Cidadania, Datas, Geral, História

Dois de Julho, festa popular para a Independência

Alegoria simboliza participação dos indigenas na luta do Dois de Julho. Caboclo, no contexto da Guerra, tanto tem relação com os filhos de índios e brancos, que aderiram ao combate, quanto com as entidades indigenas mescladas com o Candomblé, eleitos como padroeiros populares da guerra, a quem se faz pedidos e de onde vem a força para enfrentar o combate
Alegoria simboliza participação dos indígenas na luta do Dois de Julho. Caboclo, no contexto da guerra, tanto tem relação com os filhos de índios e brancos, que aderiram ao combate, quanto com as entidades indígenas mescladas com o Candomblé, eleitos como padroeiros populares da guerra, a quem se faz pedidos e de onde vem a força para enfrentar o combate

Nesta quinta-feira é dia de ato cívico em Salvador. Lembro da infância e dos desfiles escolares. Vestida em saia plissada branca, camiseta branca, com duas fitas (uma verde e outra amarela) presas ao peito com um alfinete. Na cabeça, um chapeuzinho de cartolina que imitava o modelo usado por Maria Quitéria. Naquela ocasião, todas as meninas da escola aprendiam que soror Joana Angélica, a freira que morreu trespassada por golpes de baioneta para defender o convento da Lapa, e o soldado Medeiros, nome com o qual Quitéria, disfarçada de homem, se alistara no exército para ajudar a expulsar os portugueses do Brasil, eram as grandes heroínas da Independência. Outra cena da infância muito recorrente, o Afoxé Filhos de Gandhy é que arrastava a multidão da Lapinha até o Campo Grande, onde as imagens do Caboclo e da Cabocla (simbolizando a participação indígena na luta) eram depositadas para o início da devoção popular. Flores, bilhetes com pedidos, fotografias, religião afro indígena brasileira misturada com parada militar e festa do povo. Mas, se você não é de Salvador e não tem ideia do que o Dois de Julho significa para os baianos; pior, se não sabe da importância dessa data para a consolidação da Independência do Brasil, tentarei explicar, nas linhas que seguem. Pretendo revelar também, como descobri, em fevereiro de 2005, muitos anos depois dos desfiles vestidinha de Quitéria, a existência de uma terceira heroína na luta contra os portugueses. Uma mulher do povo, negra, analfabeta, mas com vontade de ferro. Maria Felipa de Oliveira entrou na minha vida para confirmar de uma vez por todas, que sem as mulheres, a luta contra os portugueses talvez tivesse outro desfecho.

Independência ou morte!

grito do ipirangaO que a historiografia oficial registra há muitos anos é que em 07 de setembro de 1822, D. Pedro, então príncipe regente brasileiro, ergueu a espada às margens do riacho Ipiranga e deu o grande grito “Independência ou Morte!” proclamando de uma vez por todas a separação do Brasil do domínio português. A cena, celebrizada em quadro do pintor Pedro Américo, era reproduzida nos livros didáticos da minha infância. Mas, só depois de mais velha, fui entender o que estava por trás do grito de D. Pedro. E descobri que o contexto histórico do período é tão importante, ou mais até, do que a atitude do regente.

Há quatro anos atrás, recebi como missão na redação do jornal onde trabalhava na ocasião, a tarefa de contar a história dos antigos engenhos e solares do recôncavo baiano. Foi assim que cheguei às origens do grito de Independência ou Morte!. Diante de mim, o solar Subaé, em Santo Amaro da Purificação. Por trás das suas paredes, os ecos de um passado nem tão remoto assim. Em 14 de junho de 1822, dentro desse solar, foi assinado um documento, pelos poderosos senhores de engenho da região, exigindo a libertação do Brasil do jugo português. Também em 25 de junho daquele ano, a cidade de Cachoeira, vizinha a Santo Amaro, proclamou-se independente em nome de todo o país e reconhecia Pedro I como governante perpétuo do Brasil. O movimento dos senhores de engenho, que na verdade refletia um forte anseio popular, chegou até a corte. Se D. Pedro declarasse o Brasil livre, os barões do açúcar, que eram os donos do dinheiro, o colocarim no trono e ele seria imperador do Brasil.

A encenação às margens do riacho Ipiranga teve forte impacto de marketing. Pois simbolizava a rebelião de um português, criado desde a mais tenra idade no Brasil, contra o seu país de origem, a casa paterna e a herança lusitana. Será mesmo? Mas, não podemos esquecer que houve uma articulação política forte, bem pensada e orquestrada pela elite brasileira do período. Era conveniente, naquele momento, que Brasil e Portugal se separassem. Os barões do açúcar sabiam disso e não davam ponto sem nó.

Mas, o que não pode ser esquecido quando se fala do Dois de Julho ou do processo de Independência como um todo, é que se não fosse a vontade popular e a valentia do povo que literalmente comprou a briga, os planos de D. Pedro e do seu baronato dos engenhos, tanto na Bahia, quanto em Pernambuco e demais estados, teriam sofrido uma grande mudança e poderiam nem dar certo. Foi o povo humilde que de fato colocou os portugueses para correr.

Batalha naval na Barra do Paraguassu

Morte do tambor Soledade, em Cachoeira, durante a Guerra da Independência
Morte do tambor Soledade, em Cachoeira, durante a Guerra da Independência

O comandante português se chamava Madeira de Melo e era general. Sua missão, garantir a posse do recôncavo, região rica desde os tempos da origem da colônia. Mesmo no século XIX, o açúcar ainda era um elemento forte na economia brasileira. Garantindo a posse do recôncavo, Madeira de Melo reinaria sobre a baía de Todos os Santos, golfo de mais de mil quilômetros quadrados. E, reinando sobre a baía, teria o controle do porto de Salvador, o mais importante do Brasil na época colonial e que, naqueles idos de 1822/23, ainda mantinha seu prestígio. O que o general não sabia é que no meio do seu caminho haveria uma cidade (Cachoeira) encravada às margens do rio Paraguaçu. Também não imaginava que na baía de Todos os Santos havia uma ilha (Itaparica). Muito menos sabia que na barra do rio, nos estreitos canais que levam o Paraguaçu a se derramar na baía, havia uma flotilha de saveiros disposta a infernizar a vida das grandes naus portuguesas. Liderando essa flotinha, um homem, mestre saveirista e tenente, João das Botas, que conhecia o intrincado mapa de canais do rio como a palma da sua mão.

A luta era desigual. Os portugueses tinham 41 embarcações de guerra, entre naus, brigues, corvetas, navios mercantes armados; 1.500 canhões e cinco mil marinheiros. João das Botas contava apenas com três saveiros, quatro barcos pequenos e uma escuna. Um peixe dourado chamando um tubarão branco para a briga. No entanto, quem conhece a geografia da baía de Todos os Santos sabe que ser pequeno e leve é vantagem, e das boas, na hora de atacar e se esconder por trás de recifes e ilhotas da região da barra do Paraguaçu e do arquipélago de Itaparica. A frota portuguesa não passava pelo Estreito do Funil e nem tinha como manobrar pelo traiçoeiro recife das Pinaúnas, colar de coral que contorna Itaparica e que desde o século XVI havia posto diversos navios a pique. Mas João das Botas passava com folga. Foi assim que, usando táticas de guerrilha, ele montou uma operação que consistia em cortar o fornecimento de comida e água para a frota de Madeira de Melo, que já havia sido escorraçada em Cachoeira. Sem poder navegar em águas tão traiçoeiras com seus navios de grande calado, o general mandava pequenos grupos em canoas. Era a festa de João das Botas. Os poucos marinheiros portugueses que conseguiam furar o bloqueio dos saveiros, teriam destino pior nas praias de Itaparica. Era lá que Maria Felipa e as mulheres que ela comandava, aguardavam os soldados…

Heroína negra e popular

Maria FelipaÉ impossível falar de Maria Felipa de Oliveira em poucas linhas. Sua biografia merece um capítulo (melhor dizendo, um post inteiro). Prometo continuar contando a história dela nesta sexta-feira. Por ora, conto para vocês o seu papel na Luta da Independência e de como o seu ódio atávico pelos portugueses (temos de lembrar que naquela ocasião éramos colônia e por isso o ódio do dominado pelo dominador se justificava) foi de grande ajuda para garantir a vitória em Itaparica. Sem essas lutas em Cachoeira e na ilha, o exército pacificador do general Labatut não teria dado o golpe de misericórdia no exército de Madeira de Melo. A moral da tropa portuguesa estava baixíssima. E não era para menos. Os soldados apanharam de Maria Felipa e das suas comandadas.

Conheci a história de Maria Felipa em janeiro de 2005. Um mês inteiro investigando a vida dela, até que em 20 de fevereiro daquele ano, uma reportagem com cinco páginas dividia com outras pessoas tudo o que aprendi sobre ela, graças a um grupo de pesquisadoras da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), capitaneadas pela professora Enyr Kleyde Vasconcelos. Naquele ano, a pesquisa da Uneb resgatava a importância da figura histórica de Maria Felipa e buscava garantir para ela, lugar de destaque entre as heroínas da Independência. Hoje, quatro anos depois, novas pesquisas são feitas sobre a heroína negra, que já foi tema de desfile no Carnaval, em 2006, e figura entre as personagens históricas que devem ser conhecidas nas salas de aula. A história do Brasil vem sendo reescrita, para valorizar a importância popular na construção do nosso imaginário coletivo.

Maria Felipa era marisqueira em Itaparica. Em janeiro de 1823, enquanto a luta pela Independência continuava acirrada na Bahia desde junho de 1822, antes até do Grito do Ipiranga, ela entraria para a história como líder de uma das maiores revoltas populares que eclodiram durante a guerra. Para impedir que os portugueses dominassem a baía de Todos os Santos e saíssem vitoriosos do conflito, todo mundo entrava na briga. Eram suas casas e famílias que os itaparicanos defendiam e não a pretensa coroa de D. Pedro. Incansável, Maria Felipa é apontada como autora de um ataque às canoas portuguesas – aquelas que tinham de ser usadas para atravessar o Estreito do Funil. Com um grupo de mulheres, ela ateou fogo aos barcos, não sem antes usar galhos de cansansão, uma planta que possui um veneno que provoca bolhas e coceira, para surrar os vigias das embarcações.

Boa atiradora, ela mirava certeira nos soldados. Também percorria as trincheiras, estimulando homens e mulheres a continuar lutando por suas vidas e por suas famílias. Recolhia feridos, se arriscava em busca de comida para os mais velhos e as crianças. Diz a lenda que era capoeirista, e que atravessava da ilha para Salvador, para jogar o brinquedo de Angola no Cais Dourado. Foi lá que ficou sabendo das articulações em prol da Independência e onde decidiu aderir à luta.

Joana D’arc brasileira

QuiteriaMeu fascínio por Maria Quitéria na infância tinha origem no fato curioso de uma mulher se vestir de homem, cortar os cabelos e se alistar no exército para combater homens, de igual para igual. Tinha também um pouco de tristeza pelo fato dela ter morrido, pobre, quase cega e isolada. Mas, na vida adulta, descobri que embora continuasse admirando Quitéria e tudo o que ela fez, em pleno século XIX, não deixei de compará-la com Maria Felipa, que não precisou se vestir de homem, que se afirmou na sua pele de mulher, vestindo sua saia de crioula, a bata e o torço. Quitéria por ser branca, figurava nas notas de rodapé dos livros da minha infância. Maria Felipa, até 2005, não passava de uma quase lenda, citada pelo pesquisador Ubaldo Osório, avô do escritor João Ubaldo Ribeiro.

Entendo que para uma moça, ainda mais sendo branca e com algumas posses, naquele período, só havia um destino possível: casar e parir. Quitéria subverteu essa lógica e mostrou que uma mulher pode fazer tudo, até lutar como um homem. Hoje, eu preferia que ela tivesse provado que uma mulher pode lutar como uma mulher. Mas feminismo era algo que não existia na época da heroína. Ainda assim, ela pode ser considerada uma patrona das feministas baianas.

Maria Quitéria nasceu em Cachoeira, no final do século XVIII (1792) e morreu em Salvador (em 1853). Na época em que saiu da casa paterna para lutar na Guerra da Independência, estava noiva. Era a filha mais velha e não tinha irmãos. Pediu autorização ao pai para se alistar, em lugar do filho homem que ele não tinha – as famílias estavam mandando seus filhos para se alistar no exército de Labatut e assim engrossar as fileiras para expulsar os portugueses. Quando teve o pedido negado, ela decidiu fugir. Já incorporada ao exército, foi descoberta pelo pai, que tentou levá-la para casa. A essa altura, o comando do exército já sabia do valor do soldado Medeiros e via na disposição de Maria Quitéria um forte incentivo. O povo simpatizaria com um exército que tratava uma mulher de igual para igual. Assim, ela manteve o posto. Quitéria fazia parte da tropa que venceu a célebre batalha de Pirajá, essa que comemoramos no Dois de Julho e que botou um fim à guerra, com a vitória dos brasileiros sobre os portugueses.

Após a guerra, recebeu algumas homenagens e o posto de Primeiro Cadete. Sendo perdoada pelo pai, se casou com o noivo deixado em prol da luta e teve uma filha. Quando seu pai morreu, ela tentou receber sua parte na herança familiar, mas acabou sendo prejudicada pela morosidade da justiça e de nada adiantou ser uma ex-combatente condecorada.

Mártir da Independência

Joana AngelicaA soror Joana Angélica não lutou na praia, como Maria Felipa, ou pegou em fuzis como Quitéria. Sua figura na luta da Independência é lembrada como mártir, devido a forma trágica como morreu, defendendo o convento da Lapa. Ela era a abadessa do convento na ocasião. Nasceu em Salvador, em 1761 e morreu em 19 de janeiro de 1823, antes dos conflitos do Dois de Julho. Durante a Guerra, os portugueses queriam transformar o convento em quartel. Para isso, tentaram invadir o local. Temendo que as monjas fossem violentadas pelos soldados, a abadessa se postou diante da entrada do convento e teria exclamado que as tropas só passariam por cima do seu cadáver. Foi morta a golpes de baioneta. O fim trágico da freira acabou virando um símbolo de resistência para o povo ultra católico do período. Chocados com a brutalidade dos portugueses, os moradores de Salvador buscaram formas de resistir e de ajudar as tropas do general Labatut a entrarem na cidade, o que só aconteceu em 02 de julho.

Sem a ajuda de Maria Felipa esgotando as tropas de Madeira de Melo em Itaparica, ajudando o trabalho da flotilha de João das Botas e animando o povo pobre e faminto a lutar por sua liberdade; sem o carisma do soldado Medeiros, que caiu nas graças do povo, e sem o sacrifício da freira, que causou revolta e virou a opinião popular contra os dominadores, talvez o general Labatut não tivesse vencido a guerra. Não dá para esquecer também da história do corneteiro Lopez, que ninguém sabe se por um blefe do exército brasileiro, bem menor do que o português, ou se porque era inexperiente, tocou avançar ao invés de recuar, levando os portugueses a acreditar que Labatut tinha recebido reforços que nunca existiram.

Representando todas as classes sociais, uma mulher negra, uma moça branca, uma freira, um saveirista tenente e um corneteiro viraram a vantagem a favor dos dominados, que se tornaram vencedores de uma guerra que tinha tudo para ser perdida.

Viva o Dois de Julho!

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*As fontes para este texto são as mais variadas e vão desde a memória, a minha e das pessoas incríveis que tive a chance de conhecer nos anos em que fui repórter, até documentos antigos pesquisados no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Biblioteca dos Barris, Biblioteca de Itaparica, Fundação Clemente Mariane, Arquivo Público do Estado; passando por livros como a História da Bahia, do professor Luiz Henrique Dias Tavares, as pesquisas lideradas pela professora Enyr Kleyde Vasconcelos, os relatos de Ubaldo Osório, os telefonemas intermináveis para “encher o saco” do professor Cid Teixeira, uma espécie de oráculo da história baiana e outras coisinhas que andei lendo aqui e ali. Não sou historiadora de formação, sou jornalista, mas tenho uma paixão incontrolável por saber coisas, uma curiosidade premiada, lembrando o título de um livro infantil de que gostava muito na minha época de escola.

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