Cidadania, Geral, Reflexões

Perdemos a capacidade de aceitar críticas?

Ego, o especialista em gastronomia da animação Ratatouille, da Disney/Pixar, virou sinônimo da aversão humana à crítica. Críticos são sempre vistos como intelectuais esnobes

Nos últimos dias vivi uma situação interessante na redação, que me rendeu muito no que pensar e a ideia de escrever este post. Entre algumas das tarefas da minha rotina profissional como editora de internet está a atualização de um blog sobre cinema que pertence ao grupo jornalístico onde trabalho oficialmente. Vez por outra, coloco neste blog uma análise sobre algum filme que assisti. Sou cinéfila assumida, mas não me considero uma crítica de cinema no sentido de alguém que ganha a vida fazendo exclusivamente críticas cinematográficas e por isso dedica-se a estudar a sétima arte. Mas sou crítica, no cinema ou fora dele, com quase tudo. E é sobre o ato de ser crítico que quero conversar.

O que aconteceu com este texto sobre o filme é que, como era de se esperar, alguns leitores gostaram muito e concordaram com o que leram, enquanto outros não gostaram e discordaram, tendo ainda o grupo que ficou indiferente e outra parcela que concordou ou discordou em termos. Até aí, o objetivo do texto foi cumprido: estimular o debate em torno de um produto cultural. Poderia ser estimular o debate sobre qualquer outro assunto.

Mas o que notei em primeiro lugar é que algumas pessoas – infelizmente uma quantidade bem grande delas – não estão interessadas em debater. Preferem usar o espaço para ironizar, ofender, agredir, menos para debater. Em segundo, detestam críticas, seja quando direcionadas a si mesmas ou a alguma coisa do qual gostam muito, como seus times de futebol, sua banda ou filme favoritos. Até aí, nenhuma novidade, boa parte da humanidade tem mesmo uma certa dificuldade em lidar com as opiniões dos outros, uma parcela significativa não gosta de ver erros apontados e outro grupo bem numeroso, se pudesse, viveria sendo eternamente elogiado, para apaziguar o egocentrismo infantil.

Durante uma semana, com os leitores dispostos ao debate limpo (aquele sem ofensas, palavras de baixo calão ou preconceito) sustentei uma conversa fantástica, que me fez crescer como jornalista e como ser humano. Boa parte dos comentários porém, teve de ser jogada no lixo, porque o teor era agressivo e desrespeitoso. Fiquei me perguntando o porque dessa raiva toda só por causa de um filme!? E percebi que o problema não era o filme, ou o texto da análise, mas a forma como estamos vivendo. Quando digo nós, não quero dizer necessariamente eu ou você, mas a sociedade como um todo. Enquanto ideal de civilização, nos tornamos cada dia mais selvagens e intolerantes.

O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que não gostam de ouvir críticas, as pessoas não se furtam a criticar ou mesmo a estabelecer uma verdadeira patrulha ideológica sobre o outro. Criticar não é o problema, desde que feita de forma digna e com o intuito de fazer o outro crescer, nunca apenas pelo prazer de falar mal ou de desmerecer. A patrulha é que me assusta. Porque esse vigiar a opinião do outro se torna cada vez mais raivoso. Atualmente, o que sinto é que evoluímos cada vez mais tecnologicamente e involuímos como seres humanos. Estamos perdendo a capacidade de dialogar, debater e analisar criticamente a realidade que nos cerca. Nos fechamos numa redoma confortável em que é mais fácil fazer coro com a maioria do que discordar. E discordar dá um trabalho danado! Ninguém gosta de ser minoria, isso é fato. Porque a minoria é aquele grupo excluído, que sofre discriminação. A minoria é o grupo apontado como esquisito. A minoria vive no gueto, não é pop.

Eu sou minoria, não abro mão de ser minoria, se isso significar ter opiniões próprias sobre tudo o que me cerca, ter uma visão particular sobre o mundo, a política, a economia, o entretenimento. Quero opinar, mesmo sem a intenção de convencer ninguém, apenas pelo fato de que opinar é a livre expressão do pensamento humano, é a manifestação da razão com a qual fui dotada, temperada com a emoção que sinto, ou deixo de sentir, diante de alguma coisa, desde o desabrochar de uma flor até uma guerra ou a fome no mundo. Se vejo TV, leio jornais, livros, revistas, acesso internet, converso com os outros, interajo, como não ter opinião? Por que deixar de dizer o que penso sobre alguma coisa apenas porque a maioria pensa diferente? É lógico que, ao emitir minha opinião sobre alguma coisa, tenho primeiro de fazer isto de forma respeitosa para com os outros. Ao opinar sobre um programa de TV, meu interesse tem de ser analisar e criticar o programa e não o apresentador. Se eu não o conheço, se ele não me fez nada, porque ofendê-lo? O que ganho em descarregar frustrações pessoais em Xuxa, por exemplo, apenas porque não gosto do formato do programa que ela apresenta diariamente? Que direito tenho eu de julgar a vida privada dela, enquanto pessoa, se o que eu vejo, se o que é público, é seu trabalho na TV? Usei Xuxa como exemplo porque é uma figura que está sempre no centro das críticas, mas poderia ser qualquer apresentador, artista, cineasta.

Sabemos que vivemos na cultura da imagem, em que o belo é cultuado e o feio rejeitado. Pior, em que os padrões de beleza são cada vez mais pasteurizados e em que todo mundo que é considero cult, tem de se vestir, falar, comer, frequentar os mesmos lugares, agir igualzinho, feito clones! A necessidade de pertencimento da espécie humana, somos animais gregários por excelência, assume contornos assustadores porque cria massas homogêneas, que patrulham e monitoram uns aos outros, com a intenção de excluir quem não se encaixar no padrão. Então, se uma quantidade enorme de gente vai ao cinema e gosta de um determinado filme, quem não gostar do mesmo programa não poderá se manifestar, sob pena de ser agredido. Eis aí a base da violência nos estádios também. A torcida x não pode interagir com os integrantes da torcida y, porque a competição entre os times em campo se transforma em rivalidade de vida ou morte fora dele.

Tudo isso demonstra uma única coisa, a dificuldade crescente em conviver com a diversidade. Outro paradoxo: porque vivemos em um mundo que, graças à globalização, aumentou o convívio com as diferenças, uma vez que aproximou culturas que antes nem sabiam da existência umas das outras. Por outro lado, é o fenômeno da globalização que impõe a homogeneização da humanidade, é ela quem cria padrões de beleza, padrões para a sexualidade, para o comportamento e até para a diversão.

Vivemos em bandos padronizados e não mais em uma sociedade onde a diversidade de opiniões estimula o crescimento coletivo

Não quero dizer com isso que se deva deixar todo tipo de ideia proliferar em nome da diversidade e da liberdade de expressão, e que toda opinião pode ser dita por aí. Lógico que não, do contrário, estaria defendendo que o racismo, homofobia, machismo ou nazismo existissem em paz porque seriam opiniões de um determinado grupo. Não. Jamais! É justamente porque vivemos em uma sociedade que se pretende democrática, mas que é cada dia mais racista, machista, nazista e homofóbica é que nos tornamos tão intolerantes com as opiniões alheias.

Existem ideias que não podem ser estimuladas porque na sua base está a opressão. Mas existem milhares de outras ideias, modos de pensar, agir, fazer, sentir, ver o mundo, que precisam se manifestar para compor o grande mosaico criativo que é a nossa espécie. É daí que surge a matéria-prima para a arte, a ciência. É daí que nos sustentamos como civilização. Mas o que vejo é que a maioria, para não perder seu status de maioria, sufoca cada vez mais as ideias que divergem. Se numa classe todas as meninas assistem aula vestidas como para um baile, coitada daquela que resolva ir para a escola de chinelinho de dedo. O caso da Uniban e a barbárie de um grupo querendo linchar uma colega estão aí para provar o que digo.

Se o lobby sobre um determinado produto ou programa é muito forte e você se vê praticamente obrigado a gostar do que lhe é oferecido, mas, ainda assim, não gosta, então meu amigo, o problema é seu, afinal “todo mundo gosta”! E com isso, perdemos a capacidade de opinar sobre coisas frívolas como a cor de uma roupa, um filme, um tipo de corte de cabelo… Aos poucos, também perdemos a capacidade de reclamar dos governantes que não cumprem suas promessas, perdemos a capacidade de selecionar aquilo que de fato nos interessa em meio a grande massa de informação jogada sobre nós diariamente, perdemos o estímulo para exercitar a cidadania, perdemos a sensibilidade para perceber a violência e a injustiça.

Nos alienamos como indivíduos e perdemos também, a capacidade argumentativa. Argumentar para que, se todo mundo é “obrigado” a pensar da mesma forma?! Não vivemos mais em uma sociedade democrática (porque democracia, embora seja o governo da maioria, permite oposição), vivemos em bandos padronizados e sem direito a voto, porque para votar – uma eleição é um ponto de convergência em meio a opiniões diversas – seja no candidato a presidente, síndico do prédio ou no melhor filme do ano, é preciso exercitar a arte da crítica. Só depois de analisar, criticar, emitir opinião e, principalmente, ouvir a opinião alheia, é que temos material suficiente para embasar nossas escolhas e decisões. Embora não seja Nelson Rodrigues – nem tenho pretensão de ser – desconfio muito das unanimidades.

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