Cinema

O menino do pijama listrado

o-menino-do-pijama-listradoNo meu ritmo já tradicional de ver tudo o que está na moda depois que a moda passa, assisti O menino do pijama listrado esta semana, um ano depois do lançamento no cinema. Ambientado na II Guerra Mundial, um tema sobre o qual tenho grande curiosidade, o filme é um poema. Triste e ao mesmo tempo belo. Comovente, mas nem um pouco piegas. A infância é mostrada em toda a sua inocência, mas não é uma infância subestimada. É a inocência de descobrir o mundo, questioná-lo, chocar-se, um não compreender que guarda uma compreensão intuitiva. O filme é baseado em livro homônimo, de John Boyne, autor que eu não conhecia, livro que ainda não li, mas que pretendo ler. Como ocorre com quase todas as adaptações literárias (com raríssimas exceções) para o cinema, por questões de espaço na produção, preferência do roteirista e diretor, entre outras coisas, muito da história fica de fora dos filmes e essa história, pelo que vi neste filme, vale a pena ser conhecida na íntegra. Conversando com algumas pessoas que também viram o filme, surgiu o questionamento sobre o desfecho da narrativa. Sem antecipar aqui o que acontece, digo apenas que acredito que aquele final era necessário para sustentar a história construída desde o início do filme. Particularmente, gosto de finais que não fazem concessões à emotividade e que por isso, não sacrificam a coerência de uma boa história. Assistindo aos extras, vi uma entrevista com o diretor Mark Herman, em que ele traduz muito bem minha impressão do filme: “não é uma produção sobre a II Guerra Mundial, o conflito é o pano de fundo para mostrar a história de uma família alemã e das consequências do nazismo, muitas trágicas, para a estrutura familiar como um todo”. Diria ainda que é um filme sobre a perda da inocência diante de um flagelo como foi esta guerra em particular. Se pensarmos sob o ponto de vista sociológico, em que a família é o primeiro núcleo de sociedade ao qual somos apresentados, abalos aí, nesta base, comprometem toda a estrutura sobre a qual a nossa sociedade é estruturada, comprometem principalmente a nossa ideia de civilização como a linha que separa o animal humano da barbárie. Admiro os filmes que me colocam para pensar nessas questões. São instigantes, provocadores na medida em que nos levam a reavaliar conceitos. Sem pretenções de construir uma crítica especializada, meu envolvimento passional com os filmes não permite tal reflexão, daí ter desistido de virar “crítica de cinema” na estrita tradução, o que posso dizer de mais técnico sobre O menino do pijama listrado é que o filme tem uma fotografia que nos remete à década de 40 do nazi-fascismo alemão. A luz é muito limpa, as cores esmaecidas, como que envoltas em camadas discretas de cinza. Mais do que as roupas e carros de época, o que nos transporta para a Berlim nazista é a cor e a luz. O roteiro também é enxuto, sem grandes dramatizações, é um cotidiano de 70 anos atrás, envolto em situações que se por um lado tiveram repercussões mundiais até hoje, por outro também foi marcado por centenas de tragédias familiares. Os atores, principalmente as duas crianças protagonistas, são de uma correção e de uma entrega aos seus papeis que poucas vezes vi em meninos tão pequenos. Parecem anjos caídos em meio ao caos. O olhar dos dois é qualquer coisa de desconcertante. E ambos têm só oito anos! Os atores adultos, de forma muito digna, se colocam na posição de coadjuvantes para que aquelas duas crianças conduzam a narrativa. O filme me emocionou, mas foi uma emoção diferente, uma emoção que nasce do eterno desejo humano de contrariar o destino, mesmo quando ele teimosamente recusa-se a mudar.

o menino do pijama listrado 2Uma sinopse: O menino do pijama listrado conta a história da amizade entre Bruno, filho de um comandante da elite nazista, diretor de um campo de concentração, e Schmuel, um menino judeu prisioneiro neste campo. Os dois tem oito anos e até antes da insensatez da guerra, levavam vidas muito parecidas, o que fica claro pelos contrastes sutis nos diálogos das crianças e na própria realidade do campo e da casa de Bruno. O campo aliás, só aparece com contornos indefinidos, visto pelos olhos de Bruno, que a princípio, acredita que o local visto da janela de seu quarto é uma fazenda onde vivem fazendeiros estranhos, que passam o dia vestindo pijamas. A dureza do lugar é revelada aos poucos, quase como um jogo de esconde-esconde, em que Bruno aos poucos compreende a natureza do trabalho de seu pai. Um dado histórico muito interessante do filme é a utilização de trechos de um antigo filme de propaganda nazista, rodado em 1941, que mostrava os campos de concentração como beneméritas cidades construídas por Hitler para presentear os judeus, onde eles viviam felizes na sua segregação. Era esse tipo de filme que passava nos cinemas alemães, numa forma de convencer a classe média do país de que a “higienização” proposta pelo III Reich era benéfica para todos. Algo muito semelhante ao que ocorreu no final da escravidão negra e do processo de colonização, quando surgiam teorias racistas defendendo “a devolução dos negros à África, onde viveriam felizes entre os seus”. A Libéria é um dos países resultantes deste processo. E acreditar que “devolver os negros à África” após quase 400 anos de tráfico de seres humanos, enfim, é de uma insensatez assustadora.

Advertisements

34 thoughts on “O menino do pijama listrado”

  1. Olá Andreia Santana, sou estudante de ensino médio e estamos trabalhando em cima desse filme, que por sinal é ótimo…
    Andreia Santana eu estou fazendo uma análise sobre o filme, você acredita que eu deva fazer a análise dele em um todo ou devo focar em algum aspecto, para ter um bom resultado??

    1. Olá, Angela
      Sou jornalista e não professora. E o blog é uma página pessoal, onde publico textos próprios, resenhas de livros e comentários de filmes. Acredito que a melhor pessoa para quem você deva perguntar de que forma estruturar seu trabalho escolar seja para sua professora, pois ela sabe exatamente qual o objetivo em pedir a vocês uma análise deste filme. Abs e boa sorte!

  2. quando vcs vam fazer o tro menino do pijana listrado porque eu quero ver ele dinovo ta faz o 02 como comtinuacao do filme eu amei ele e muito driste mais vale apena assistir ta pense no que eu ti falei ttchal muuuuuuuuuuuuuuuuuuuitoooooooooooooooooooooosssssssssssssss BBBBBBBBBBBBBBBBBBBbeijos

    1. Oi Talita,
      O filme é baseado em um livro que não tem continuação. Não é uma série, é um único romance sobre a infância e a perda da inocência durante a II Guerra Mundial. Acredito que o estúdio não irá fazer continuação se o autor do livro já encerrou a história. Abs!

      1. uma pergunta e eu quero uma respasta???
        vc que fez o livro me responda ??? porfavor andreia santana vc e parente do luan santana:

      2. Olá Talita,
        Não sou parente do Luan Santana, nem o conheço, na verdade não tenho nenhuma relação com artistas, sou jornalista e o sobrenome santana é um dos mais comuns do Brasil, então existem milhares de santanas no país, não é exclusividade desse cantor. E também não fui eu quem escreveu “O menino do pijama listrado”, eu fiz apenas uma resenha comparativa entre o livro e o filme aqui no meu blog, o autor do livro – e o filme é uma adaptação do livro – é o escritor John Boyne. Abs!

  3. Esse Filme é sem explicação. Um dos melhores que já essisti, sou professor e trabalhei com ele essa semana na escola, relatando os conflitos entre civilizações e a II Guerra Mundial. É ótimo e comovente, eu recomendo.

  4. Olá, sou Ivanderson Pereira, professor universitário aqui em Maceió-AL.
    Assiti este filme hoje colega!
    Realmente, não esperava por este final…
    Fiquei impressionado. Não consegui dormir, pensando insistentemente no que foi o holocausto.
    Já li bastante sobre o tema, e já assisti a alguns filmes sobre o tema. Mas nenhum deles me tocou tanto quanto O menino do pijama listrado.
    Realmente é um filme que não deve faltar enquanto material didático para professores que desejam abordar o tema.

    Parabéns pelo post colega!
    Um forte abraço!

    ivanderson@gmail.com

Os comentários estão fechados.