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Histórias da infidelidade humana

simbolo_feminino_blogEm setembro de 2001 recebi uma pauta na redação onde trabalhava que rendeu descobertas fascinantes desse complexo e delicado universo feminino: contar a história do adultério através do tempo e da literatura. Meus editores sabiam que eu gostava de literatura e não são poucos os títulos nacionais e estrangeiros que exploram a infidelidade conjugal como tema para novelas e romances que vão da tragédia dos crimes passionais ao escracho das piadas de corno (veja lista de dicas de romances no final do post). Lendo um artigo sobre infidelidade, lembrei da reportagem antiga, do que aprendi na época. O comportamento de homens e mulheres mudou bastante nos últimos oito anos. Tudo muda muito mais depressa atualmente. Estamos na era da informação, da velocidade e de um salto evolutivo que ainda não sabemos bem para onde vai nos levar como espécie. Mas temos de seguir em frente, é da natureza humana perseverar. Alguns conceitos sobre infidelidade porém, apesar das revoluções de costumes que ocorrem de tempos em tempos, permanecem arraigados, porque a cultura e as tradições dos povos demoram mais tempo para se adequar. A ideia de que homem pode e mulher não deve, porque fica mal vista, ainda é recorrente. A história da infidelidade humana é tragicômica, porque alguns castigos impostos aos cornos beiravam o ridículo, enquanto as punições para as adúlteras figuram no rol das crueldades já praticadas contra as mulheres ao longo da história. Divido com vocês um pouco do que pesquisei sobre o tema…

DE DEUSA À PECADORA

fidelidade_blogOs homens das cavernas não compreendiam o mistério da criação. Acreditavam que a terra era uma mãe generosa, de cujo ventre (o solo) nascia o alimento de que necessitavam. Eles também não entendiam de onde vinham os bebês. O ventre das mulheres deveria ser como a terra. No Neolítico Superior, os problemas começaram. Os homens descobriram que para a terra germinar, precisava de semente. Entenderam que as mulheres deixadas sozinhas, sem parceiros sexuais, não tinham bebês. A partir daí, foram de um extremo ao outro. Ao invés de adorar as fêmeas ou mesmo de vê-las como a outra metade da criação, com 50% de responsabilidade no ato de gerar vida, passaram a vigiá-las como um vaso onde as sementes deles, dos homens, esses sim, os reis da prole, deveriam germinar. O adultério e o conceito de fidelidade e traição conjugal nasce junto com a paternidade. Como qualquer semente podia germinar nesse vaso (no útero feminino), era preciso garantir a autenticidade da cria. Do altar de divindade para o cinto de castidade foi uma questão de tempo.

CASTIGO E MORTE ÀS INFIÉIS

"Que atire a primeira pedra, aquele livre de pecado"
“Que atire a primeira pedra, aquele livre de pecado”

O cinto de castidade impunha fidelidade à força. Mas não ficava só nisso. E não fica até hoje, se lembrarmos que existem ao menos 20 países africanos que ainda praticam a mutilação feminina, por meio da extirpação do clitóris. Países radicais ainda condenam à morte por apedrejamento, prática narrada no Antigo Testamento da Bíblia – e condenada por Jesus – e adotada pelos povos antigos. Na Babilônia, costumava-se, nos tempos bíblicos, arrancar um dos olhos da moça quando ela se casava. Assim, só teria de olhar em uma direção, a do marido!!! Até a Idade Média, existia um documento chamado Libelo de Repúdio, uma carta onde o marido justifica os motivos para devolver esposas supostamente infiéis aos familiares. Mulheres surpreendidas em adultério eram mortas na fogueira ou, se tivessem sorte, trancadas em conventos até a morte. No Brasil, o Código Civil de 1916, que criminalizava o adultério (a culpada, além de perder a guarda dos filhos, podia ficar um ano na cadeia), só foi revisado em 2003.

INFIDELIDADE É QUESTÃO DE CULTURA

esquimo_blogA história mostra que o conceito de fidelidade varia de cultura para cultura. Entre os espartanos, era comum que as mulheres dormissem com mais de um guerreiro, mesmo se fossem casadas. A ideia de perfeição dos gregos ditava que, quanto mais ela aprimorasse a descendência, melhor. Não era questão de respeito ao direito de escolha feminino. As mulheres eram procriadoras e tinham de deitar com os mais valentes e belos para gerar novos e perfeitos guerreiros. Já os esquimós acreditavam antigamente que era muito educado, um gesto da mais alta consideração, oferecer a esposa a um visitante. Mais uma vez, a vontade da mulher não era considerada, ela era um bem do qual o marido dispunha como quisesse.

Mas, na mesma África onde ainda se pratica a extirpação do clitóris, existem tribos nômades que permitem que uma mulher tenha até quatro maridos. Nesses arranjos familiares, são eles e não elas, que tem de cuidar da casa e dos filhos. Uma curiosidade: o antropólogo Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala, quando estava fazendo pesquisas sobre os povos orientais e africanos, recebeu autorização por escrito da esposa, permitindo a ele que dormisse com “mulheres exóticas” que pudessem ajudá-lo nas suas pesquisas de campo sobre hábitos e costumes locais. A confissão do intelectual sobre o gesto da esposa foi publicada em entrevista numa das edições da revista Playboy, em 1980.

HISTÓRIA RESUMIDA DO CHIFRE

vicking_blogPara os vickings, só os homens mais viris ostentavam um par de cornos sobre a cabeça. Era símbolo de força. Os chifres em forma de crescente simbolizavam a fertilidade na antiguidade, antes do advento do Cristianismo. Mas, na Idade Média, quando a nova religião ganha força e as religiões ditas pagãs são perseguidas, o chifre vira instrumento de humilhação. Em Portugal, no século XVII, pares de chifres eram pendurados nas portas das casas para denunciar ao seu morador que a esposa o estava traindo. A lei exigia que o homem que fosse “coroado” com os cornos na sua porta, deveria matar a esposa e recuperar a honra. Os que decidiam perdoá-la, eram obrigados a desfilar pela cidade usando os chifres na cabeça. O costume foi abolido em 1715 pelo rei D. José, mas até hoje, a palavra para quem é traído pelo parceiro (a) é justamente “corno”. Em outros países da Europa, ao invés de chifres, pintava-se nas portas dos traidores e bordava-se nas suas vestes, uma grande letra A (de adultério), vermelha. O filme A – Letra Escarlate (Rolland Joffé), mostra um pouco dos castigos que os traidores sofriam.

ROMANCES DE TRAIÇÃO, MORTE, PECADO E DELÍCIA

As Relações Perigosas – Choderlos De Laclos
Madame Bovary – Gustave Flaubert
Ana Karenina – Tolstói
São Bernardo – Graciliano Ramos
Caetés – Graciliano Ramos
Ninguém é de Ninguém – Harold Robbins
Tocaia Grande – Jorge Amado
Terras do Sem Fim – Jorge Amado
O Primo Basílio – Eça de Queiroz
A Bala de Ouro – Pedro Calmon
Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
Dona Guidinha do Poço – Manoel de Oliveira Paiva
Pensão Riso da Noite – José Condé
O Amante de Lady Chatterly – D. H. Lawrence
Lolita – Wladimir Nabokov
Numa e a Ninfa (conto) – Lima Barreto
A Cartomante (conto) – Machado de Assis

PARA ENTENDER MELHOR O CONCEITO DE INFIDELIDADE

As Deusas, as bruxas e a Igreja
Autora: Maria Nazaré Alvim de Barros
Editora: Rosa dos Tempos
Média de preço: entre R$ 40,00 e R$ 48,00
Disponível em sites como Submarino, Amazon. Livraria Cultura, Ed. Melhoramentos e Americanas.com

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