Elas testemunharam a II Guerra

Aviadora russa durante a II Guerra

Aviadora russa durante a II Guerra

Meu interesse pela II Guerra Mundial data da época da escola e das aulas de história. Me comovo com os dramas pessoais vividos durante o conflito. Já tive a oportunidade, como repórter, de compartilhar das lembranças de ex-pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FAB) e dos oficiais da Marinha que precisavam vigiar a costa contra possíveis ataques de submarinos inimigos. Sim, tivemos batalhas navais em plenos século XX, na costa brasileira! Prometo contar para vocês essa história em outro post. O que me emociona na II Guerra talvez seja o mesmo que emociona tantas outras pessoas: ainda existem sobreviventes. A guerra é recente, tem 70 anos, menos anos de vida que a minha mãe. Fiquei pensando no conflito e percebi que, ao longo da minha vida como repórter, entrevistei muitos homens que tinham histórias dramáticas para contar, outros que tinham lições de companheirismo, mas a versão das meninas, essa eu só li em livros. No entanto, como mulher, sei que as meninas sofreram muito com a guerra, fossem judias ou não, todas as moradoras dos países invadidos pelo nazi-fascismo sentiram na carne a barbárie de um exército inimigo, de seres humanos embrutecidos atacando outros seres humanos. Elas perderam filhos e tiveram de chorar sobre seus corpos em cidades dilaceradas. Perderam os maridos, irmãos, a dignidade, uma vez que muitas sofreram estupros e violência física e psicológica. Durante breves, porém cruéis seis anos, perderam o referencial de nação. Existem alguns relatos famosos que contam o que significava ser mulher em plena vigência do III Reich. A maior parte dos relatos que nos chega pelos livros são das moças judias, lógico, não se apaga da história o massacre de 6 milhões de pessoas. Bem como não dá para apagar os 10 milhões de africanos expatriados – e assassinados – durante a escravidão colonial. Mas, me pego pensando nas outras, naquelas cujas histórias não sobrevivem nos livros. Brancas ou negras, judias ou cristãs, todas que eram vivas entre 1939 e 1945 tem um fato de suas vidas ligado ao conflito, mesmo quem não morava exatamente no epicentro do combate. Até aqui na Bahia, a “carestia” (inflação) diminuia a comida na mesa. As mães dos pracinhas temeram por seus filhos e muitos deles não voltaram. Penso ainda nas alemãs – é importante deixar claro que nem todos os alemães eram colaboradores simpatizantes de Hitler, eles viviam uma ditadura cruel, com todo o peso que a palavra ditadura carrega -. Fico me perguntando como teria sido a vida comum das mulheres durante a guerra? Privadas de tudo, porque faltava desde roupas e cobertores até o essencial, comida. Sozinhas em cidades esvaziadas de homens e numa época dominada pelos homens. A lógica das guerras é cruel, em qualquer tempo, os homens saem para combater nos campos e as mulheres travam um combate doméstico que inclui defender a si mesmas, aos filhos pequenos e aos pais idosos, da fome, das privações e do assédio dos soldados inimigos em cidades ocupadas e saqueadas.

Costureiras preparam uniformes durante a II Guerra

Costureiras preparam uniformes para os soldados nos campos de batalha da II Guerra

Nesta terça-feira, dia 01 de setembro, completam-se exatamente 70 anos do início da II Guerra Mundial. Neste dia, há 70 anos, a Polônia foi invadida pela Alemanha, dando início ao conflito. Em honra da memória das mulheres que viram a guerra acontecer, o blog inicia uma série de posts, ao longo da semana, em que fará um pequeno perfil das personagens femininas mais emblemáticas do conflito: Olga Benário, Anne Frank, Eva Brawn (a amante de Adolf Hitler), Liesel Meminger (personagem ficticia do livro A menina que roubava livros, de Marcus Zusak) mas que foi inspirada nos relatos da avó e da mãe do autor, duas mulheres comuns na Alemanha nazista. Infelizmente, não temos como “biografar” todas as mulheres que participaram da guerra. Fica a dica para os historiadores aprofundarem o tema do olhar feminino sobre o conflito, mas tentaremos ao menos falar do destacamento de afro-americanas que foram trabalhar no front, nos Correios, permitindo que a comunicação, a primeira afetada durante as guerras, mantivesse nas pessoas o espírito de humanidade. Não podemos esquecer de citar também Hanna Arendt, embora ela não entre na série, porque muita gente boa já escreveu sobre ela. Além disso, a série tentará lembrar que as mulheres anônimas que testemunharam o horror, ao contrário do que muita gente pensa, não foram apenas espectadoras. As russas, por exemplo, pegaram em armas (vejam essas fotos). Para terminar, pretendo também indicar livros de ficção ou reais que ajudam a compreender o conflito; filmes que retratam o período e claro, cumprir minha promessa sobre as lembranças dos ex-pracinhas, abrindo espaço para as memórias dos meninos. Espero que gostem desta semana dedicada à história aqui no blog. Mas principalmente que, ao lembrarmos a II Guerra, não sejamos presas do rancor passado, mas apenas tenhamos nesse flagelo um exemplo do que não devemos jamais repetir na trajetória humana sobre a terra. Encontro vocês amanhã, com o perfil de Olga Benário, a judia e militante comunista que foi companheira do brasileiro Luis Carlos Prestes e morreu em um campo de concentração nazista.

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Para ir aquecendo sobre o tema:

>>Mulheres em tempos de guerra – moda e comportamento das décadas de 20 a 50 (arquivo em pdf)

>>O nazismo, a II Guerra e uma mulher contra Hitler – artigo sobre cinema e a guerra

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