Jornalismo

Engolindo os jornalistas de canudinho

Que o ministro Gilmar Mendes disse bobagens das quais provavelmente venha se arrepender algum dia é inegável. No entanto, quando o assunto é o diploma dos jornalistas, outras tantas bobagens vem sendo ditas por aí, por gente que antes de ponderar a questão, atira para todo lado. Pensei bastante antes de meter minha colherzinha nesse angu, até porque, corro o risco de ser mais uma a dizer bobagens. Por discordar da posição de alguns dos meus colegas, corro o risco de ser linchada também. Mas eu acredito que só crescemos quando corremos riscos. As linhas que seguem são a chance de debater com quem tiver vontade e a partir daí, aprender muito no processo, talvez ensinar algumas coisinhas. Se não houver essa troca, perde a graça.

Antena desligada:

Não acompanhei no twitter o voto a voto sobre a exigência do diploma para o exercício do jornalismo e nem fiquei assistindo a TV Câmara, TV Senado ou coisa que o valha. Na hora que o pau estava quebrando em Brasília, eu exercia a profissão cobrindo outros fatos de igual ou até importância maior, como a maioria esmagadora dos meus amigos também jornalistas e como, acredito, a maioria dos jornalistas do país, incluindo aqueles que tinham como pauta acompanhar a votação. E nesse caso, se você está com uma pauta, concentrado nela, as poderações pessoais só virão depois que entregar seu material ao editor. É ilusão acreditar que o jornalista está antenado com tudo o que acontece, o tempo todo, em todo lugar. Na maioria das vezes, você fica antenado com o tema em que se especializou ao longo dos anos de exercício profissional. De resto, somos iguais a qualquer outra pessoa, sabemos do mundo o que sai nos noticiários impressos, on line, televisivos, radiofônicos. Ouvimos um bate-papo aqui e outro ali no ônibus, metrô, fila do supermercado ou banco. Lógico que, por sobrevivermos da venda de notícias, temos de acompanhá-las com mais afinco. E haja assinatura de revistas, jornais e internet banda extra-larga para dar conta de tanta informação. Ainda assim, alguma coisa vai escapar das antenas, pelo simples fato de que quem as carrega é um pobre mortal que precisa entre outras coisas, comer, dormir e ir ao banheiro.

As bobagens do ministro:

Entre as tantas bobagens que ouvi o ministro do Supremo Tribunal Federal proferir, seja porque a edição do noticiário na TV fez questão de enfatizar as abobrinhas ou porque li os trechos da fala da autoridade, algumas são tão equivocadas e risíveis que apenas demonstram o quanto o jornalismo, desde os seus primórdios até agora, é mal compreendido por quem está de fora e, pior, por quem está dentro do meio. Vou comentar só duas das aspas ministeriais, as que considero mais graves.

“Jornalismo é uma arte”. Fala sério! O jornalismo não é arte, é uma prestação de serviço. A profissão existe para prestar contas à sociedade das ações dos poderes constituidos e reconhecidos por essa mesma sociedade. O jornalismo existe para que as pessoas tenham acesso a informações que, se não fossem divulgadas, estariam confinadas apenas ao nicho de pequenos grupos. O jornalismo existe para fazer a informação circular em todos os meios. Existe para dar voz ao cidadão, do mais alto escalão do governo ao seu Zé que vende quiabos na feira. O jornalista em si não cria nada para ser um artista. Ele não trabalha com abstrações, mas sobre fatos concretos. Artistas trabalham com abstrações, criam com base no imaginário (individual ou coletivo), mas o jornalista precisa do fato para sobreviver. O que as pessoas confundem com arte é a capacidade que muitos jornalistas têm de escrever literariamente, de transformar esse fato cru em algo prazeroso. É como um bom professor, que inspira seus alunos. Mas o professor  – pelo menos aquele que não se dedica à pesquisa – também não cria, ele apenas se apropria do conhecimento criado coletivamente pela humanidade, transforma esse conhecimento e repassa.

“Jornalismo não é uma profissão de risco para exigir diploma e regulamentação”. Sinceramente, onde estava o ministro Gilmar Mendes quando os donos da Escola Base tiveram suas vidas viradas do avesso por erros de apuração e checagem numa denúncia que ao final se mostrou infundada? Como alguém que atua com informação pode não exercer uma profissão de risco? O jornalismo é uma das profissões mais arriscadas que existem. Seja porque o repórter pode levar um balaço no peito subindo um morro para acompanhar uma batida policial, seja porque pode virar prisioneiro de guerra, seja porque pode ser torturado e assassinado por regimes totalitários que não gostam de ver informação, certas informações, circulando; e, principalmente, porque ao usar o seu notebook, caneta, câmera ou qualquer outra forma de disseminar informação, ele pode construir ou destruir de um dia para o outro a reputação de alguém. Mandar inocente para a cadeia, mobilizar a opinião pública para que um assassino seja solto ou mudar os destinos de uma eleição são só os exemplos mais óbvios do poder da informação. Eu disse poder da informação e não do jornalista. O quarto poder não é e nem nunca foi o jornalismo, mas a informação e o direito que as pessoas tem a ela. Quem lida com informação, seja jornalista ou não, exerce profissão de alto risco.

Engolindo os jornalistas de canudinho:

Gutemberg aperfeiçoou os tipos móveis no século XV, ganhando para sempre o status de inventor da imprensa e por tabela, patrono do jornalismo. No entanto, quando a imprensa nasceu, o jornalismo ainda não existia. O que existia era a necessidade de fazer a informação, aquela confinada aos mosteiros da Idade Média, circular no meio do povo. A primeira informação largamente divulgada, vejam só, não era nenhum furo de reportagem sobre a corrupção deste ou daquele rei, mas a bíblia – o primeiro livro impresso em larga escala na história. Faz sentido, já que o cristianismo era a religião predominante. A importância da informação e o status de poder que ela confere é tão inegável que livros tem sido queimados ao longo do tempo, para impedir que informações  “perigosas” circulem. Foi assim quando Cortéz invadiu a América e dizimou o império asteca (pois é, os astecas tinham biblioteca) e foi assim também durante a vigência do nazi-fascismo, na revolução cultural de Mao, na China, na ditadura militar brasileira…

Com um contexto desses, a história do jornalismo é marcada por resistência tanto quanto a história dos jornais é marcada por interesses dos donos dos veículos. Do contrário, se os jornais fossem tão isentos, políticos não seriam donos de empresas de comunicação. O segredo está na comunicação, sempre. Rodamos, rodamos e caímos de novo no ato de informar. O sonho, a utopia melhor dizendo, é um jornalismo isento, mas nenhuma ideia humana é isenta, é ilusão acreditar em jornalismo independente. O máximo que conseguimos é exercício da profissão com dignidade, com coerência e ética. Mas, na minha modesta opinião, nenhuma das três coisas (dignidade, coerência, ética) somando-se ainda compromisso social com o ato de informar, são premissas inerentes e exclusivas do jornalismo. Escritores, marqueteiros, relações públicas, pedagogos, qualquer um que faça das letras e da informação o seu ofício, tem de ter dignidade, coerência, ética e compromisso social. Médicos, políticos, policiais, engenheiros, pedreiros, se for reparar com atenção, todas as profissiões, diplomadas ou não, exigem as mesmas coisas. Entre outras aptidões técnicas específicas, é necessário dignidade, coerência, ética (que pressupõe respeito) e compromisso social.

A faculdade de comunicação, a qual eu cursei e de onde saí diplomada em 1998, me ensinou a pensar criticamente. Através das leituras que fiz, dos debates, dos autores, da admiração incontida por alguns professores, da birra com outros, aprendi a discutir, analisar, ouvir todos os lados e ponderar todos os angulos de uma questão. Uma formação humanista como a dos filósofos. Mas a ser jornalista, a ser repórter, eu aprendi na rua, fazendo matérias, sentada no meio fio conversando com mendigos ou em salas refrigeradas falando com superintendentes. Aprendi jornalismo no dia-a-dia das redações, porque na faculdade, eu aprendi a ser uma pensadora da comunicação. Os cursos de hoje em dia visam mais a técnica do que a filosofia, mas ainda assim, ao longo dos anos em redação, nunca vi um jornalista sair pronto da sala de aula. Lido diariamente com moças e rapazes que tiveram aulas em laboratórios ultratecnológicos, que sabem usar as ferramentas sociais da internet, que dominam softwares, hardwares, mas que aprendem a informar com precisão é quando discutem com os editores, rescrevem materias para que se tornem melhores, reavaliam a sua postura diante de um fato.

Na minha opinião, a decisão do STF peca pela falta de informação do que é a profissão e da sua real função na sociedade. Mas ter ou não o diploma exigido na hora de arrumar emprego, de prestar concurso público, sinceramente é o menor dos problemas que os jornalistas enfrentam. O risco é que pessoas inexcrupulosas passem a se dizer jornalistas e a usar o ato de informar levianamente. Mas por acaso todos os jornalistas são santos? Por acaso não existem jornalistas mesmo diplomados que usam o ato de informar de forma quase criminosa? Talvez agora, diante de um  ato extremo e das bobagens ditas por Gilmar Mendes, o jornalismo, com e sem diploma, seja pensado num nível de responsabilidade social e não apenas como reserva de mercado ou corporativismo. Os cursos de jornalismo precisam ser repensados, para que se tornem cursos de comunicação capazes de dar noção crítica aos estudantes que entram na faculdade acreditando que vão sair de lá com o salário de William Bonner.

O jornalismo em si é a aplicação de técnicas de apuração e veiculação de informação. Com todo respeito aos meus colegas e a profissão que escolhi como modo de vida, qualquer pessoa com boa formação humanística e atento ao contexto social onde vive, capaz de escrever com coerência e capaz de ser o mais isento possível dentro das limitações humanas, além de ter bom senso, pode ser jornalista. É a ética que precisa voltar a ser discutida no exercício do jornalismo, na sociedade como um todo, e não apenas a presença ou ausência de um canudo. Nos primórdios, escritores, poetas, advogados eram também jornalistas. A sociedade evoluiu dos tempos de Rui Barbosa para cá, mas ao invés do jornalismo se disseminar como uma profissão praticada pelos melhores pensadores sociais, pessoas capazes de mobilizar outras para o pensamento critico e a cidadania, o que temos é muita gente de caráter duvidoso usando o diploma para obter favores. Sem falar claro, das pessoas que são diplomadas, mas incapazes de ler um texto de média complexidade, incapazes de empregar a língua corretamente, aprovadas no jogo mercantil das faculdades de comunicação que proliferam por todo lado.

Nem no lixo e nem “na parede da casa de vovó”:

Meu diploma não vai ser jogado na lata do lixo e nem me sinto ofendida ou agredida pela decisão do STF. Me sinto provocada, estimulada ao debate isento de interesses corporativos e a repensar papeis.  Entendo o sentido da existência do meu diploma como um passaporte para continuar estudando a comunicação e buscando, enquando ciência aplicada que ela é,  o benefício da sociedade onde vivo e que vou legar ao meu filho. E entendo o jornalismo como uma atividade técnica, porém dotada de grande missão social que outros jornalistas, antes de mim, antes dos 40 anos de vigência da obrigatoriedade do diploma, já praticavam. Tive colegas dentro das redações pelas quais já passei, e aprendi muito observando-os no dia-a-dia, que nunca frequentaram uma faculdade, mas entendiam de jornalismo mais do que os doutores da academia, que afinal de contas, são comunicólogos e entendem brilhantemente é da teoria da comunicação.

O cordelista Cuica de Santo Amaro, décadas antes das faculdades de jornalismo existirem, encarapitado no alto de um caixote de frutas, no meio da praça do Mercado Modelo, levava ao povo, em forma de trovas de cordel, informações que a imprensa comprometida sonegava e que o governo escondia. Ele, embora não tivesse diploma, não era menos jornalista que eu!

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4 thoughts on “Engolindo os jornalistas de canudinho”

  1. Olá, Andreia.Pra começar quero dizer que Gilmar Mendes não deve ser levado a sério. No que toca a exigência do diploma, não acho necessário, por uma série de razões que ficaria enfandonho discorrer sobre todas elas. Pra simplificar, digo que diploma não habilita ninguém ao exercício da escrita.Gostei do exemplo, dado por você, de Cuica de Santo Amaro. Perfeito. Quem conhece o a história dele há de concordar com a propriedade do modelo que você citou.

    1. Admiro Cuica e todos os livres pensadores que antes da existência das faculdades, já davam significativa contribuição ao jornalismo. Você tem razão Beto, para ser jornalista o diploma é só um detalhe…

  2. -> Exame da ordem e permissão para exercer somente para quem tem curso superior, de qualquer área resolve a questão da formação humanística, acho. É mais ou menos o que a Folha já faz hoje. Contrata formados e os submete a um teste rigoroso. (eu gosto de Gilmar Mendes, mas realmente, bola fora aqui).

    -> Amo os filmes todos dos posts anteriores.

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