Inconfidência de poetas – II parte

A inspiração para a Inconfidência Mineira vinha dos ideais iluministas da França, da conquista recente da independência pelas treze colônias inglesas nas américas (Estados Unidos) e da poesia. Pelo menos, dois dos líderes da conspiração eram poetas: Tomás Antonio Gonzaga e Claudio Manoel da Costa. Os dois faziam parte de um movimento chamado Arcadismo. Para quem começou a acompanhar as postagens sobre a inconfidência desde ontem, a promessa hoje era explicar o que foi o arcadismo e dar um pequeno perfil dos inconfidentes poetas, além de publicar um trecho do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles….

ARCADISMO – MOVIMENTO LITERÁRIO DOS INCONFIDENTES

Arcadismo: inspiração na cultura greco-romana e vida pastoril

Arcadismo: inspiração na cultura greco-romana e vida pastoril

O Arcadismo foi um movimento literário importado para a cultura brasileira. Sua origem está na Itália, no século XVII, mas a consolidação acontece no século posterior. O movimento também é conhecido por Neoclassicismo (retorno à cultura clássica greco-romana ). A inspiração era a antiga Arcádia grega, cidade proclamada como uma espécie de ideal da vida bucólica e pastoril. Da Itália, o movimento alcança Portugal e do reino, chega à sua colônia, perdurando no Brasil por boa parte do século XVIII. Uma das características mais marcantes do movimento era a adoção de pseudônimos por seus poetas, que escolhiam nomes de pastores gregos ou latinos e escreviam seus versos como se estivessem na pele desses pastores, vendo o mundo e o ideal de amor a partir do olhar ingênuo do homem do campo. Gentis pastorinhas, exaltação da natureza e uma busca incessante por paz de espírito são temas recorrentes nos poemas árcades.

TOMÁS ANTONIO GONZAGA – O DIRCEU DE MARÍLIA

tomas-antonio-gonzagaTomás Antonio Gonzaga nasceu na cidade do Porto (Portugal), em 1744 e morreu em Moçambique, exilado, em 1810, após ser preso com o desmantelamento da Inconfidência Mineira. O poeta se mudou para o Brasil logo depois de perder a mãe, com um ano. Morou em Pernambuco e na Bahia, onde estudou no Colégio dos Jesuitas, em Salvador. Na adolescência, voltou para Portugal, onde estudou Direito na Universidade de Coimbra. No retorno ao Brasil, fixou residência em Vila Rica (Minas Gerais) onde exercia um cargo público. Nessa época, escreveu As Cartas Chilenas, um poema satírico em que critica o governo colonial. É também dessa fase o poema lírico Marília de Dirceu. Alguns estudiosos dizem que a inspiração para a criação das líricas era a noiva do poeta, Maria Dorothéia, de quem ele terminou afastado após a prisão e o exílio. Tomás Antonio Gonzaga é também autor do Tratado de Direito Natural.

CLÁUDIO MANOEL DA COSTA

claudioO poeta Cláudio Manoel da Costa nasceu em 1729 e morreu na prisão, em 1789. Até hoje, um mistério ronda sua morte. Alguns pesquisadores dizem que ele teria sido assassinado a mando do governo; outros defendem que ele se suicidou por não suportar a humilhação da pena por ter participado da conspiração. Suas Obras Poéticas, de 1753, têm o status de representantes do arcadismo brasileiro. Os poemas de Cláudio, que marcam a transição entre o Barroco e o Arcadismo, eram assinados sob o codnome Glauceste Saturnino. Formado em Direito, era amigo de Tomás Antonio Gonzaga e de Alvarenga Peixoto, outro poeta inconfidente. Promovia saraus concorridos em sua residência, reunindo tanto intelectuais ligados ao movimento separatista quanto os árcades de Vila Rica. Sua participação na Inconfidência é mais intelectual do que bélica. Enquanto duvidava do sucesso militar do movimento, acreditava na República como forma de governo e chegou a projetar o funcionamento do edifício jurídico que seria sede do novo governo em Minas Gerais.

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CANCIONEIRO DA INCONFIDÊNCIA (Fragmento)

Cecília Meireles

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai, com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios,povos,tempos,
pelo vosso impulso rodam…
Detrás de grossas paredes,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação nem de hora…
– e estais no bico das penas
– e estais na tinta que as molha
– e estais nas mãos dos juízes,
– e estais no ferro que arrocha,
– e sois barco para o exílio
– e sois Moçambique e Angola!
Ai, palavras, ai, palavras,
ídes pela estrada afora
erguendo asas muito incertas
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo assopra…
Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois agora?
Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
– o olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
– a umidade dos presídios,
– a solidão pavorosa,
– duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
– e a sentença que caminha,
– e a esperança que não volta,
– e o coração que vacila,
– e o castigo que galopa…
Ai, palavra, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Perdão podíes ter sido!
– sois madeira que se corta,
– sois vinte degraus de escada,
– sois um pedaço de corda,
– sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa…
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem…
– sois um homem que se enforca!

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Para saber mais sobre a Inconfidência:

>>AQUINO, Rubim Santos Leão de; BELLO, Marco Antônio Bueno; DOMINGUES, Gilson Magalhães. Um sonho de liberdade: a conjuração de Minas. Editora Moderna, São Paulo; 1998

>>CHIAVENATO, Júlio José. As várias faces da Inconfidência Mineira. Ed. Contexto, São Paulo, 1989

>>MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2005

>>Artigo: A exasperante poesia na Inconfidência. Clique aqui para ler.

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