Cinema

Avatar: falta história e sobra computação gráfica

Eu juro, dedinhos cruzados, beijinho sobre a cruz, que fui ao cinema com toda a boa vontade e curiosidade isenta de preconceitos – na medida do possível para uma criatura meramente humana -, mas a verdade é que Avatar não me convenceu.

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Avatar: falta história e sobra computação gráfica

Avatar é um excelente filme do ponto de vista técnico. O cinema como conhecemos não será mais o mesmo, em termos de alta tecnologia e efeitos especiais, depois da mega produção de James Cameron. Avatar também tem uma história boa, preocupada em passar uma mensagem ecologicamente correta em tempos ambientalmente tão caóticos. Os cenários são de tirar o fôlego, é a computação gráfica elevada a níveis ainda não experimentados. James Cameron é mesmo pioneiro, disso ninguém duvida, e seu filme já entrou para a história dos grandes feitos tecnológicos do século XXI. Por isso, não vou dizer que Avatar é só tecnologia de ponta e pronto, porque seria desrespeito com os milhares de espectadores que assistiram ao filme até agora, elevando-o à quarta maior bilheteria da história, segundo matéria da agência internacional Reuters.  Não é só tecnologia de ponta, mas fica muito aquém do grande filme que poderia ser.

Se é mesmo a quarta maior bilheteria de todos os tempos? Não sei. Os fãs de Harry Potter certamente dirão que é injusto a franquia não estar na lista dos cinco primeiros. O último ranking que publiquei em um blog me deu dor de cabeça e deixou alguns leitores bem zangados. A lista da Super Interessante elenca as 100 maiores bilheterias de todos os tempos, claro que, como toda lista, é subjetiva e leva em conta algumas variáveis escolhidas pelos seus autores e que, óbvio, não agrada todo mundo. Fruir cinema é antes de mais nada, o gosto de cada um. Sempre vai ter quem adore, até idolatre filmes como Avatar. E sempre vai ter aquela parcela que torce o nariz para o excesso de tecnologia e a falta de um excelente roteiro e de uma história que arrebate sem lançar mão de tantas camadas de efeitos especiais ou de fórmulas piegas, de emoção barata.

No meio dos dois extremos, haverá aqueles que reconhecem o mérito tecnológico – o que não é pouca coisa numa sociedade capitalista em que arte e indústria se confundem -, mas desejam algo mais, como eu. E ninguém estará 100% certo ou 100% errado nesta questão, porque ela é pautada pelo gosto, pelas preferências – e referências – pessoais, artísticas, históricas de cada um.

Assisti Avatar com meu filho. Ele curtiu, mas se eu perguntar para ele qual foi o melhor filme que assistiu em 2009, Avatar não estará no topo da lista, embora talvez conste do seu ranking pessoal dos dez mais do ano. Particularmente, fiquei impressionada com a magnanimidade da produção e por tabela, da indústria cinematográfica. O filme é realmente impactante do ponto de vista da tecnologia, mas não me traz nada de novo em se tratando da técnica de fazer cinema do ponto de vista da narrativa e da realização autoral. Tem a marca de James Cameron como diretor afeito aos mega projetos e aos melodramas. Os enquadramentos são de tirar o fôlego, mas é o computador quem faz boa parte do trabalho. Sinto falta do olhar humano do diretor, da sua sensibilidade mais pessoal e menos máquina. Sem que  a sensibilidade beire o patético (Titanic tem cenas patéticas). Há muitas formas de comover sem pieguice.


O filme é linear, bem parecido com os filmes convencionais e pouco criativos (que custam menos também). Em relação a forma de contar histórias, tem começo, meio e final feliz. Não digo que isso  é falta de mérito total, a maior parcela das plateias de todo o mundo gosta de filmes assim, redondinhos, sem sobressaltos na narrativa, com mocinhos e bandidos bem demarcados, com castigo para os cruéis e prêmio para os gentis. Eu até gosto de alguns filmes assim, confortáveis, mas nenhum deles custou meio bilhão de dólares. Tem filmes nesse formato que são até mesmo inesquecíveis. Mas, pessoalmente, ando mais exigente e por isso, do meu ponto de vista pessoal (afinal estamos em um blog), Avatar promete mais do que cumpre. A atuação do elenco é mediana. Até para Sigourney Weaver, veterana de filmes igualmente pioneiros na sua época (Alien, o Oitavo Passageiro, que eu gosto muito por sinal) o personagem não é realmente consistente. Aliás, ninguém no elenco é. Avatar mostra como fazer um filme de sucesso, do ponto de vista de grandes bilheterias, sem precisar que os atores atuem de verdade, basta arrumar um “avatar” e um cenário estupendo. Seria mais honesto se fosse todo feito em animação e todo passado unicamente na realidade virtual de Pandora.

Funciona bem em jogos de computador, provavelmente vai bater recordes de venda em jogos de realidade virtual, ou não, quem sabe? Mas acho que no cinema, funcionaria melhor se fosse menos megalomaníaco e durasse menos tempo. Em alguns momentos, a profusão de explosões e voos rasantes em naves espaciais cansa, dá claustrofobia e não altera em nada o resultado da história. Como diz um personagem de William Hurt em filme que assisti esta semana na tv: “em se tratando da arte de contar boas histórias, menos é sempre mais”.  Ou seja, simplicidade e criatividade podem andar de mãos dadas, devem, mas sem que as tintas sejam carregadas a ponto de comprometer o objetivo final de todo bom filme, que é de impactar pela força da história.

Tentei fazer um exercício: retirar toda a alta tecnologia e ficar só com a história neste filme em particular. Vi que Avatar não conta nada de tão novo assim, com exceção de colocar os humanos na posição de vilões e os extraterrestres na de mocinhos, o que já foi feito em outras produções bem anteriores e com menos efeitos especiais. Avatar é bonito visualmente, sim, com toda certeza. Mas paisagem grandiosa por paisagem grandiosa, prefiro a saga de O Senhor dos Anéis e aqueles campos e montanhas de sonho da Nova Zelândia, que reproduzem – na visão de Peter Jackson – a Terra Média idealizada por J.R.R. Tolkien.

Pelas promessas feitas, esperava mais de Avatar. Não do ponto de vista dos efeitos, isso o filme tem o suficiente, mas aguardava mesmo uma história que comovesse. Não necessariamente que fizesse chorar, mas que incitasse discussões após a sessão. Vi muitos embasbacados com os efeitos, mas tão decepcionados quanto eu com a história em si. De qualquer forma, o caminho dos efeitos bombásticos dá lucro e a indústria faz filmes para lucrar e não comover meia dúzia de nostálgicos (eu, inclusive). A experiência serviu para comprovar minha teoria de que o que faz um filme realmente inesquecível, ao menos para mim, é a história contada, a essência que perdura após serem removidas todas as camadas de maquiagem. De zero a dez, dou sete e creio que está bem pontuado. Como diz minha sábia irmã, “muito mais jogo assistir uma boa produção de Woody Allen, dura a metade do tempo, mas você sai do cinema com a sensação de que algo mexeu nas entranhas e vai ficar para sempre na memória”.

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5 thoughts on “Avatar: falta história e sobra computação gráfica”

  1. Concordo que o filme não traz nada de novo em termos de roteiro e história, mas você deve considerar algumas coisas. Em determinada parte do texto você diz: “mas é o computador quem faz boa parte do trabalho”.
    Ora bolas, para um computador ou uma rede de computadores “fazer alguma coisa” precisamos de seres humanos sentados na frente deles! Como um profissional da computação gráfica, posso lhe dizer com absoluta certeza: Se não fosse o árduo trabalho da equipe técnica (diga-se humanos), nada poderia ser feito! É um trabalho gigante de pessoas que “não aparecem” mas fizeram uma tarefa hercúlea. Sugiro que você procure no youtube: MAKING OF AVATAR para você ter a mínima idéia do que eu estou escrevendo por aqui.
    Vale lembrar que o computador é “burro” e nada faz sem o trabalho de nós, simples mortais! Depois de assistir o vídeo, garanto que a sua nota será, no mínimo 11 !!!

    1. Oi Wellington, mas é o oposto. Justamente por saber que computadores são máquinas e não fazem o trabalho sozinho é que escrevi este trecho do texto, por considerar que o mérito da produção está mesmo é na computação gráfica e por tabela, no trabalho hercúleo dos profissionais da área. A meu ver, isso mantém minha nota 7, porque sem esses recursos técnicos e sem os profissionais por trás deles, avatar seria a “historinha da pocahontas” (como diz uma amiga minha). Nota 7 tá na média, um filme mediano, bom, mas não excelente. Se fosse um estudante seria aprovado na escola, o que significa que seria um bom estudante, mas não seria um nota 9 ou 10, ou seja, não seria o que os professores chamam de “aluno brilhante”. É uma opinião, nesse caso a minha, discorda da maioria, discorda sim, mas é meu direito discordar não é? Ainda mais num blog pessoal. Um abraço e obrigada por dividir sua opinião com a minha meia dúzia de leitores!

      1. Ok. Assista o “making of avatar” !!
        É realmente muito bom !!! Divertido mesmo !!!

  2. ainda não assistir, mas a mídia faz com que a gente vá. entendo um pouco de filmes, se for bom digo, se ruim também falo.

    1. Oi Walter,
      Mas é isso mesmo. O olhar crítico tem de ser sempre exercitado. Não é porque a mídia diz que é bom e porque os fãs fazem pressão que temos de concordar. Se você gostar do filme e discordar da minha opinião sobre ele, faço questão de saber. Pois o seu olhar será diferente do meu e pontos de vista diferentes sempre nos fazem crescer. Um abraço!

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