Cinema, Crônicas, Ensaios

A violência “gratuita” do bastardo Tarantino

Tarantino em atitude "paz e amor"
Tarantino em atitude “paz e amor”

Muito já foi escrito sobre Bastardos Inglórios, desde análises detalhadas do filme até opiniões e críticas especializadas. No entanto, como ainda não meti minha colherzinha, vou aproveitar uma frase ouvida na saída do cinema, esta semana, para também dar meus pitacos. “Esse cara deve ser maluco, que violência gratuita e desnecessária!”, foi o que escutei de um casal no final da projeção. A frase voou em minha direção, o casal andava atrás de mim. Fiquei matutando nisso e na ideia geral sobre os filmes de Quentin Tarantino:  de que eles fazem apologia e banalização da violência. Discordo. O que Tarantino faz – pelo menos da forma que vejo a coisa – é mostrar o quanto somos violentos na essência e o quanto isso não é nenhum mérito. Na maioria das vezes, o diretor ironiza a nossa sede de sangue e mostra que o homem que criou para si mesmo o título de sábio duas vezes (sapiens sapiens) não passa é de um bichinho mesquinho, sádico, sanguinário e cruel. Os filmes do diretor trazem a violência explícita em diversas situações, das prosaicas (Grande Hotel) ao submundo (Cães de Aluguel e Pulp Fiction), passando pelos eventos históricos (Bastardos Inglórios é ambientado na II Guerra, embora o conflito mundial seja o pano de fundo para o verdadeiro protagonista da história, a crueldade humana e o desejo de vingança). Mas, vivendo na sociedade em que vivo, conhecendo um pouco de história, de ler coisinhas aqui e ali, me recuso a aceitar que Tarantino faz apologia disto ou daquilo. Antes, o vejo como uma espécie de cronista. Historicamente, os cronistas eram aqueles viajantes que chegavam numa terra estrangeira, observavam os costumes, retratavam as situações, com tintas e pinceis ou com palavras, tal qual as viam. Obviamente, por se tratar de pessoas observando pessoas, um pouco da bagagem cultural e da visão de  mundo desses cronistas – a subjetividade de estar no mundo – pontuavam os relatos. Tarantino é o cronista da violência. Homem de seu tempo, americano criado em uma sociedade que cultua as armas de uma forma obssessiva e certamente erotizada, que Freud e Lacan explicam melhor que eu. Crítico dessa mesma sociedade, ele se volta para o submundo, para os desajustados, para mostrar que o nonsense, a agressão gratuita, o limite tênue entre defender e atacar, estão tão arraigados no ser humano, que mal percebemos. E não é mérito dele, outros diretores, o mestre Hitchcock, outros escritores, Kerouac, Bukowski, os irmãos Grimm no século XIX (leiam os contos originais e me digam se furar os olhos de uma madrasta é coisa de Cinderela boazinha) antes de Tarantino, também retrataram a violência do seu tempo. Não serviriam esses filmes apenas para nos mostrar o quão ridículos somos enquanto sociedade? E a violência foi inventada por Tarantino, por acaso? As guerras da antiguidade eram todas muito civilizadas, obviamente. O que o diretor cultuado por uns, vilipendiado por outros, faz é pintar o quadro com cores mais vivas, vermelho sangue, quente, vivo, e brincar com as obsessões humanas e com a teoria da evolução das espécies: “o mais forte sobrevive” numa banalização do darwinismo, que também não é mérito dele. Para desgosto de Darwin, sua teoria serve para explicar as ideias mais absurdas sobre supremacia racial! Na visão de Tarantino, somos eternamente crianças contrariadas destruindo os brinquedos. É uma violência estética, plástica, modelada para parecer bonita. Talvez por isso, seja mais fácil percebê-la, como o casal na saída da sessão de Bastardos Inglórios, tão chocado, coitado. Talvez por isso, essa violência tarantiniana provoque náuseas, enquanto a violência real, esfomeada, suja, no saci do crack, desgrenhada, desesperada, que cruza conosco diariamente nas ruas de Salvador ou de qualquer outra rua do país ou do mundo, já não incomoda mais. Essa, infelizmente, já se banalizou de tal forma, que incorporou-se à paisagem.

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Três vezes Tarantino, em estéticas diferentes da violência:

Bastardos Inglórios

bastardos-inglorios-536-03O filme, bem no estilo Tarantino, é uma colcha de retalhos sobre diversas situações ambientadas na II Guerra, precisamente em 1941, cujo ponto de alinhavo é um grupo de soldados comandados por Aldo Raise, Brad Pitt com um impagável sotaque de cowboy, e formado por jovens judeus radicais com um único desejo: matar nazistas. Qualquer semelhança entre o grupo dos Bastardos e os fundamentalistas islâmicos, os homens-bomba, não é mera coincidência. O grupo de oito intrépidos “terroristas” tem a intenção de eliminar, numa rajada só, todo o alto comando do III Reich, inclusive seu líder, Adolf Hitler. A inversão da lógica, a vítima se transforma em algoz, é levada ao extremo no filme. Principalmente  através da jovem judia Soshanna, cuja família foi chacinada pela Gestapo. Quatro anos depois, sob a falsa identidade de Emanuelle Mimieux, Soshanna arquiteta um plano sinistro: botar fogo em um cinema lotado de nazistas durante a premier de um dos filmes de propaganda de Goebells. Geralmente, ao tentar defender-se, a vítima  destila um sentimento de vingança com poder de destruição maior até do que os próprios “vilões” da história. Em certos momentos, tamanha  a dor sofrida, essa sede toda de sangue é compreensível, mesmo que na prática o lado racional mande resolver as coisas de outra forma. Por mais que a máxima violência gera violência seja verdadeira, também é verdadeiro que matar (caçar) é um prazer de todo predador (não é a toa que o ser humano está no topo da cadeia alimentar e faz as misérias que faz com o planeta). Cada vez mais na vida real a historiografia mostra que não somos santos ou demônios, mas em dados momentos, sob determinadas circunstâncias, a depender do grau de pressão ou dor sofrida, podemos oscilar entre os dois papeis. O cinema, desde a sua origem, é um espelho da realidade e o cinema de Tarantino não é diferente.

Kill Bill – Volumes I e II

KillBillVol1.1Quem não torceu para que a noiva interpretada por Uma Thurman em Kill Bill conseguisse finalmente cumprir todos os itens da sua lista de vingança, que atire a primeira pedra. Impossível não ansiar por vingança, pela catarse promovida pelos golpes de espada samurai. Cinema é catarse coletiva desde sempre. Sair por aí matando todos aqueles que nos ofendem é doença, psicopatia, mas o desejo de vingança, mesmo quando não expressado, existe dentro de toda alma humana, pelo menos é assim que Tarantino vê a coisa. O filme, os dois volumes são um filme só, conta a história de uma ex-assassina de aluguel, Uma Thurman, que num dado momento, desiste da vida bandida para se casar e levar uma vida “normal”. No dia do seu casamento, o noivo, toda a sua família, padre, coroinhas  e quem mais estava na igreja, são chacinados pelo antigo grupo da ex-assassina, que passa quatro anos em coma. Antes do atentado, a personagem estava grávida. Quatro anos depois, ela acorda e inicia um roteiro de sangue para se vingar de todos que mataram o seu bebê. A violência em Kill Bill habita o submundo, tal qual em Cães de Aluguel e Pulp Fiction e parece  ao mesmo tempo distante (coisa de mafiosos) e próxima (maternidade, traição afetiva) do mundo aqui fora.

Grande Hotel

grande hotelSó um dos episódios de Grande Hotel, o último, é escrito e dirigido por Quentin Tarantino, aqui em início de carreira. Neste curta dentro de um longa formado por vários episódios, um recepcionista de hotel, vivido por Tim Roth, enfrenta uma noite de agruras em um decadente hotel que já viu dias melhores. O episódio de Tarantino junta a metonímia – o próprio diretor atua no filme no papel de um diretor que acaba de lançar seu filme super cool, alcançando o estrelato -, com situações bizarras, mas perfeitamente possíveis num mundo cada vez mais sem referências, em que a diversão, principalmente entre os mais ricos, flerta cotidianamente com a perversão. No quarto do tal diretor famoso, em uma noite de réveillon, o personagem de Tim Roth tem de servir o jantar. Ao chegar ao quarto, porém, encontra o diretor e seus amiguinhos do jet set totalmente embriagados e brincando numa espécie de roleta russa que envolve armas brancas como um machado de trinchar carne. Envolvido no “joguinho” e já sob a pressão de ter sobrevivido a uma noite infernal, descrita nos outros episódios de Grande Hotel, o recepcionista está a beira de um ataque de nervos. De um homem assim, ainda mais segurando um machado, pode-se esperar tudo…

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12 thoughts on “A violência “gratuita” do bastardo Tarantino”

  1. Ô, Deus, eu disse justamente que a violência de desenho animado não é violência, mas, enfim. Eu vou ao cinema para ver tudo, forma, entretenimento e dramas humanos também, mas não obrigatoriamente. Até porque justamente grandes mestres dessa arte passaram ao largo desses “dramas humanos”, de boa parte de Hitchcock a Buster Keaton. Cinema é muito mais que isso, dramas e conclusões.

    Mas, enfim, voltando à violência, topei por acaso agora com uma frase genial de Godard que não conhecia, e meio que resume essa história toda: “Não existe sangue no cinema; existe vermelho”.

  2. Beto e Saymon,
    Como sempre, é extremamente gratificante debater com vocês dois, amigos que conheço em contextos diferentes, mas que admiro bastante. Aprendo muito, principalmente a analisar uma questão sob diversos ângulos, senão todos os possiveis. Vocês contribuem pra navegação nesse mar de histórias ser sempre uma viagem inesquecível. Beijos!

  3. Oh, Saymon, ou seria Seimon, não vejo diferença entre a violência do telejornal e a vista no cinema, afinal nenhum dos dois é, para mim, entretenimento. Vou ao cinema assistir dramas humanos e tirar deles alguma conclusão. Não tenho desenhos animados como referências da violência humana. Respondendo a sua pergunta, sou um pássaro.

  4. Mas o ponto é justamente a referência: para Tarantino ela vem de outros filmes. Ele não vê o real para torná-lo farsesco: vê outros filmes. Cada pecinha, mesmo que não seja diretamente referencial, é criada a partir de um universo que já é originariamente ficcional.

    Talvez esses filmes de que ele se apropria tenham uma âncora na realidade, mas aí o real para QT é, no máximo, uma referência longínqua, de segunda mão. E talvez por isso sua violência seja tão indolor.

  5. É que para mim Saymon, não existe cinema por ele mesmo. Uma coisa sempre terá de partir da outra para existir, mesmo que seja tão modificada a ponto de você não reconhecer mais um traço de realidade ali. O cinema parte do olhar (a imagem nasce do que os olhos captam e do que o cérebro lê), de vários olhares, sejam eles lineares, ou distorcidos, modificados, o sonho parte do olhar – das coleções de memórias de cada um de nós. É a imagem em movimento não é? É preciso ter visto alguma coisa,de alguma forma, para torná-la farsesca. É preciso alguma referência para imaginar, a imaginação não se cria diante do nada, porque ela não se sustentaria, é como mandar uma criança que nasceu cega imaginar as nuvens sem que vc tenha sequer descrito para ela como são e com o que se parecem as nuvens. Papa léguas, pernalonga, com toda a sua farsa, partem de algum traço do real, mesmo que mínimo, para alcançar o sonho, porque nada se cria do nada. Mesmo que a intenção de tarantino não seja fazer o oposto dos telejornais, ou nos fazer pensar na violencia real a partir da violencia fake que ele cria, ao ver os filmes dele, eu enxergo o contraste, atribuo sentido ao que vejo. Talvez ele só ache o vermelho sangue bonito e queira brincar com isso e somos nós é que fazemos a leitura da obra dele e que supomos que ele foi motivado por isso ou aquilo. De qualque forma, não concordo com a afirmação de que a violencia na obra dele é banalizada e gratuita. Banalizada tem sido a violencia aqui fora, a dele chama atenção justamente por brincar com algo que do lado de fora da tela tem contornos infinitamente mais trágicos. Particularmente eu admiro muito essa capacidade dele de contrastar. Repito, tarantino daria uma tese e tanto, se é que ninguém vez ainda. Fica a ideia para quem quiser se aventurar, rsrsr.

  6. Mas, Turbina (será vc um pássaro, um avião?), Tarantino não está mesmo nem aí para essa violência que existe no dia a dia do planeta Terra. Tanto que o efeito do que vemos nos filmes dele é completamente diverso do que vemos no telejornal: em vez da repulsa, encantamento, o mesmo encantamento de uma coreografia de dança ou de luta.

    Andreia, não acho que ele estetiza algo que repudiamos. Na verdade, ele nem parte do real para estetizar, não usa a vida como espelho pro cinema. O espelho do cinema é ele mesmo. A violência dos filmes dele é tão outra que merecia ter outro nome, só para que não a confundamos com a da vida real.

    Tarantino é tão violento quanto um episódio do papa-léguas ou do pernalonga. Ou seja, não é violento mesmo, não no sentido real. Sua brutalização é sempre 100% farsesca, irreal.

  7. Oi Beto,
    Acho que o que Saymon quis dizer é que Tarantino não é crítico quanto a violência que mostra na tela, que para o diretor a violência é só um elemento estético, um elemento da linguagem cinematográfica, da construção da narrativa. Eu, particularmente, acho que essa construção plástica da violência explicita dos filmes dele é proposital, mas não só do ponto de vista estético (pode até ser que ele faça isso de forma inconsciente ou que ele seja mais crítico do que aparenta). Para mim, é como um contraste com a violência real, essa que todos vivemos, pressentimos, essa que nos deixa paranoicos e que nos rodeia. Tanto que, tenho a teoria de que a violência nos filmes de tarantino choca porque é bonita e porque de certa forma, quem vê os filmes dele acha essa violência atraente (talvez pq pareça irreal). A consciência dele, mesmo que como artista, pode vir justamente daí, de incomodar por estetizar algo que racionalmente todos condenamos, embora instintivamente esteja arraigado na nossa espécie. As pessoas se chocam com o que sentem pelos filmes dele, se chocam em se descobrir tão sedentas de sangue. De certa forma, somos condicionados desde o berço a relegar nossos instintos e a violência, seja para se defender ou para atacar, é instinto básico, primitivo. Enquanto a violência de Tarantino dá nojo, a violência real, para boa parte da nossa sociedade deve ser escondida embaixo do tapete, vide as bolhas que são os condominios de altissimo luxo, cercados de favelas para todos os lados, sendo que o Estado, como vc diz tão bem, é quem pratica a violência maior, pq aliena e incentiva a segregação a partir de politicas desiguais. Tarantindo rende uma tese, se é que ninguém fez nenhuma ainda.

  8. Olá, Andreia. Acabamos de descobrir, através do post de Saymon (será ele norte-americano) que a violência é uma ficção,invenção de esquerdopatas, como eles dizem. A vida no Planeta Terra é uma festa constante, numa eterna Miami.

  9. Olha, eu tenho minhas dúvidas que a violência seja mesmo um elemento de interesse para Tarantino. Violência para ele só existe no cinema (sua obra só existe metalinguisticamente), e esses tiros todos cumprem uma função apenas cinematográfica, como a dança nos musicais, ou as lutas suspensas nos filmes de kung fu. Não acho que ele seja crítico em relação a isso: é só mais uma pecinha em seu tangram de cinema que ele monta de diversas formas.

  10. Exatamente Beto! Seu comentário é um complemento fabuloso para o post: violência maior, quem pratica é o Estado, sem dúvida.

  11. E a violência praticada pelo Estado, especialmente o norte-americano (pátria de Tarantino) não é violência estúpida, que deve ser condenada tanto quanto a engendrada no submundo? Se existe uma violência gratuita esta é praticada pelo braço armado do Estado. Tarantino só mostra as consequências dessa barbárie, disfarçada de ordem. Assistam “Meu ódio será sua herança” de Sam Pechipah e vejam um dos mestres de Tarantino em ação. Não é a toa que a polícia nunca aparece nos filmes desses cineastas.

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