Autores, Literatura, Poesia, Resenhas

Para revisitar a poesia de Thiago de Mello

Neste sábado, o Caderno 2+ do jornal A TARDE publica a resenha literária que fiz da coletânea de poemas do autor amazonense  Thiago de Mello, lançada recentemente pela coleção Melhores Poemas, da Global Editora. Meu novo desafio em literatura no jornal  é uma reportagem sobre o escritor infanto juvenil Roald Dahl, autor, entre outras histórias, de O Fantástico Senhor Raposo, adaptado para o cinema por Wes Anderson e lançado este mês no Brasil. Abaixo, vocês podem ler a íntegra do texto sobre Thiago de Mello  e mais alguns de seus poemas. Eu já havia publicado “Rumo” aqui no blog em novembro,  no final do post vocês conferem mais alguns dos belos versos:

“Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm
direito a converter-se em manhãs de domingo”
.

(Os Estatutos do homem, Thiago de Mello)

O poema mais famoso de Thiago de Mello, Os Estatutos do Homem (1977), é só uma pequena parte do universo onírico deste poeta amazonense. Traduzido para mais de 30 idiomas e respeitado como expoente da Geração de 45 – movimento da terceira fase do modernismo – o autor, contemporâneo de gente do quilate de Carlos Drummond de Andrade e Manoel Bandeira, ganha uma coletânea que relembra aos que já conhecem, ou apresenta para quem nunca ouviu falar nele, uma obra marcada por questões existenciais e pelo engajamento social.

Integrante da Coleção Melhores Poemas, da Global Editora, Thiago de Mello – Seleção é editado por Marcos Frederico Kruger, que fez uma cuidadosa pesquisa sobre a vida e a obra do autor, que também escreveu prosa e traduziu Pablo Neruda e T.S. Elliot, entre outros. Ao todo, a coletânea reúne poemas de pelo menos dez obras do escritor, com destaque para Silêncio e Palavra, o livro de estreia, Narciso Cego, de 1952, Faz silêncio mais eu canto, de 1965, A canção do amor armado (1966) e Mormaço na floresta (1981).

O passeio pela seleção de poemas é rico em experiências sinestésicas. Nos versos em que fala do mar, é possível sentir o cheiro de sargaço; bem como o calor abafado da floresta, naqueles em que canta a terra natal. Ainda assim, a poesia de Thiago de Mello é econômica, sem exageros estilísticos, “a toada de um cambaio”, como ele mesmo define a sua poesia rica em descrições e sensações. A impressão do leitor é que os versos transcendem a leitura, são feitos para tocar, acalentar na alma. São poemas que tiram a beleza da simplicidade do cotidiano ou revivem ideais de humanidade cada vez mais esquecidos.

Mesmo os poemas mais engajados, como Os Estatutos do Homem, parecem mais hinos de celebração à vida do que panfletos partidários. A ideologia de Thiago de Mello é humanista e extrapola a divisão binária do mundo após a II Guerra. Para entender seus versos, aliás, como o próprio Marcos Kruger enfatiza no prefácio da coletânia, é preciso entender o mundo de sonhos despedaçados e esperanças renascidas após o conflito mundial.

Na literatura brasileira, boa parte da obra da Geração de 45 traz uma beleza amarga, seja na poesia ou na prosa, e demonstra uma inquietação muito grande com a condição humana e a solidão. Em Thiago de Mello não é diferente, a ponto dele afirmar que “mal somos nascidos…/ já nos tornamos embocadura da nossa morte”. O desencanto porém, sempre dá lugar ao desejo de um mundo melhor e menos sofrido, onde até “as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo”.

Quem é: Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, no Amazonas, em 30 de março de 1926. Aos 15 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde cursou até o quarto ano de medicina. Largou a faculdade para se dedicar à poesia e ao jornalismo, tendo também se dedicado à tradução e à prosa, principalmente crônicas sobre o Amazonas. O livro de estreia, Silêncio e palavra, veio em 1951. Logo de saída, o autor foi aclamado por poetas que já eram consagrados no período, como Manoel Bandeira. Em 1964, perseguido pela ditadura militar, exilou-se no Chile, onde viveu até 1985. No país andino, fez amizade com Pablo Neruda, tornando-se tradutor das obras de Neruda para o português. O poeta chileno, por sua vez, traduziu a obra de Thiago de Mello para o espanhol e publicou ensaios em revistas chilenas sobre a obra do brasileiro. Sobre ele, Neruda diria: “Thiago de Mello é um transformador de almas”.

Ficha técnica:
Thiago de Mello – Seleção
Coleção Melhores Poemas
Organização: Marcos Frederico Kruger
Global Editora
302 páginas

Alguns poemas de Thiago de Mello

Os Estatutos do Homem

Ato Institucional Permanente
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade,
agora vale a vida, e de mãos dadas
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm
direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas, e
que os girassóis terão direito a abrir-se
dentro da sombra; e que as janelas devem
permanecer, o dia inteiro, abertas para o
verde, onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem não
precisará nunca mais duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem confiará no homem como
um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão
livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça
do silêncio, nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa com seu
olhar limpo, porque a verdade passará a
ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a
prática sonhada pelo profeta Isaías, e o
lobo e o cordeiro pastarão juntos, e a comida
de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável, fica estabelecido o
reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre
foi e será sempre não poder dar-se amor
a quem se ama, e saber que é a água que
dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que, sobretudo, tenha sempre
o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida, uso do
traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição, que
o homem é um animal que ama, e que
por isso é belo, muito mais belo que
a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido, tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes com uma
imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não
poderá nunca mais comprar o sol
das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma
espada fraternal para defender o direito
de cantar a festa do dia que chegou.
Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante a liberdade será
algo vivo e transparente como um fogo
ou um rio, e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Silêncio e palavra
I
A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.
II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura – ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos homem e palavra.

O muro invisível
É inútil minhas palavras
ultrapassarem fronteiras,
se eu ainda permaneço.
Muro invisível existe
entre o dizer e o fazer
e, talvez, à sua sombra
apenas envelheçamos.
Jamais saberá a relva
Quando o orvalho descerá,
e é dádiva da terra,
O que amadurece os frutos.
Sou qual ávida planície
Esperando vir dos céus
a chuva fertilizante.
Entrementes, vejo flores,
sem saber se as colherei.

Barcos e Ventos
Estimo o velejar fácil
de barco singrando o rio
sem qualquer ânsia de porto.
No singrar já se compraz.
Além das águas, desejo
ouvir o rumor do vento
que agita o mar e saber
a que rumo ele me impele.
Ai, triste é ser como o búzio
que, fabulário, resguarda
em seu côncavo o murmúrio
do mar a que pertenceu,
no entanto jamais se escuta.

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