus desejos de infância.

Rapunzel espera na torre que o príncipe suba por suas tranças para libertá-la

Ainda assim, a norma é que a gente deseje alguém que nos faça feliz, que se sacrifique, que prove o amor o tempo inteiro, quando o bacana seria se ninguém precisasse provar nada e as pessoas se aproximassem, estivessem juntas, sem interesses, apenas porque gostam de estar, porque querem construir alguma coisa, mas sem ficar cobrando quem dá mais na relação. É utopia, claro, porque somos humanos, porque somos egoístas em muitas situações, principalmente quando o assunto é amor.

Os motivos pelos quais não conseguimos esse amor cheio de desprendimento, acredito, passa pelo fato de que, infelizmente, quando um lado da relação doa o tempo inteiro um pouco de si, o outro lado passa a acreditar que aquilo é obrigação. Daí vêm as cobranças. Outro fator pelo qual esse amor ideal não dá certo tem tomado bastante minhas reflexões ultimamente, a frustração.

Ainda tendemos, e já disse isso aqui outro dia, a esperar do outro a nossa realização plena e ainda atribuímos a esse outro a nossa frustração ou infelicidade, quando não as duas coisas. Colocamos o tempo inteiro o nosso desejo nas mãos do outro para que ele os realize, não da forma que ele é capaz de realizar, mas da forma que queremos que ele realize. Esperamos sempre que esse outro haja de acordo com o script que montamos na nossa cabeça e ficamos desapontados como crianças – e a psicanálise explica que o começo dessas frustrações está na infância – quando as pessoas não correspondem ao nosso filminho. Na maioria das vezes, o outro tem sua forma particular de doar-se, mas como temos um modelo em mente, não conseguimos ver com clareza o que não se encaixa no modelo.

É impossível dizer para alguém que começa ou vive uma relação, que não espere nada do outro. Porque esperar, ter esperança, ter fé em pessoas e situações, é o que nos move para frente, o que nos faz continuar. Então, provavelmente, por mais que a gente esteja vacinado contra os sonhos de que um herói irá nos resgatar, ainda assim, lá no fundo, quando começamos a confiar na relação, nós esperamos atos de heroísmo, as tais provas de amor.

O príncipe enfrenta dragões, bruxas e atravessa uma floresta de espinhos para resgatar, com um beijo, a bela do seu sono de 100 anos

O importante não é deixar de romantizar, como queriam meus colegas. E aqui, romantizar é permitido para homens ou mulheres. O importante para mim, é saber lidar com a realidade quando o sonho acaba – para se recuperar sem tantos traumas, algum trauma sempre vai ocorrer, e quem sabe sonhar mais adiante -. E, principalmente, saber entender que, nem todos os homens, mulheres, pais, mães ou filhos, terão o gesto que este marido haitiano teve.

Somos humanos, temos direito de sentir medo, de sentir indecisão, de entrar em choque, de desistir. Alguns de nós possuem uma energia, ou força moral, ou desprendimento, ou solidariedade, ou amor desinteressado tão grande, que consegue se sacrificar. Para eles nem é sacrifício. Outros, não sabem lidar com a dor, com a perda, com a doença, com as dificuldades financeiras, ou com qualquer outro problema, o que não significa que não sabem amar de nenhuma forma. Há exceções claro, pois já vimos exemplos no mundo de gente que realmente não sabe.

No fim das contas, a nossa felicidade reside só em parte no outro, porque a parcela maior cabe a nós mesmos e a forma como lidamos com as frustrações, o sonho e a realidade. Provavelmente, em algum momento das nossas vidas, alguém que nos amou foi capaz de um gesto que os românticos chamariam de prova de amor, mesmo que não tenha sido tão grandioso quanto nos resgatar de um terremoto. Talvez, tenha sido algo simples como nos preparar uma bandeja de café da manhã.

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