Autores, Literatura

Moby Dick: para crianças, adultos e ambientalistas

O som do “canto” de uma baleia é de uma beleza e de uma tristeza que tocam lá no fundo da alma. É como se a nostalgia do mundo inteiro, de todas as eras de vida da Terra, pudessem conter nas notas emitidas por esses magníficos animais. Ouvi o canto da baleia uma vez e acredito que seja privilégio que baste para umas dez encarnações. Nem precisei me aventurar pelas costas geladas da Antártida, foi aqui mesmo, no litoral baiano. Já trabalhei para as baleias jubarte. Escrevia matérias sobre a migração delas todos os anos, para acasalar e ter filhotes nas águas quentes de Abrolhos. Era bom trabalhar para as baleias… Mas, lembrei das jubarte e do seu canto que inspirou inclusive as antigas lendas das sereias, por causa de uma cachalote, Moby Dick, a clássica baleia branca do romance homônimo de Herman Melville.

moby_dick_1Peço perdão aos leitores mais velhos do Mar de Histórias, se as vezes pareço didática demais, mas este blog não tem idade e  a forma de escrever tem de atender crianças de todos os tamanhos. Divido a minha leitura de Moby Dick com leitores pequenos e também com os crescidos que não se importam em admitir que “roubam” os livros das prateleiras dos filhos ou irmãos mais novos. Se bem que, em se tratando de Moby Dick, é leitura para qualquer geração. Sinceramente, defendo que os livros infantis sejam leitura obrigatória para qualquer adulto que quer permanecer com o espírito leve.

Se você, querido leitor, é um militante do Greenpeace, encare Moby Dick como uma homenagem do autor à força desses animais incríveis que são as baleias. Sei que as descrições de caça e abate das cachalotes ao longo do livro são cruelmente terríveis, mas servem como o registro de um passado que nenhum de nós quer que volte. Pense no protagonista da história, o amargo capitão Ahab, como um homem fascinado e ao mesmo tempo com um medo tão grande da magnitude da natureza, que sua única forma de reagir é tentando destruir um oponente maior, mais forte e  mais nobre.

Para quem tem menos de 15, trata-se de um dos livros de aventura mais fascinantes da história da literatura. Vale a pena conhecer o clássico, mesmo que você seja fã dos autores contemporâneos, de quem também gosto muito. Acredite que gente como Michel Ende ou Terry Pratchett cresceu lendo livros assim.

MobyDick2Moby Dick foi escrito em meados do século XIX, quando caçar baleias era uma prática comum e incentivada pelo governo. Herman Melville era marinheiro e se empregou em baleeiros ao longo da vida, daí que suas descrições detalhadas são a preciosa crônica de uma época. Inclusive, em um dos capítulos, o autor reflete sobre a crueldade da matança de baleias e chega a questionar se esses animais, tão impiedosamente perseguidos, correm risco de desaparecer. As reflexões do escritor porém, demonstram o ponto de vista de um homem que viveu numa época em que os mares da terra eram tão povoados de baleias, que parecia impossível que algum dia elas fossem sumir. Vivesse hoje, talvez ele tivesse transformado Moby Dick num libelo de proteção a esses animais. Talvez não, quem vai saber?

O livro, para quem nunca leu, é narrado por um jovem marinheiro chamado Ismael (o alter-ego de Melville). Ele relembra a trágica caçada do capitão Ahab a Moby Dick, uma descomunal baleia branca tida como a mais perigosa de todas as cachalotes, praticamente imortal, visto que sobreviveu a dezenas de ataques de baleeiras e traz no corpo diversas cicatrizes e até pedaços de arpão. Moby Dick é o leviatã bíblico, o monstro marinho que amedrontou a antiguidade, o pesadelo dos marinheiros, a mais temida e mais admirada das baleias.

Descrita como uma verdadeira entidade, é o herói da história, salvando outras baleias do ataque insensato do homem, destruindo embarcações para se defender. Seu duelo com o capitão Ahab é antigo e profundo, ambos trazem no corpo as marcas de lutas passadas, são dois velhos deuses cansados. Do jeito que a história é contada, parece não haver espaço no mar para duas vontades tão fortes. Tanto o capitão quanto a baleia branca sabem disso.

Os medos em Moby Dick são ancestrais, alimentados por superstições e profecias. Mas também é um  temor do desconhecido, do futuro, daquilo que está por vir. É uma das mais perfeitas metáforas da eterna luta do homem com Deus.

Quem é quem:

Herman MelvilleHerman Melville nasceu em 01 de agosto de 1819, em Nova Iorque (EUA) e morreu na mesma cidade, em 28 de setembro de 1891. Na juventude, foi marinheiro em navios baleeiros e quando morreu, era fiscal aduaneiro. De uma forma ou de outra, seja vivendo aventuras ou resolvendo burocracia, seu destino era o mar. Aos 13 anos, Melville ficou órfão de pai e teve de largar a escola para trabalhar e sustentar a mãe e os irmãos menores. A carreira literária começou em 1839, mas sempre paralela aos empregos em bancos e, principalmente, navios. Sua primeira obra publicada chama-se Fragmentos de uma escrivaninha. O primeiro livro Typee, é de 1846 e traz as memórias de uma aventura do escritor entre os índios typees, em cuja aldeia ele viveu por um mês, após um naufrágio e enquanto esperava resgate. Moby Dick, o livro mais importante da carreira de Melville, considerado um dos romances mais importantes da língua inglesa, foi publicado em 1851, primeiramente em três fascículos e depois, em um único volume. No entanto, o autor não foi reconhecido como um dos grandes em vida. Seus livros só ocuparam lugar de destaque no panteão da literatura no século XX.

Moby DickMoby Dick é uma baleia da espécie das cachalotes. É branca porque é albina. Cachalotes albinas são raras, mas existem. A cor tradicional da espécie porém é o cinzento, meio castanho à luz do sol. Pelo tamanho descomunal da baleia descrita por Herman Melville, é de se acreditar que Moby Dick seja um macho, visto que os machos da espécie costumam ser muito maiores que as fêmeas. As cachalotes chegam a ter 18 metros de comprimento, sendo que a cabeça tem um terço do cumprimento do animal. Só o cérebro do bicho pesa sete quilos. Ao longo dos século XVIII e XIX, as baleias em geral, sobretudo as cachalotes, foram caçadas e mortas por baleeiros. Na Europa do período, o âmbar cinzento (localizado nos intestinos do animal) e o espermacete, na cabeça, eram substâncias cobiçadas. O âmbar era muito procurado como fixador de perfumes, enquanto o espermacete servia para fabricar uma infinidade de coisas, de substâncias farmacêuticas a cosméticos. Até meados dos anos 80, as cachalotes ainda eram caçadas e mortas em regiões como a ilha da Madeira e o arquipélago dos Açores. Ainda hoje, tanto as cachalotes quanto outras espécies de baleias são animais ameaçados de extinção. O Japão por exemplo, é um dos países que ainda reluta em abolir a caça às baleias.

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Para ler Moby Dick:

Moby Dick_CosacEdição integral de luxo

Cosac e Naif

649 páginas

Preço médio: R$ 99,00

Moby Dick_Larousse

Adaptação infanto-juvenil

Clássicos Adaptados Larrouse

Larousse Jovem

120 páginas

Preço médio: R$ 21,00

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Para assistir Moby Dick:

moby-dick filme

Em 1956, o diretor John Houston filmou Moby Dick, tendo Gregory Peck no papel do capitão Ahab, o marinheiro que perde a perna e jura perseguir a baleia branca até o fim do mundo.

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8 thoughts on “Moby Dick: para crianças, adultos e ambientalistas”

  1. É um clássico maravilhoso que não deve ser desperdiçada. Moby Dick é épica, uma história que ilustra grandes cenas, preocupações filosóficas e dualidade que encontra-se em todas as criaturas. A história da grande baleia branca, é um magnífico dramatização do espírito humano em um cenário de natureza primitiva. Actualmente encontro-me ler este clássico, tomar algumas páginas e ele realmente está me cativar. Eu só vi o filme No Coração do Mar do Ron Howard é, e é um espetáculo visual bastante interessante que recebe cenas específicas com força suficiente. Uma grande história, grandes performances, grandes efeitos especiais e cenas de ação enérgicos, mas talvez o script é um pouco dispersos querendo cobrir muitos tópicos, a mensagem final não deixa de ser claro e não consegue mover como deveria.

    1. O Netflix também lançou uma série em dois episódios, baseada no livro Moby Dick. Ainda não assisti, mas pretendo ver e comentar aqui no blog também.
      Abraços e obrigada pelas contribuições no comentário. Vou buscar esse filme No Coração do Mar, para assistir :)

  2. Este é o pior livro que já li em minha vida. Uma frustração. Serve quando muito como um “Guia Anatômico para Duas Espécies de Cetáceos”. História fraca e desmotivante. Li de forma arrastada. Final completamente´pífio.

    1. Pena que você não tenha gostado. Para mim é um livro extremamente interessante, principalmente do ponto de vista psicológico. Você leu o texto na íntegra ou essas adaptações de bolso que mutilam os textos e o seu sentido? De qualquer forma, gosto é algo particular e não é porque Mobi Dick é um clássico da literatura universal que tem de agradar ou ser compreensível para todo mundo.

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