Geral, Reflexões

E um dia, lá estamos nós, brigando com quem amamos

verdade_blogÉ muito difícil dizer umas verdades para as pessoas de quem realmente gostamos. Mas, são justamente essas pessoas que merecem ouvir da gente a verdade. Muitas vezes, guardamos sentimentos, mágoas e opiniões com medo de ferir um grande amigo, um familiar, o amor. E, num dia em que estamos mais vulneráveis, a represa arrebenta e tudo aquilo que ficou guardado, soterrado por camadas e mais camadas de disfarce, vem a tona e as palavras que são ditas têm efeito devastador. Então, por que guardar sentimentos a ponto deles crescerem e se transformarem numa bomba relógio? É lógico que ninguém vai sair por aí como num filme de Almodóvar, passional, visceral, descontrolado. No cinema fica muito bem, até engraçado. Mas aqui do lado de fora, é muito cansativo viver o tempo todo no limite da emoção. Um certo autocontrole é importante até por autopreservação. Mas, guardar verdades que precisam ser ditas é um erro grave. A maioria dos homens, por exemplo, até por conta da educação que recebem, costumam represar sentimentos e detestam discutir relação, e por causa disso, as namoradas costumam abrir um dossiê onde vão guardando pequenas desfeitas, uma coisinha aqui e outra ali, que quando somadas, se transformam muitas vezes no estopim para o fim da relação. Se as coisas fossem ditas na hora que precisam ser ditas, não seria necessário uma atitude tão extrema. Com pais e filhos ocorre a mesma coisa. Vão se guardando pequenas contrariedades, até que elas viram tormentos e culminam com alguém saindo de casa para morar sozinho e levando anos e anos sem se relacionar com a família. Importantíssimo que um dia, todos nós deixemos o ninho para começar, quem sabe, outro ninho, mas que isso seja feito sem rompimentos drásticos. É muito triste passar o Natal sozinho (a) porque num acesso de raiva, despejamos sobre nossos pais uma lista de cobranças que, se tivessem sido feitas no tempo certo, teriam sido resolvidas sem rompimentos. Entre os amigos, o uso da verdade é cada vez mais raro nesse mundo de aparências. As relações são superficiais. Li outro dia no jornal uma reportagem que falava do começo e fim dos namoros e das amizades pela internet. Numa época de cultura e objetos de consumo descartáveis, pessoas também se tornam obsoletas e são relegadas a segundo plano, infelizmente. Como chamar de amigo do peito alguém que eu não vejo a não ser através de uma tela? Onde está a verdade no olhar de amizade dessa pessoa? Como ela se chama por trás do nick modernoso que usa? A tecnologia serve para muitas coisas, até para encurtar as distâncias longas que muitas vezes nos separam de amigos queridos, mas nenhuma tecnologia substitui o contato físico, o olho no olho, o sentir a emoção do outro no tom de voz. Creio que as gerações atuais, que se iludem a ponto de acreditar que seu melhor amigo está no msn, que discutem, rompem e reatam relações via internet, perderam a essência de humanidade e caminham a passos largos para tornarem-se tão impessoais quando um terminal de computador. Amigos verdadeiros, daqueles que podem te dizer na cara tudo o que está incomodando, tornam-se cada vez mais raros. Uma pena, porque geralmente, esses amigos que apontam o dedo nos nossos defeitos é que se preocupam conosco. Se preocupam tanto, que arriscam perder a amizade, arriscam nos contrariar, só para nos dizer que pisamos na bola. É importante manter a verdade como base das relações, sejam elas de amizade, amorosas, familiares, até mesmo no trabalho, entre colegas. Usar subterfúgios, meias palavras, reticências em uma conversa com alguém é sinal de que não damos a devida importância a essa pessoa e tanto faz se ela está bem ou mal. Quando gostamos realmente de alguém, mostramos a ele ou ela os seus equívocos e ficamos abertos também a ouvir críticas. E o problema reside justamente aí, na crítica. Ninguém gosta de ser criticado, nunca. Mesmo quando dizemos que as críticas nos fazem crescer, lá no fundo, na nossa vaidade ferida, detestamos ouvir que não somos perfeitos. Mas não somos mesmo. E por mais que a gente se esforce, sempre acabaremos desagradando alguém. E que bom, porque do contrário, seriamos tão artificiais, tão plásticos, tão sem expressividade, sem sentimentos verdadeiros, que a vida se tornaria insuportável. Quando era criança e minha mãe me pegava numa daquelas mentiras típicas da idade, sempre me brindava com uma palmada certeira. Mas quando eu admitia ter errado e contava para ela que quebrei o vaso de que mais gostava, era perdoada. Com o tempo, entendi que a verdade assusta, é meio dolorida à primeira vista, mas é bem menos assustadora que a mentira.

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