Bala no Alvo, História, Jornalismo, Política

Berlim é aqui!?

A importância histórica da derrubada do muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, é inegável e foi o início de vinte anos de intensas transformações no mundo. As consequências da globalização, acentuada após a queda do muro, e de todo o redesenho geo-político da Europa, com as devidas implicações, em maior ou menor grau, no resto do planeta (ou em uma parte considerável dele) também são impossíveis de negar por qualquer pessoa que goste de história ou que ao menos tenha acompanhado o noticiário nos últimos anos. O fim da cortina de ferro é um marco, sem dúvida, assim como o ressurgimento dos regimes totalitários e fascistas nesse começo de século XXI são um alerta.

Na minha vida, o muro teve a importância de me fazer querer ser jornalista. Vi a cena pela televisão, quando tinha 15 anos, uma das emblemáticas dentre tantas que o século XX nos legou, daí ter ganho de Eric Hobsbawn a alcunha de “era dos extremos”. Até escrevi sobre isso em uma das sessões nostalgia da adolescência perdida, aqui no blog (leiam aqui).

Mas, apesar de toda a importância da data, não consigo entender por que uma réplica do muro de Berlim será construída e simbolicamente derrubada em Salvador, mais especificamente no Pelourinho, nesta terça.

O Pelourinho, bairro que historicamente era o centro da nobreza colonial baiana, elevado a centro cultural da baianidade na época do carlismo, vivendo momentos de decadência notória nos dias atuais. Ainda assim, berço da resistência afro-brasileira, casa do Olodum, da secular (300 anos) igreja do Rosário dos Pretos, da Sociedade dos Desvalidos…

O que tem o Pelourinho com o muro de Berlim? Seria uma metáfora para que Salvador derrube o muro invisível  da desigualdade social global que faz conviverem no mesmo espaço os turistas loirinhos e os esqueléticos sacizeiros do crack?

No release que divulga o ato há um trecho dizendo que “O evento tem como objetivo despertar a consciência histórica e explicar este valor simbólico que a derrubada do muro assume hoje na sociedade”. Pois é, só como símbolo da separação racial e social existente em Salvador eu consigo entender o significado deste ato do lado de cá do Atlântico. Do contrário, me cheira a oportunismo midiático, enfatizado por outro trecho do release que diz que as pessoas poderão levar pedaços do muro fake para casa, como souvenir!

Conhecendo a natureza pouco crítica dos moradores desta cidade, onde para o ruim e para o pior tudo vira festa, é bem provável que levem mesmo nacos do muro para enfeitar aquela parede atrás do sofá.

Lembrando o aguerrido Franz Fanon, deve haver um complexo de inferioridade arraigado que mantém nessa cidade de riqueza histórica uma necessidade de ser cosmopolita e moderna a todo custo. Sendo que ao sacrificar a sua história em nome de uma elevação máxima da história de outros, não somos nem uma coisa nem outra, estamos perdidos, “no limbo da não identidade” (roubando as aspas de um professor meu), nem cientes da própria história e nem pós-modernos.

O dia 20 de novembro está chegando, quero ver se o Pelourinho vai ser palco de um evento igualmente simbólico para marcar o Dia da Consciência Negra ou se a nossa “consciência” histórica continua sendo eurocêntrica e colonizada. Vamos também aguardar a cobertura das emissoras de TV e dos jornais e sites para o grande evento da simulação da derrubada do muro de Berlim no Pelourinho.

Muito provavelmente, a cobertura jornalística irá se ater ao oba-oba, ao pitoresco, a mis-en-céne, mas não vai questionar em nenhum momento o porque de precisarmos de um emblema europeu para enxergamos que Berlim, tanto quanto o Haiti, é aqui!

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2 thoughts on “Berlim é aqui!?”

  1. Obrigada Beto e quanto ao vereador, que sirva de lição para o povo que elege essa corja. Algum dia, espero, o povo desta cidade, do país, vai aprender a votar.

  2. Belo texto, Andreia. Precisamos efetivamente é, derrubar os muros, destruir o apartheid social, ainda erguidos no Centro Histórico.. Outra idiotice sem tamanho é a proposta de um vereador idiota que propõe erguer uma estátua de Michael Jackson lá no pelô. Sinceramente, por lá, no Pelourinho, não estão´só as almas penadas dos negros que foram supliciados, não, tem muita alma igualmente subcolonizada vagando por lá.

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