Diário de uma aparelhada – III

Querido Diário,

Em primeiro lugar, foi mal ter ficado tanto tempo sem falar com você, mas é que a adaptação ao aparelho foi difícil no primeiro mês. Depois de colar os tais dos braquetes, chegou o dia de passar o araminho que vai puxar as presas tortas para o lugar. Amaldiçoei a genética, mas minha mãe disse que era perda de tempo, porque nem ela e nem o meu pai tem dentes tortos, e nem meus avós também, mas aí não vale, porque eles usavam dentadura quando eu nasci, não dá para saber como eram os seus dentes de verdade. Minha orto foi camarada e não colocou arame rosa e nem vermelho, optamos por um fiozinho discreto, cor de metal de aparelho mesmo (não sei o nome dessa cor e se eu escrever prateado aqui, você vai achar que meus dentes estão parecendo uma árvore de Natal). Encontrei Bia outro dia, na casa de Tati, e ela ficou decepcionada com o meu sorriso sem cor, disse que se fosse ela colocaria um mês de cada cor. Aah, sai dessa, já é um saco ficar usando esse troço e ainda querem que eu encare com bom-humor! Aconteceu uma tragédia também neste último mês. Precisei tirar dois dentes para ajustar o aparelho. É que todos os meus dentes permanentes já nasceram e não tem espaço para desentortá-los. Dei adeus aos pré-molares, para abrir o tal do espaço e agora, enquanto os dentes apinhados não ocuparem a vaga, fica aquele buracão. Sorte que os arames passam bem na frente e não dá para ver direito e sorte também que eu agora ando com cara de bicho, nada de sorriso, imagina o Rodrigo me ver sem dentes?! Antes a morte. Mas, confesso, o dentista que me atendeu para tirar os pré era bem gatinho e olha só, o destino, se chamava Camilo, meu xará, não é lindo isso?! Depois de colocar o arame, veio a parte realmente complicada. Se a comida já tá toda grudando na BPT no céu da boca, agora então, de cada 100 gramas que eu como, 60 ficam no aparelho, embaraçadas nos braquetes e no arame. Perdi peso, claro né, tou passando fome! E minha mãe me olha com aquele olhar meio torto dela e dá aquele risinho de canto de boca como quem diz “não falei”. Ganhei de presente de Natal um kit ortodôntico. Escova vermelha para escovar dente por dente e uma outra fininha, que serve para escovar entre os dentes, meia-hora no banheiro após cada refeição limpando o aparelho. Se eu não fizer isso vai carear e cárie é um troço muito nojento, ecaaa!!! O problema vai ser quando acabarem as férias. Minha mãe, a ditadora da minha casa, já decretou que eu vou acordar mais cedo, para dar tempo de tomar café e escovar a tralha toda antes de ir pra aula. Eu mereço!

Com amor, braquetes e arames

Camila.

>>Diário de uma aparelhada – I

>>Diário de uma aparelhada – II

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*Um esclarecimento a pedido de pais e mães que frequentam o Mar de Histórias: A série Diário de uma aparelhada é ficção baseada em fatos reais. Camila é uma adolescente inventada por mim, mas inspirada numa pessoa real que está vivendo o processo de usar aparelhos nos dentes. Portanto, as conquistas e torturas que ela descreve, realmente estão acontecendo com alguém.

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