Autores, Filosofia, Literatura

Para refletir…

“No fim da madrugada, muito além de meu pai e de minha mãe, a choupana rachada e fibrosa, como um pessegueiro atormentado pelos parasítas, o teto precário remendado, com pedaços de lata de óleo diesel, formando poças de ferrugem na pasta cinzenta, sórdida e fedorenta da palha; e quando o vento assovia, esse conjunto disparatado faz um bizarro barulho, inicialmente como um crepitar de fritura, depois como um tição que mergulha na água soltando uma fumaça de fagulhas esvoaçantes. E a cama de tábuas de onde se alevantou minha raça, minha raça toda inteira dessa cama de tábuas, com suas patas feitas de lata de querosene, como se sofresse de elefantíase essa cama, e seu couro de cabrito, e suas folhas secas de bananeira, e seus trapos, uma nostalgia de colchão, a cama de minha avó. Acima da cama, em um pote cheio de óleo, um fifó cuja chama dança como um nabo grosso…Sobre o pote, em letras de outro: OBRIGADO!

(…)

…essa atitude, esse comportamento, essa vida cambaleante apanhada no laço da vergonha e da desgraça, se insurge, contesta-se, contesta, ladra e, valha-me Deus!, quando lhe perguntam:

– Que é que você pode fazer?

– Começar!

– Começar o quê?

– A única coisa no mundo que vale a pena começar: o fim do mundo, p*!”

(CÉSAIRE, Aimé. Cahier d´un retour, p. 56, in FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas, p. 92 e 93)

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