Diário de uma aparelhada – II

Querido Diário,

Nova visita à minha ortodontista. Ainda não me acostumei a comer usando a tal da BPT. A comida gruda embaixo do arame. É a treva! Hoje fui colar os braquetes. Demora muito e é bem complicado. Primeiro meus dentes foram escovados com uma pasta com gosto da mesma pasta que minha mãe compra para o meu irmãozinho. Ele come a pasta toda, mas eu acho uma grande eca! Depois de lavar os dentes com a eca sabor tutti-frutti, a dentista passou uma coisa salgada nos meus dentes, com gosto do bicarbonato de sódio que minha avó usa para clarear a dentadura. O passo seguinte foi colocar um abridor de boca para evitar que eu fechasse os lábios enquanto ela colava os braquetes. Abridor de boca dói e deixa as gengivas sensíveis. Ou tenho a boca pequena ou o abridor era grande demais. Com aquela coisa esticando meus lábios até rachar, passaram um ácido nos meus dentes. Ácido mesmo, que a dentista explicou, serve para fazer buraquinhos invisíveis nos dentes (dá para ver usando microscópio!). A resina que segura os braquetes entra por esses buraquinhos. Fico pensando se os germes da cárie também não entram? Os braquetes estão colados agora e são muito feios, mais feios do que meu pior pesadelo. Tive aula de teatro na saída da dentista. Quero matar o Paulo, meu colega da turma de teatro. Ele me chamou de “boquinha de lata” e o resto da turma já encarnou no apelido. Para completar, só porque sou adolescente, minha dentista sem noção pensa que sou patricinha. Me perguntou se eu queria colocar os fios de metal, que vão ficar presos nos braquetes, cor-de-rosa. Onde já se viu alguém sair por aí sorrindo cor-de-rosa? Minha mãe diz que eu tenho mania de resmungar e que nunca completo as palavras, engulo uma parte delas e cuspo alguma coisa que parece uma frase. Eu acho que não tem nada a ver. Toda a minha turma me entende, só minha mãe que reclama. Acho que ela tá ficando surda. Mas já decidi, vou abrir a boca o mínimo possível para falar e sorrir já está fora dos meus planos pelos próximos dois anos.

Com amor e metaizinhos nos dentes,

Camila.

>>Diário de uma aparelhada – I

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*Um esclarecimento a pedido de pais e mães que frequentam o Mar de Histórias: A série Diário de uma aparelhada é ficção baseada em fatos reais. Camila é uma adolescente inventada por mim, mas inspirada numa pessoa real que está vivendo o processo de usar aparelhos nos dentes. Portanto, as conquistas e torturas que ela descreve, realmente estão acontecendo com alguém.

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