Elas testemunharam a II Guerra: Olga Benário

Cena do filme Olga, 2004, direção de Jaime Monjardim. Camila Morgado em cena da execução de Olga Benário na câmara de gás

Cena do filme Olga, 2004, direção de Jaime Monjardim. Camila Morgado "revive" episódio da execução de Olga Benário na câmara de gás

Uma boa pesquisa na internet proporciona um arsenal satisfatório de informações sobre Olga Benário, o suficiente para montar mais uma peça do complexo quebra-cabeças que é a história da II Guerra Mundial. Meu primeiro contato com Olga, porém, aconteceu muito antes de sequer sonhar em navegar na web, muito menos em manter um blog. Devia ter uns 12, 13 anos, quando minha mãe comprou uma coleção da Record das obras completas de Jorge Amado. Essa coleção ainda existe aqui em casa, capa dura branca com a lombada vermelha e os títulos das obras em dourado. Um título em especial me chamou atenção: O cavaleiro da esperança. Na ingenuidade típica da idade, achei que era alguma obra sobre os cavaleiros medievais, daqueles que eu via na Sessão da Tarde na tv. Era a biografia de um brasileiro chamado Luis Carlos Prestes. Apesar do tom militante do romance – um pouco complexo para alguém de 13 anos -, na época em que foi escrito Jorge Amado era membro do Partido Comunista, o livro acabou se revelando muito útil, principalmente quando comecei a estudar a Coluna Prestes, nas aulas de história do Brasil. No mínimo servia para impressionar meus professores: “essa menina já leu a biografia de Prestes!”. Confesso que o fato de meu avô ter uma foto de Prestes na parede da sala (segundo conta minha mãe) estimulou minha curiosidade. Mas, eu me encantei mesmo foi por Olga. Lamentei o fato dela ser apenas um pequeno detalhe na vida do militante brasileiro. Jorge Amado não estava interessado em falar dela, mas dele. No entanto, seu livro atiçou minha curiosidade. O acesso à internet era muito mais complicado na minha adolescência (algo impensável para o meu filho, por exemplo) e as bibliotecas não ajudavam muito. Minha curiosidade sobre Olga teria de esperar. Pelo menos uns dois anos depois de conhecê-la através da biografia de Prestes, uma colega de trabalho de minha mãe emprestou a ela “Olga”, o livro de Fernando Moraes, escrito em 1985, que apresenta aos brasileiros quem de fato era essa mulher. Na maturidade, vi o filme de Jayme Monjardim, uma superprodução nacional que atraiu milhões de expectadores aos cinemas. Com algumas cenas belas e até comoventes, mas no geral, uma novela das 21h em película. Achei Camila Morgado, atriz que interpreta Olga no filme, masculinizada demais. Na obra de Fernando Moraes, embora seja uma “camarada” militante e com missões a realizar em nome do seu partido, Olga não deixa de ser feminina, de ser mulher, de ser humana. Ela é uma das testemunhas e vítimas da Segunda Grande Guerra que gostaria de apresentar a vocês nas linhas abaixo.

Olga Benário na adolescencia

Olga Benário na adolescencia

Judia, comunista e alemã. Os dois primeiros adjetivos certamente indispunham Olga Benário com o regime nazista do III Reich. O fato de ser alemã talvez justifique porque no Brasil, sua história dramática só começou a vir à luz após o livro de Fernando Meireles. Lembro deliciada das descrições que o autor faz do cotidiano da sua biografada. Uma cena para mim é emblemática, quando ele conta que já prisioneira dos nazistas, esperando a hora da execução em um campo de concentração, Olga estimulava outras mulheres a fazer ginástica e a se cuidar da melhor forma possível, dadas as difíceis condições do cativeiro. Ela as incentivava dizendo que quando saíssem daquele inferno, seus familiares, filhos, maridos, iriam querer vê-las bem, em forma. Talvez um comportamento estóico, ela era um soldado treinado para suportar o que quer que acontecesse, diriam os admiradores da Olga revolucionária. Eu, particularmente, embora reconheça o valor da militante naquele contexto de sociedade em que ela vivia, prefiro interpretá-la sob a luz de valores universais e completamente humanos: solidariedade, o ato simples de dar esperança ao seu semelhante mesmo nas situações mais adversas. É por isso que gosto tanto do livro de Moraes. Ele humaniza Olga, mostra que havia uma pessoa capaz de amar e de se sacrificar em uma época em que, por alguns anos, a crença na humanidade tinha abandonado esta terra.

Alguns dados biográficos – Olga Benário, no Brasil sempre se referem a ela como Olga Benário Prestes, nasceu em Munique, em uma família de judeus alemães, em 1908. E morreu em 1942, na câmara de gás do campo nazista de Bernburg. Aos 15 anos, entrou para a juventude comunista. Após uma missão de salvamento para libertar seu companheiro na ocasião, Otto Braun, foi para Moscou receber treinamento militar pesado. Conheceu Prestes numa missão. Em 1934, ela teria de garantir que Luis Carlos Prestes chegasse são e salvo ao Brasil, onde seria o líder da Intentona Comunista, revolução ocorrida em 1935, mas que acabou fracassando. Tinham de fingir que eram marido e mulher, um casal comum viajando juntos. Os dois, lógico, jovens, idealistas, cheios de energia para tentar mudar o mundo, se apaixonaram. Com o fracasso da revolução, foram presos e o julgamento de Olga é um dos muitos episódios tristes da nossa história, sem dúvida. Grávida de sete meses, após suscessivas tentativas de seus advogados de garantir sua permanência no Brasil, ela foi extraditada para a Alemanha nazista. Sua filha com Prestes, Anita Leocádia, nasceu na prisão feminina de Berminstrasse, em 1936. Era nessa prisão que Olga estimulava as mulheres a fazer exercícios e dava aulas para aquelas que não tinham instrução. A mãe de Prestes, dona Leocádia, vivia outra batalha judicial para tentar trazer o bebê Anita de volta. Ela também queria a liberdade do filho e da nora. Mas o destino de Olga era quase impossível de mudar. Por ser judia, fatalmente já morreria no campo de concentração. Por ser militante política de um partido que combatia o Reich, as chances de execução só triplicavam. Além do anti-semitismo de Hitler, havia a “traição política”. Na Alemanha nazista, é bom que fique claro, ou você aderia ao partido do führer ou era contrário a ele e seria perseguido por isso, não havia meio termo, mesmo para os alemães “legítimos”. Anita Leocádia permaneceu com a mãe por 14 meses, enquanto era amamentada. Depois, foi entregue à avó brasileira. Olga foi transferida para o campo feminino de Ravensbrück e de lá para o campo de extermínio de Bernburg, onde morreu aos 34 anos.

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Para saber mais sobre Olga Benário:

Olga – biografia
Autor: Fernando Morais
Editora: Companhia das Letras, reedição de 2005
314 páginas
média de preço: R$37,90 (americanas.com)

Olga – filme
Gênero: Drama
Lançamento: 2004
Direção: Jayme Monjardim
Roteiro: Rita Buzzar
Elenco: Camila Morgado (Olga Benário), Caco Ciocler (Luís Carlos Prestes), Fernanda Montenegro (Dona Leocádia Prestes)
Luis Mello (Leo Benário), Eliane Giardini (Eugénie Benário)…

Luiz Carlos Prestes e Olga Benário
Estudo acadêmico sobre construções identitárias através da história e da literatura
Disponível no site da biblioteca virtual Universia (em pdf, exige cadastro prévio, gratuito)

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Para saber mais sobre a II Grande Guerra:

>>Mulheres em tempos de guerra – moda e comportamento das décadas de 20 a 50 (arquivo em pdf)

>>O nazismo, a II Guerra e uma mulher contra Hitler – artigo sobre cinema e a guerra

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