“Vestida para matar”

Angie Dickinson em cena de Vestida para Matar

Angie Dickinson em cena de Vestida para Matar

Um amigo, que como eu, é fã incondicional de Hitchcock e como não podia deixar de ser, também admira Briam De Palma, o discípulo mais fiel do mestre do suspense, me avisou no trabalho que Vestida para Matar iria passar neste domingo na TV. Depois de uma sessão aventura revendo Keanu Reeves no papel do detetive-exorcista Constantine (que eu também gosto de uma boa aventura com doses generosas de misticismo) lá vou eu assistir Dressed to kill. Durante a tarde, eu e esse amigo estávamos analisando este e outros filmes de De Palma, Carrie – A estranha entre os preferidos. A cena do banho nas duas produções não podia deixar de ser dissecada – decupada para usar uma linguagem mais cinematografica.

O castigo imposto à personagem de Angie Dickinson me lembra o castigo imposto a Tippin Hedren em Os pássaros, só que ao invés de bicadas, navalhadas. O motivo: a sexualidade feminina, o desejo da mulher elevando a potência de algo insondável e satânico. Impossível lutar contra uma tradição de tantos milênios. Passam os séculos e os meninos ainda não conseguem entender direito esse negócio de concepção, não lidam bem com a existência do útero. Do contrário, como explicar tantos filmes girando em torno do mesmo tema?

A misoginia de Hitchcock é notória e graças a esse medo atávico das mulheres, o diretor ao mesmo tempo em que impunha verdadeiras torturas a suas protagonistas, tem o mérito de ter dado a cada uma delas personagens inesqueciveis e cenas antológicas. Me lembrei também de Nicole Kidman comendo o pão que o diabo amassou em Dogville, de Lars Von Trier, outro misógino. Aliás, no último festival de Cannes, durante a sessão de Anticristo, seu novo filme, ele admitiu que a sexualidade feminina é assustadora. Só o título da produção já é peculiar. Impossível não pensar na inquisição – “Queimem as bruxas!”. Uma amiga minha costuma dizer que toda mulher nasce com um pavor inconsciente de fogueira.

Vestida para Matar

Mas, voltando a Vestida para Matar… revejo o filme na minha fase reflexiva sobre a condição feminina e percebo que meu fim de semana girou em torno de uma trilogia incomum: Jes vous salue Marie, As pontes de Madison e para fechar o ciclo, De Palma retalhando uma mulher no elevador, minutos depois dela ter vivido uma aventura extra-conjugal. Antes do assassinato de Kate (a personagem de Angie Dickinson), uma piadinha infame: ela abre uma gaveta na casa do amante e descobre exames médicos que apontam “doença venérea” no rapaz aparentemente saudável. O filme é de 1980, a Aids ainda não tinha virado flagelo, sífilis e gonorréia serviam perfeitamente de punição para a “mulher má” que transou, sem camisinha, com um desconhecido. Traiu o marido, agora aguente as consequências.

Em comum com os três filmes e os outros que citei até agora no post, o desejo feminino e todas as sua nuances. Por que será que assustamos tanto? Taí um questionamento filosófico.

O policial que investiga a morte de Kate traduz toda a mensagem do filme quando chama a vítima de uma “louca ninfomaniaca”. Uma mulher que dá vazão ao próprio desejo é ninfomaníaca. Um homem que faz o mesmo, é homem, com H maiúsculo e pronto. É quase uma sentença judicial, melhor dizendo, biblíca: “Se ela não tivesse saído para procurar sexo, não teria morrido”.

Neste filme De Palma mostra que reza na cartilha do mestre Hitch e também na de Freud. O diretor constrói uma narrativa em que as duas histórias, a de Kate e a do seu terapeuta, se cruzam graças ao desejo, a necessidade de amor e satisfação de uma mulher madura, insatisfeita no casamento, e o conflito de gênero vivido por um transexual: um homem preso no corpo de uma mulher, “vítima” dos desejos masculinos e obcecado com a necessidade de livrar-se do gatilho que aciona esse desejo, ou seja, o falo. Fantástico, pura psicanálise, Freud literalmente explica.

O banho? Aah, sim o banho. Em Carrie – A estranha, são dois momentos. Perda da inocência, quando a protagonista descobre a primeira menstruação e autopurificação.  O corpo de Carrie, a menina que é o patinho feio da escola, sofre uma agressão, jogam tinta, humilham a moça no dia da sua formatura. É um estupro. Humilhar uma mulher, ferir sua vaidade, equivale a violentá-la. O banho redime, limpa, porque a vítima de uma agressão, apesar de ser vítima, sempre se sente suja, impura.

Já na cena inicial de Vestida para Matar, o banho, o toque da água, o carinho do sabonete na pele, é volupia, é um código. Kate, a mulher que se sente frustrada com o marido, acaricia o próprio corpo em busca de satisfação. O medo de envelhecer e não ser mais atraente, em conflito com a libido.

E nada disso é novidade, criticos de cinema e psicanalistas já fizeram análises semelhantes. Mas eu precisava dividir com vocês a minha trilogia particular.

2 pensamentos sobre ““Vestida para matar”

  1. Oi Ivana,
    Realmente cometi um lapso e confundi os dois diretores. Inclusive, Lars Von Trier também é o diretor de Anthichrist, o filme lançado em Cannes que também cito no post e atribuí erroneamente a Van Sant. Obrigada por me chamar atenção pelo erro. A correção já foi feita no post. Obrigada também pela visita ao blog.
    Um abraço!

  2. Otima análise!

    Só gostaria de avisar que Dogville é dirigido por Lars von Trier e não Gus Van Sant ;)

    De resto, parabéns pelo blog!

    :*

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