Sexo forte ou frágil, isso depende

eros_blog“Homem só serve para abrir pote de maionese”. “Mulher demora horas se arrumando”. Se o comportamento de mulheres e homens fosse moldado eternamente por máximas como essas -, que ouvi esta semana durante uma conversa com dois amigos, um de cada sexo -, certamente viveríamos em uma sociedade dividida entre trogloditas de um lado e futilidade extrema do outro. Como sabemos que a natureza não teve todo esse trabalho para colocar a espécie humana no planeta, fazer-nos evoluir durante milênios, para sermos reduzidos a frases feitas e preconceitos, vamos rever algumas coisinhas sobre esse negócio de homem ser o sexo forte e mulher o sexo frágil. É isso aí, de volta ao tema da diferença e das formas que tentamos encontrar para conviver com essas dessemelhanças e torná-las complementares e não um eterno estado de competição. Já basta que competimos com os homens no mercado de trabalho, homens competem com homens e mulheres com mulheres em diversas situações da vida, em uma sociedade líquida, que se desfaz e reconstrói mais depressa do que conseguimos acompanhar. Somos diferentes, viva a diferença! O negócio é entender onde está o xis da questão, qual é o grau dessa diferença e para o que ela serve afinal? Não serve, por exemplo, para julgar e segregar, para estabelecer relações sociais desiguais e injustas!

A origem da confusão está lá nos nossos ancestrais, quando eles decidiram que as mulheres precisavam ser resguardadas dos genes de outros machos para garantir a descendência. Mas estamos no século XXI, com um planeta entrando em colapso e uma crise mundial afundando economias aparentemente sólidas; daí, nos dias de hoje, ainda fico surpresa em presenciar discussões nos moldes da antiga ‘guerra dos sexos’. Sendo testemunha desse duelo de clichês, porém, cheguei a conclusão de que olhar para trás é útil para entender como certos conceitos se formaram e difundiram e claro, para não “ver o futuro repetir o passado”, como diria Cazuza.

MITOS DA SEXUALIDADE

afroditeO homem é dominante e a mulher dominada. Ele é ativo e ela, passiva, ele o motor que dá partida e ela deve ser conduzida. Poligamia também é inerente à natureza do macho, enquanto as fêmeas são seletivas, escolhem o parceiro ideal para gerar filhotes sadios e proteger o ninho. Um momento por favor, de que espécie estamos falando? Pois é, essas ideias descreveram o comportamento sexual humano e serviram de parâmetro para comparar e separar os dois sexos durante séculos. Até que um dia antropólogos, biólogos, sociólogos e diversos outros “ólogos” perceberam que não dava para ficar comparando eternamente seres humanos com macacos bonobos (aqueles que biologicamente são quase idênticos a nós). Olharam para os nossos hormônios e perceberam que a testosterona masculina é necessária no corpo das mulheres para deixá-las mais alertas, enquanto o estrógeno feminino existe e é necessário no corpo dos homens. Previne osteoporose, ameniza a agressividade. E nada disso precisa ser comprado em farmácia, pelo menos não durante uma boa fase da vida, pois existe tudo dentro de cada um de nós, nas doses definidas pela natureza para tudo funcionar a contento. Mas a programação natural, para gerar descendência, fica por aí e por aquelas funções anatômicas que permitem, por exemplo, que fêmeas mamíferas amamentem as crias. O resto é cultural. Fidelidade, por exemplo, não é questão de ter mais ou menos hormônio de macho no organismo, é questão de escolha, de envolvimento com a relação. Homens e mulheres tem as mesmas propensões tanto de ser fiéis quanto de ser infiéis, porque tudo vai depender do tipo de relação construída, do objetivo dessa relação, dos laços de respeito e afeto estabelecidos com o outro, do grau de profundidade do envolvimento, do que se espera de uma relação. Atualmente, a maioria das relações são superficiais porque, como diz o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vivemos tempos líquidos e superficiais. Mas existem exceções à regra. E não falo apenas das relações entre homem e mulher, falo de pessoas. O importante é que o cinto de castidade, enquanto objetivo físico, virou peça de museu e, embora ainda haja muitos narizes torcidos para comportamentos mais livres, principalmente quando essa liberdade é das mulheres, a tendência é cada vez mais as pessoas entenderem que aquilo que as motiva a ficar juntas não é um contrato para manter as mulheres dentro do limite respeitável e moralmente aceito pelos homens, mas o interesse em compartilhar uma vida e projetos em comum.

BREVE HISTÓRIA DO ORGASMO

afrodite-2_blog1Hoje em dia há ainda quem diga que os hormônios femininos são uma desgraça e que as mulheres passam metade do mês sãs e a outra metade à beira de um colapso. Mas houve um tempo em que a coisa era bem pior. O orgasmo feminino, esse estágio misterioso, multi ou poli para as afortunadas, dor de cabeça dos psicanalistas que tentam mostrar que a trava de algumas não é anatômica, mas mental; já foi encarado como caso patológico, passível de morte na fogueira, assim como a TPM, e até essencial para garantir a reprodução. Pois é, na Grécia antiga, o grego Galeno chegou à conclusão, não de todo equivocada, de que as mulheres precisavam ter orgasmo para engravidar. O problema é que os rígidos tribunais atenienses acreditavam que vítimas de estupro tinham engravidado porque gostaram da violência que sofreram! Resultado, elas, as vítimas, eram presas e executadas como promíscuas, prática que vigorou até as fogueiras da Idade Média. Séculos mais tarde, biólogos e médicos descobriram que o princípio da teoria de Galeno tinha fundamento. Segundo o biólogo Tim Birkhead, autor de um livro chamado Promiscuidade, mas não no sentido pejorativo que a sociedade deu a essa palavra, de fato, o orgasmo facilita a concepção, mas não é determinante, lógico! De qualquer forma, o mito de que os homens tem um ato mais mecânico e as mulheres precisam de todo um clima para chegar lá, cai por terra com o passar do tempo e os estudos que mostram que as reações físicas dos meninos não significam que eles também não precisem de envolvimento, jantar romântico, luz de velas e lençóis perfumados. Eles têm direito a sonhar com a princesa de contos de fadas também.

ESTÁ DE TPM? JOGA NA FOGUEIRA!

fogueira_blogE por falar na Idade Média e em fogueira, uma curiosidade para encerrar o post: vocês sabiam que na Idade Média, boa parte das mulheres queimadas como bruxas estavam simplesmente na TPM? Pois é, como ninguém sabia o que fazia as moças variarem de humor, indo da depressão à euforia, agressividade nos casos extremos, uivar de dor, quando a cólica era insuportável, e depois voltar ao normal como se nada daquilo tivesse acontecido, a conclusão era uma só: possessão demoníaca. Sorte nossa que a medicina e a farmacologia evoluíram para nos aliviar desse sofrimento que homem cisgênero nenhum é capaz de dimensionar, muito menos compreender. Eis aí uma diferença entre os sexos que não tem como alterar. Homem não menstrua e não tem TPM, mas a vida deles lidando com a própria biologia e eternamente dosando o lado ancestral/animal com o lado racional/social também tem suas dificuldades, principalmente porque a educação dada aos meninos contribui muito para a manutenção de ideias e comportamentos machistas.

A questão é que, como eles sempre ocuparam o topo da pirâmide, não são cobrados – e nem julgados – da mesma forma que as mulheres!

P.S.: A quem interessar possa, as fontes para este post são as muitas leituras que já fiz na vida, seja de história, antropologia, psicologia. Este é um artigo sem fins acadêmicos, publicado em um blog pessoal e baseado no livre pensar, no ato de filosofar e conjecturar pura e simplesmente; e nas minhas crenças pessoais como ser humano e como mulher. Recomendo que quem gosta de copiar o conteúdo alheio fique atento ao fato de que este singelo artigo não se pretende um trabalho de pesquisa e portanto não se destina a trabalhos escolares.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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