O escatológico mundo de Bukowski

Concluí a leitura de Ao Sul de Lugar Nenhum, livro de contos de Charles Bukowski. Como promessa é dívida, eis a sinopse, impressões de leitura, informações sobre o autor e um trechinho da obra:

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Literatura de desilusão. Eu definiria assim Ao Sul de Lugar Nenhum, se tivesse de colocar um rótulo na obra de Bukowski. As pouco menos de 300 páginas, divididas em microcontos que revelam um microcosmo de perdedores, bêbados, vagabundos e junkies de todo tipo, revelam uma daquelas viagens sombrias para o outro lado do sonho americano. O american way of life dos excluídos. É como assistir Requiém para um sonho, obra-prima de Darren Aronofsky.

Quem tem estômago muito sensível deve evitar o autor, porque o velho devasso Charles Bukowski consegue de maneira constrangedora, nos mostrar o quanto a condição humana, quando reduzida às suas excrecências, é medíocre. Sem o sucesso, sem a beleza, sem a maquiagem, somos o mais patético dos animais. Não é leitura para quem procura ilusão e sonho, mas para quem precisa de vez em quanto ser lembrado de que o material de que se constroem os sonhos é tão real quanto a vida fora dos livros.

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bukowski

Charles Bukowski morreu em 1994. Ele nasceu na Alemanha, em 1920, filho de um soldado americano e uma jovem alemã. Aos três anos se mudou para os Estados Unidos e foi criado numa região pobre de Los Angeles. Jornalista e escritor, publicou o primeiro conto aos 24 anos. Entrou e saiu de clínicas de reabilitação, ao longo da vida, por causa do alcoolismo. Seus contos e romances, – foram 45 livros ao todo -, tem caráter essencialmente autobiografico, mas não deixam de retratar uma geração inteira que perambulou “sem rumo” pelos sonhos esfacelados do entre guerras.

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Trecho de Colhões – protagonizado por Henry Chinaski (alter-ego do autor):

“Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados, com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões. Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.”

Ficha técnica para quem precisa de um choque elétrico:

ao sul de lugar nenhumAo Sul de Lugar Nenhum – histórias da vida subterrânea

Autor: Charles Bukowski

Tradução: Pedro Gonzaga

Editora: L&PM

Preço sugerido: R$ 38,00

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2 pensamentos sobre “O escatológico mundo de Bukowski

  1. Exatamente, por isso gosto tanto das suas histórias de submundo. Submundo esse criado a partir da exclusão daqueles que não se encaixam no american dream. Beijos!

  2. Os personagens do “velho safado” não encarnam as virtudes de dinamismo, otimismo e irresoluta iniciativa que a imprensa e a sub-literatura norte americana,junto com hollywwood, é óbvio, criaram para enganar o mundo. Bukowski despe a todos. O velho é, em última análise, o menino que vê que as vestes do rei não existem. O rei está nu. Beijos

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