Cidadania, Cotidiano, Crônicas

“Cadê minha moeda de 0,05?”

Da série Crônicas do Cotidiano

cinco centavosA passageira entrou no ônibus no ponto da Rótula do Abacaxi, o mesmo onde espero meu Pituba diariamente para ir ao trabalho. Era estudante universitária (dava para ver pelas roupas, o caderno e pelo ônibus, o mesmo que uso, que conduz até uma faculdade particular no Caminho das Árvores). O  smartcard (cartão de meia passagem estudantil usado em Salvador) acusou o fim dos créditos. O jeito era pagar inteira. A moça sacou R$ 2,25 e entregou ao cobrador. A passagem na capital é R$ 2,20, entre as mais caras do país para um serviço de péssima qualidade, fruto de um conglomerado mafioso de empresas que detém uma concessão para lá de duvidosa da administração municipal. R$ 2,25 entregues ao cobrador, mão estendida aguardando o troco de R$ 0,o5. O troco não veio. A moça pergunta: – “Cobrador, cadê minha moeda de R$ o,o5?” – Cara de poucos amigos, o cobrador pergunta de volta: “Quanto você me deu?”. A moça, visivelmente irritada, responde: “Dei R$ 2,25.” Ao que o cobrador, como se fosse a coisa mais normal do mundo, revida: “Tenho não. Se quiser, aguarde aí do lado, mas se tiver com pressa, fica pra próxima”. A moça não arreda pé da frente da catraca, exigindo seus 0,05.  Outros passageiros entram na próxima parada de ônibus. Uns tomam partido da moça, outros do cobrador. Alguns, “mais ricos”, resmungam que fazer questão de 0,05 é ser muito “miserave”. Mas o argumento da estudante é imbatível, chama-se lei da similaridade. “Se algum de vocês – ela fala para o ônibus todo – entrasse nesse coletivo e desse R$ 2,15 ao cobrador, ele ia chiar e dizer que tava faltando dinheiro. Nem ia deixar seguir viagem, mandava descer e ficaria resmungando que não ia botar 0,05 do bolso dele para cada passageiro que não tivesse a passagem completa. Agora, o contrário pode né? Pensem quanto as empresas não lucram se 20 pessoas por dia deixarem 0,05 em cada ônibus que pegam?”.  Infelizmente, a história não tem final feliz. O ponto da moça chegou, o mesmo onde eu desço, e ela teve de saltar do ônibus. Os seus 0,05 somaram-se aos cofres da empresa. Da mesma forma que ocorre em supermercados, quando nos oferecem uma bala de hortelã no lugar do troco. Uma amiga, certa vez, juntou um saco de balas e tentou pagar as compras com elas. Obviamente o gesto rendeu barraco no mercado. Cidadania, riscaram do dicionário essa palavra…

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