Ensaios, Filosofia

Refletindo sobre a solidão tecnológica

Li uma reportagem bem bacana na Super Interessante de maio chamada Solidão Impossível. O texto é do repórter Emiliano Urbim e trata sobre o advento das novas tecnologias e do quanto estamos nos tornando dependentes da conexão 24×7 (24 horas, 7 dias na semana), ininterruptamente plugados em tudo, em qualquer lugar. A matéria aborda desde os clássicos e-mail e msn, até o twitter, uma velha novidade da web. Se por um lado, graças a todos esses aparatos ninguém mais precisa ficar sozinho, pois as fronteiras encolheram e até diluíram-se como diz a pesquisadora Lúcia Santaella, por outro, existe uma geração que para os especialistas em ciências humanas está desaprendendo o valor da reflexão, daquele minuto de silêncio, do eu comigo mesmo, necessário, ainda do ponto de vista psicológico e psicanalítico, para a estruturação do individuo.

Embora reconheçam que fugir da solidão é uma característica inata da espécie, humanos são animais gregários por natureza, psicólogos e outros estudiosos da vida em sociedade e da identidade se preocupam com o fato de, com o excesso de informação e com a ânsia por não perder nem um segundo do que acontece no mundo, estejamos caminhando para uma sociedade sem senso crítico e capacidade seletiva. Percebo em algumas pessoas, por exemplo, uma superinformação, como verbete de enciclopédia, mas a incapacidade de aprofundar uma análise para além da superficialidade descritiva dos verbetes, como um dicionário, cheio de conceitos, mas sem conteúdo analítico.

Lógico que ninguém está defendendo o fim das novas tecnologias ou o retorno ao mundo bucólico anterior a II Guerra, nem tão bucólico assim se formos reparar bem a história. Mas o que se prega é um uso sábio de tanta tecnologia. Será que realmente precisamos “preencher cada segundo das nossas vidas com a presença virtual do outro”? Para William Patrick, autor de Loneliness (ainda não publicado no Brasil): “Solidão é um sentimento aversivo que motiva você a fazer algo que é crucial para a sobrevivência – conectar-se com os outros”. No entanto, outro especialista, John Caccioppo, psicológico da Universidade de Chicago, adverte: “Somos programados para buscar convivência, tanto faz se real ou virtual – a príncipio, nosso cérebro considera as duas a mesma coisa. Mas, se a socialização online substitui o contato humano verdadeiro, solidão e depressão podem surgir”.

Parece um paradoxo e é. Na contemporaneidade, somos mais bem informados e preenchidos com a presença virtual do outro, mas somos mais sozinhos e tendemos a saber cada vez menos lidar com a ausência. Há até quem chame essa convivência virtual de lanchinhos sociais (social snacking).

Ainda segundo a reportagem da Super, a preocupação com o desenvolvimento da capacidade humana em estar só é tão antiga quanto a busca por avanços tecnológicos. Nos anos 50, o americano Winnicot já escrevia sobre a capacidade de lidar com a solidão, característica que demostrava desenvolvimento emocional, algo que adquirimos ainda na primeira infância, quando descobrimos que nós e as nossas mães somos seres diferentes. Nesse caso, é Lacan quem explica.

Uma geração incapaz de desenvolver a introspecção é emocionalmente imatura e socialmente alienada, dizem os mais radicais. Sem pesar tanto nas tintas, não deixa de ser preocupante o comportamento de uma geração inteira que desconhece o sentido e a riqueza de tempos em tempos, de ficar desconectado.

Por outro lado, será que não é dessa geração ligada na tomada que o mundo atual precisa? Ou, transpondo as teorias de transculturação e transnacionalidade, a dupla consciência de que fala Paul Gilroy, para a esfera da cibercultura, talvez na diversidade do mundo haja sempre espaço para os dois tipos de pessoas: os eternamente conectados e os introspectivos.

Vale pensar no assunto…

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