Filmes para ir comentando…Michael Mann

Cumprindo a promessa de “ir comentando nos intervalos da labuta diária”, os filmes que assisti nos meus deliciosos, porém curtos dias de ócio, abaixo começo a série After Vacation. Defendo a teoria de que trabalharíamos muito mais felizes e seríamos, inclusive, bem mais produtivos, se pudéssemos tirar duas férias por ano: uma em janeiro, no auge dos belos e ensolarados dias de verão, para ficar diante do mar, sentindo a brisa leve no rosto; e a outra em julho, no friozinho de meados do inverno, para acordar tarde, comer bastante e não sentir culpa pela preguiça. Nos demais dez meses do ano trabalharíamos duro, pesado, de sol a sol, mas seríamos bem mais saudáveis.

After Vacation – filmes que não deu tempo de comentar durante as férias

Fazendo as vezes de abre-alas da série, duas produções dirigidas por Michael Mann:

inimigos_publicosInimigos Públicos – O filme estrelado por Johnny Depp está em cartaz nas salas de Salvador e foi minha escolha para fechar o ciclo da boa vida. Assisti na última terça-feira, 04, o derradeiro dia das minhas férias. Escolhi a primeira sessão da tarde, às 13h, horário em que os mortais comuns e não em férias estavam ocupados e que os adolescentes soteropolitanos na escola. Nada contra adolescentes, tenho um filho chegando nesta fase dourada da vida, mas eles bem que podiam ser um tiquinho mais silenciosos…e educados no cinema. Confesso também que em se tratando de filme, prefiro a solidão. Quanto menos gente na salinha escura, melhor. Meia dúzia de expectadores, a maioria senhores de meia idade, aposentados, ocupavam suas cadeiras para assistir as aventuras e desventuras do ladrão de bancos John Dillinger (personagem real revivido por Depp, que nos anos 30 deu trabalho ao FBI, sendo muito popular entre o povo, pois roubava grandes instituições financeiras, mas não mexia no dinheiro da arraia miúda. Um Robin Hood dos anos da depressão pós crash da bolsa, mais um anti-heroi simpático para mostrar que na América antiséptica também existe vida pulsante e febril). Michael Mann, com exceção do blockbuster Hancock (que não me dei ao trabalho de assistir, mas pelo trailer já deu para ter uma ideia)  é um diretor pouco dado a excessos, por isso gosto da maioria dos seus filmes: a primeira versão de Dragão Vermelho (1986), O último dos moicanos, Ali, Colateral e O informante, que também comento logo abaixo. Inimigos Públicos trata de uma época que me fascina, os anos 30. Na verdade, meu fascínio vai dos anos 20, pós I Guerra, até meados da década de 40.  Após a II Guerra, com exceção de algumas décadas realmente interessantes, a humanidade ficou menos ingênua e mais cruel, perdeu a graça e o glamour. Michael Mann com Inimigos Públicos retoma a mão firme numa impecável direção de atores. Marion Cotillard, que já havia me comovido em Piaf, está muito bem no papel de Billie, a amante de John Dillinger. A atriz francesa está sempre no tom certo, seja nas cenas dramáticas, seja nas que esbanja sensualidade. Os olhos grandes e expressivos são cativantes. Johnny Depp, que tem uma conhecida capacidade camaleonica de vestir qualquer personagem, encarna a virilidade de Dillinger também na medida certa. Incrível, a aposta de Mann em dar o papel ao ator depois dele ter vivido uma fase de personagens over e marcantes, todos muito bons diga-se de passagem, como o capitão Jack Sparrow de Piratas do Caribe e Sweenney Todd, o barbeiro assassino de Tim Burton. Depp, despido de maquiagem ou roupas exóticas, enverga um sobretudo negro (bastante sóbrio) e uma metralhadora para viver um charmoso e cativante gângster. Um homem de verdade, para os padrões da década de 30, com códigos de ética muito próprios daquela época, quando os bandidos tinham mais charme que a polícia e  a corrupção, tal qual nos dias de hoje, era parceira tanto de mocinhos quanto dos degenerados. O bom desse filme é que, por contar uma história real, não cai no dramalhão, e por falar sobre o mitíco universo dos gângsters, não comete exageros de pancadaria ou violência gratuita. Existe charme até nas rajadas de balas. Particularmente gostei do resultado.

informante02O Informante – Para um jornalista, O informante é um filme que antes de mais nada, ressalta o quanto é frustrante as relações de dependência que os veículos de comunicação podem estabelecer com anunciantes, patrocinadores, investidores ou qualquer outro grupo que, em nome de preservar interesses próprios, sacrifique a veracidade dos fatos. Al Pacino, que dispensa apresentações, vive o produtor de um dos programas de maior credibilidade e popularidade da CBN, o 60 minutos. Também baseado em fatos reais – uma polêmica entrevista que um biologista ex-funcionário da indústria do cigarro deu a essa rede de TV em meados da década de 90 – O informante traz ainda Rossel Crowe em um dos seus grandes momentos no cinema, vivendo justamente o papel deste biologista que, após ser demitido, resolve abrir a boca e revelar todas as maracutaias que a poderosa indústria do cigarro promove em nome de esconder o alto teor viciante das substâncias que manipula. São dois dramas que se entrecruzam: O de Pacino, o produtor que luta de todas as formas para colocar a entrevista no ar, contrariando direção da emissora e acionistas; e o de Crowe, um homem dividido entre a mágoa de ter sido demitido, as dívidas com a hipoteca, a crise de consciência por ter contribuido para fabricar mais viciados em nicotina e ainda problemas familiares que incluem uma esposa que não se conforma em viver de forma modesta após a demissão do marido e uma filha com asma grave e que necessita do seguro de saúde, que ele não pode mais pagar. Seria o prato cheio para heroismos inverossímeis na realidade dura das redações ou para o novelão mexicano no caso do pai de família vivido por Russel Crowe. No entanto,  a economia e a direção até seca, em alguns momentos, de Michal Mann, sem falar na qualidade do elenco, contribuem para tornar esse filme um retrato muito próximo da realidade que envolve a briga de grandes comporações e a tentativa, cada dia mais utopica, de se fazer jornalismo livre, independente e de qualidade. Recomendo.

Ficha técnica:

o_informanteO informante (EUA, 1999)

Direção: Michael Mann

Gênero: drama

Duração: 157 minutos

Elenco: Al Pacino, Russel Crowe, Christhopher Plummer, Diane Venora…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s