Sobre Barton Fink e o ato de escrever

Barton FinkBarton Fink é um dos filmes dos irmãos Coen de que mais gosto. É o mais literário de todos. Uma metonimia sobre cinema e literatura, sobre o ato de escrever, o ato de roteirizar um filme, a criação e o delírio da arte. Assisti de novo este domingo. Puro deleite. Revi por causa de um conto de Neil Gaiman, O lago dourado dos peixes e outras histórias,  um dos textos da coletânea Fumaça & Espelhos.  Assim como em Barton Fink, no conto do autor britânico, um dos meus favoritos, um escritor de sucesso é chamado até a meca do cinema para escrever o roteiro de um filme de ação que será estrelado por uma celebridade. Colocam o autor, o conto é narrado em primeira pessoa, hospedado num velho hotel que já viu dias de glamour mas que agora não passa de uma espelunca decadente tal qual o hotel onde Barton Fink se hospeda no filme dos Coen. O autor do conto vai nos revelando como o ar de Los Angeles é sufocante e como seus neons brilham falsos para um escritor acostumado com a solidão, escura, fria e silenciosa, das noites de busca pelo fio da história. Após lutar dias e dias com um bloqueio criativo, finalmente ele conclui o roteiro e o leva ao estudio. Depois de ser empurrado de um lado a outro por produtores apressados e prolixos, o filme começa a ser rodado e os problemas do autor só se agravam. Os produtores exigem corte de cenas e inclusão de outras com tanta frequência, que ao final, o autor não reconhece mais a obra que criou. Frustrado, pega um avião e volta para a Inglaterra. A descrição dos conflitos do autor é perfeita, Neil Gaiman, por ser também roteirista, entende bem o mecanismo de funcionamento da indústria cinematográfica. O drama do autor sem nome do conto de Gaiman, a sensação é que lemos um trecho da vida do próprio escritor ao mesmo tempo em que mergulhamos num personagem criado por ele, é o mesmo encarnado tão bem por John Turturro em Barton Fink (vale abrir parêntese para o personagem de John Godman, que é sensacional). Mas os monólogos de Barton são geniais, cada vez que começa a falar do seu processo criativo, ele se inflama a tal ponto que contagia todos nós, espectadores do filme. Egocêntrico, paranóico, o estereótipo do artista engajado e absorvido pela sua causa, em busca daquela que será a grande obra da sua vida, sem tempo para ouvir nada além daquilo que está dentro da própria cabeça  – e só quem escreve e vive às voltas com personagens sussurrando trechos de diálogos ao ouvido, sabe do que falo. Não faltam o humor sarcástico dos Coen e os finais imprivisíveis e nada felizes, mas o que realmente me encanta nesse filme é a entrega completa de Barton Fink à sua arte, até a insanidade.

Outros filmes do fim de semana:

HairsprayHairspray – comédia musical. John Travolta está deliciosamente confortável no papel de uma dona-de-casa obesa e que tenta de tudo para ajudar a filha gordinha a se tornar estrela de um programa de TV. Ambientado no começo dos anos 60, é uma divertida crítica ao american way of life e a hipocrisia da classe média, racista e limitada do período. Filminho estilo sessão da tarde.

DreamgirlsDreamgirls – musical. Esse é um daqueles que na época do lançamento, em 2006, não fui assistir no cinema. Baseado na história da mitológica Motown Records e na vida dos artistas que integraram a gravadora, principalmente o grupo The Supremes, que revelou Diana Ross. A surpresa foi ver Eddie Murphy num papel dramático. O ator, afeito a comédias, algumas de gosto duvidoso, vive um artista do soul que perde seus dias de glória por conta de empresários inexcrupulosos, o que o leva ao vício em heroína e a morte por overdose. Como panorama do funcionamento da indústria fonográfica é muito interessante. Para mim, que gosto de R&B e sou fã de Ray Charles, a trilha sonora é um brinde a parte.

closerCloser – drama. É um filme que vale a pena rever muitas vezes. Nada de comédias românticas inocentes. Julia Roberts em um dos seus melhores papéis, na minha opinião, e olha que eu gosto das comédias românticas da atriz, me divertem muito. Clive Owen e Natalie Portman são os dois coadjuvantes que literalmente roubam a cena e seguram o filme junto com a protagonista. Tem Jude Law também, mas eu tenho uma má impressão desse rapaz. Ainda não vi um filme em que o ator me surpreendesse. Acho que é o efeito do primeiro papel dele que vi no cinema, o andróide inexpressivo de Inteligência Artificial. Depois de Rutger Hauer em Blade Runner, nenhum ator consegue me convencer vivendo um robô.

Anaconda, a sucuri assassina e engolidora de gente nos confins da Amazônia (de volta ao fim da adolescência), e Reino de Fogo, um ataque de dragões em pleno século XX, o que leva a detonação de armas nucleares (desse nunca tinha ouvido falar, mas encontrei zapeando na tv). Sem maiores comentários, passa-tempo em noite de insônia e fastio de palavras. Não gosto de filme b de Zumbi, me dá medo, apelei para os b de ação.

6 pensamentos sobre “Sobre Barton Fink e o ato de escrever

  1. puxa eu e a minha irma adoramosss… é tao…real é tao….esmocionante…tao maravilhoso!! se eu fosse jurada eu iria dar…10 nao, nao, 100% ou mais do que 100 iria dar milhoessss parabens beyonceeee!!!

  2. 1 – Não sabia de onde os Coen haviam tirado inspiração para criar Barton Fink, mas a semelhança com o conto de Gaiman pra mim não é falta de mérito e o fato de saber agora que eles se inspiraram em outro autor que foi “engolido” por hollywood, só aumenta meu fascínio pelo filme.

    2 – Adoro alguns cantores que gritam como James Brown e Aretha Franklin.

    3 – Eu gosto de closer, acho um filme interessante, gosto de julia roberts num papel em que ela aparece menos “pretty womam”, embora tenha me divertido muito na adolescência com as comédias tipo O casamento do meu melhor amigo.

  3. 1 – Sou muito fã de Barton Fink, um arraso de escrita, imagem e clima. Um grande “uau” do início ao fim. Os Coen, como fãs de romance policial, moldaram Barton Fink no escritor Raymond Chandler, que teve uma passagem catastrófica por Hollywood.
    2 – Dreamgirls: pânico de cantores que gritam em vez de cantar.
    3 – Closer: drama de relacionamentos no PET. Explico: as pessoas são tão pretensiosas e o texto é tão armado que, já disseram, a gente ouve o tictac do teclado enquanto os atores falam.

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